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sábado, 19 de novembro de 2016

Do jornal A União



 PERPLEXIDADE PARA QUÊ...

Com toda a vivência de uma já longa carreira, quase a atingir as “bodas de ouro”, vamos conquistando amizades (algumas inimizades, mas isso faz parte do “pão-nosso-de-cada-dia”), muitas delas de peito bem aberto. Como eu sempre digo, os amigos do peito, irmãos do coração. E muito tenho registado
nestas minhas encruzilhadas. E hoje, neste escrito, tem a ver com a de treinador do futebol sénior. Sim, do sénior porque, como é por de mais sabido, foi na formação onde encontrei a porta do sucesso, apesar de que, nos seniores, quer como treinador principal quer como adjunto (que o fui no Lusitânia e no Angrense), não desiludi ninguém. Com capacidade de trabalho e o desejado “ex professo”, fui chegando para as encomendas.

Dentro dos parâmetros do futebol sénior, e após ter alcançado sucesso organizativo e consequentes resultados a contento no Futebol Clube da Madalena (1985), em Janeiro de 1986 sou convidado pela direção do Sporting Clube da Horta para orientar a sua equipa principal cujo objetivo visava a conquista do título de campeão de ilha e da Associação de Futebol da Horta, desideratos conseguidos e, por ironia do destino, o de campeão da AFH no esgrimir com o anterior clube, o Futebol Clube da Madalena, tendo passado, para alguns mal-intencionados, de “herói a vilão”.

A competição de ilha, época de 1985-86, foi das mais renhidas até ao derradeiro jogo, com dois candidatos ao título: o “meu” Sporting e o Grupo Desportivo do Salão, superiormente orientado pelo grande amigo, do peito e do coração, Manuel Tibério Goulart Lino. Portanto, um esgrimir entre dois amigos na busca do ceptro de campeão, adiantando que a decisão ocorreu na Restinga, reduto do Salão, com a vitória a sorrir ao “meu” Sporting por 3-1. Muito embora o clube tenha deixado de participar na atividade futebolística (só o andebol está presente), o slogan HOJE E SEMPRE SPORTING continua bem vivo na minha memória.

Mas vamos agora entrar nos finalmentes (os entretantos já passaram), ligando a meada ao fio. E o fio tem a ver com esta paradigmática essência: aos sábados, por norma, e como a minha filha se deslocava da ilha do Pico para estar comigo (tinha apenas cinco anos) o meu querido amigo Manuel Lino fazia questão que eu almoçasse lá em casa com a família – a esposa Conceição e as três filhas, duas delas hoje já casadas. Como o tempo passa célere... -, ritual que mantivemos no sábado antes do jogo decisivo. Em casa, não se falou do futebol, paradoxal que possa parecer. Depois, como sempre acontecia, um género de “passeio higiénico” pela avenida, entrada no Largo do Infante e um cafezinho no Volga, visto que eu morava ali perto. Para nós, que sempre falamos a mesma linguagem futebolística, foi a sequência normal dos sábados anteriores. Contudo, para aqueles que pensavam diferente, isso pareceu um quadro de inusitada farsa, o que, na verdade, não correspondia aos nossos próprios pensamentos. Sabíamos que só um podia ser campeão, sabíamos que, bem lá no fundo, quem perdesse não iria ficar tão entristecido como, por exemplo, o título fosse para outra pessoa que não tivesse esse estigma de sã amizade. Pelo caminho, continuamos a não falar do futebol (alguns, conduzindo os seus carros, pareciam perplexos pelo que estavam a ver, assim no género: vão-se “digladiar” amanhã e estão a passear juntos?), idem no Café Volga (vimos, inclusive, alguns sorrisos marotos) e, na despedida, demos um abraço e um até amanhã. Antes de o jogo começar, desejamos felicidades um ao outro. No final, o Manuel Lino parabenizou-me e cada um seguiu o seu destino. Este foi um dos melhores exemplos que, quiçá, o futebol faialense conheceu. E como é valoroso o fato de duas pessoas, com os mesmos objetivos, defendendo cores diferentes, saberem que, dentro das quatro linhas, é que a amizade se separa por apenas noventa minutos (naquela época ainda não se falava em acréscimos). Este é mais um fato que, calorosamente, me apraz registar.








Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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