PERPLEXIDADE PARA QUÊ...
Com
toda a vivência de uma já longa carreira, quase a atingir as “bodas de ouro”,
vamos conquistando amizades (algumas inimizades, mas isso faz parte do
“pão-nosso-de-cada-dia”), muitas delas de peito bem aberto. Como eu sempre
digo, os amigos do peito, irmãos do coração. E muito tenho registado
nestas
minhas encruzilhadas. E hoje, neste escrito, tem a ver com a de treinador do
futebol sénior. Sim, do sénior porque, como é por de mais sabido, foi na
formação onde encontrei a porta do sucesso, apesar de que, nos seniores, quer
como treinador principal quer como adjunto (que o fui no Lusitânia e no
Angrense), não desiludi ninguém. Com capacidade de trabalho e o desejado “ex
professo”, fui chegando para as encomendas.
Dentro dos parâmetros do futebol sénior, e após ter alcançado sucesso
organizativo e consequentes resultados a contento no Futebol Clube da Madalena
(1985), em Janeiro de 1986 sou convidado pela direção do Sporting Clube da
Horta para orientar a sua equipa principal cujo objetivo visava a conquista do
título de campeão de ilha e da Associação de Futebol da Horta, desideratos
conseguidos e, por ironia do destino, o de campeão da AFH no esgrimir com o
anterior clube, o Futebol Clube da Madalena, tendo passado, para alguns
mal-intencionados, de “herói a vilão”.
A competição de ilha, época de 1985-86, foi das mais renhidas até ao
derradeiro jogo, com dois candidatos ao título: o “meu” Sporting e o Grupo
Desportivo do Salão, superiormente orientado pelo grande amigo, do peito e do
coração, Manuel Tibério Goulart Lino. Portanto, um esgrimir entre dois amigos
na busca do ceptro de campeão, adiantando que a decisão ocorreu na Restinga,
reduto do Salão, com a vitória a sorrir ao “meu” Sporting por 3-1. Muito embora
o clube tenha deixado de participar na atividade futebolística (só o andebol
está presente), o slogan HOJE E SEMPRE SPORTING continua bem vivo na minha
memória.
Mas vamos agora entrar nos finalmentes (os entretantos já passaram),
ligando a meada ao fio. E o fio tem a ver com esta paradigmática essência: aos
sábados, por norma, e como a minha filha se deslocava da ilha do Pico para
estar comigo (tinha apenas cinco anos) o meu querido amigo Manuel Lino fazia
questão que eu almoçasse lá em casa com a família – a esposa Conceição e as
três filhas, duas delas hoje já casadas. Como o tempo passa célere... -, ritual
que mantivemos no sábado antes do jogo decisivo. Em casa, não se falou do
futebol, paradoxal que possa parecer. Depois, como sempre acontecia, um género
de “passeio higiénico” pela avenida, entrada no Largo do Infante e um cafezinho
no Volga, visto que eu morava ali perto. Para nós, que sempre falamos a mesma
linguagem futebolística, foi a sequência normal dos sábados anteriores.
Contudo, para aqueles que pensavam diferente, isso pareceu um quadro de
inusitada farsa, o que, na verdade, não correspondia aos nossos próprios
pensamentos. Sabíamos que só um podia ser campeão, sabíamos que, bem lá no
fundo, quem perdesse não iria ficar tão entristecido como, por exemplo, o
título fosse para outra pessoa que não tivesse esse estigma de sã amizade. Pelo
caminho, continuamos a não falar do futebol (alguns, conduzindo os seus carros,
pareciam perplexos pelo que estavam a ver, assim no género: vão-se “digladiar”
amanhã e estão a passear juntos?), idem no Café Volga (vimos, inclusive, alguns
sorrisos marotos) e, na despedida, demos um abraço e um até amanhã. Antes de o
jogo começar, desejamos felicidades um ao outro. No final, o Manuel Lino
parabenizou-me e cada um seguiu o seu destino. Este foi um dos melhores
exemplos que, quiçá, o futebol faialense conheceu. E como é valoroso o fato de
duas pessoas, com os mesmos objetivos, defendendo cores diferentes, saberem
que, dentro das quatro linhas, é que a amizade se separa por apenas noventa
minutos (naquela época ainda não se falava em acréscimos). Este é mais um fato
que, calorosamente, me apraz registar.

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