Tia Cremilde a voar
por conta das costas
A Tia Cremilde de Jesus, nada e criada no
Raminho, tem vivido em clima de intensa excitação nos últimos dias. A culpa é
de “uma coisa qualquer das costas que dá viagens quase à borla”.
Com 82 anos de idade e uma saúde de ferro, a
Tia Cremilde, solteira e tão intacta como quando chegou ao mundo, nunca saiu da
ilha Terceira e só vem à cidade (Angra, no caso) quando o rei faz anos.
Porém, um sobrinho, a estudar em Lisboa, fez
questão de dar mundo à tia via voos low cost até porque é o mais sério
candidato à herança de Cremilde de Jesus cujo lema de vida é “no poupar é onde
está a poupança”.
Face ao inesperado convite, a calma rotina
diária da Tia Cremilde alterou-se radicalmente. Deixou de jogar às cartas no
Centro do Dia e quase nem conversa com as amigas “por causa dos enredos e
mexericos”.
Vai à venda de manhã, volta logo para casa,
arruma a bengala e vê telenovelas caldeadas com as notícias da CMTV.
Come frugalmente e o momento fetiche é quando
o sobrinho, José de Jesus, lhe telefona por volta das 19 horas, sem falhar um
único dia.
Ainda nem acredita como o sobrinho José
conseguiu arranjar uma passagem tão baratinha para ir a Lisboa - 38 euros, já a
contar com o regresso.
A estreia nas andanças de avião promete ser
em grande. Comprou um vestido “lindo de morrer” nos chineses e a vizinha
(Ernestinha da Purificação, de sua
graça) prometeu emprestar-lhe o atraente lenço para a cabeça com tons azuis e
amarelos.
Depois, quer fazer uma surpresa das grandes
ao seu único sobrinho estudante na capital há mais de 10 anos.
Levará duas malas a transbordar com produtos
da nossa terra. Batatas, cenouras, alhos, azeitonas, três garrafas de verdelho
dos Biscoitos e duas caixas de Donas Amélia fazem parte da bagagem.
E, faz questão, também transportará com as
próprias mãos (a bengala é mais para meter estilo…) um alguidar de alcatra.
A senhora Ernestinha bem tentou alertar que
nos aviões “destas coisas das costas” a bagagem é paga a preço de ouro.
Tia Cremilde, porém, está-se nas tintas. “O
meu sobrinho é quase doutor e todos os meses mando-lhe um dinheirinho para
Lisboa”, argumenta.
E depois de “andar pelo ar” está determinada
em criar uma página “naquilo do Superbook dentro dos computadores” para colocar
as fotos da viagem.
“As minhas amigas vão roer as unhas de
inveja” diz ela para o espelho antes de experimentar o lenço azul e amarelo que
promete fazer furor na baixa lisboeta.


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