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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Do jornalista João Rocha - Tia Cremilde a voar por conta das costas




 Tia Cremilde a voar

por conta das costas


A Tia Cremilde de Jesus, nada e criada no Raminho, tem vivido em clima de intensa excitação nos últimos dias. A culpa é de “uma coisa qualquer das costas que dá viagens quase à borla”.


Com 82 anos de idade e uma saúde de ferro, a Tia Cremilde, solteira e tão intacta como quando chegou ao mundo, nunca saiu da ilha Terceira e só vem à cidade (Angra, no caso) quando o rei faz anos.

Porém, um sobrinho, a estudar em Lisboa, fez questão de dar mundo à tia via voos low cost até porque é o mais sério candidato à herança de Cremilde de Jesus cujo lema de vida é “no poupar é onde está a poupança”.

Face ao inesperado convite, a calma rotina diária da Tia Cremilde alterou-se radicalmente. Deixou de jogar às cartas no Centro do Dia e quase nem conversa com as amigas “por causa dos enredos e mexericos”.

Vai à venda de manhã, volta logo para casa, arruma a bengala e vê telenovelas caldeadas com as notícias da CMTV.

Come frugalmente e o momento fetiche é quando o sobrinho, José de Jesus, lhe telefona por volta das 19 horas, sem falhar um único dia.

Ainda nem acredita como o sobrinho José conseguiu arranjar uma passagem tão baratinha para ir a Lisboa - 38 euros, já a contar com o regresso.

A estreia nas andanças de avião promete ser em grande. Comprou um vestido “lindo de morrer” nos chineses e a vizinha (Ernestinha da  Purificação, de sua graça) prometeu emprestar-lhe o atraente lenço para a cabeça com tons azuis e amarelos.

Depois, quer fazer uma surpresa das grandes ao seu único sobrinho estudante na capital há mais de 10 anos.

Levará duas malas a transbordar com produtos da nossa terra. Batatas, cenouras, alhos, azeitonas, três garrafas de verdelho dos Biscoitos e duas caixas de Donas Amélia fazem parte da bagagem.

E, faz questão, também transportará com as próprias mãos (a bengala é mais para meter estilo…) um alguidar de alcatra.

A senhora Ernestinha bem tentou alertar que nos aviões “destas coisas das costas” a bagagem é paga a preço de ouro.

Tia Cremilde, porém, está-se nas tintas. “O meu sobrinho é quase doutor e todos os meses mando-lhe um dinheirinho para Lisboa”, argumenta.

E depois de “andar pelo ar” está determinada em criar uma página “naquilo do Superbook dentro dos computadores” para colocar as fotos da viagem.

“As minhas amigas vão roer as unhas de inveja” diz ela para o espelho antes de experimentar o lenço azul e amarelo que promete fazer furor na baixa lisboeta.














Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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