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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Do jornalista João Rocha




Do nome errado

 a perguntas idiotas

                                                    
                                                 




O barulho de esferovite dá-me cabo dos nervos desde miúdo. Fico em pele de galinha sempre que abro algo protegido com a dita cuja.

Se fosse possível elaborar uma lista de erradicação das minhas arreliações, a pobre da esferovite já era.

Outra correção a fazer seria necessariamente a irritante situação de ser tratado por outro nome.

Volta e meia, lá aparece um cromo a chamar-me Mateus, quando dou pela graça de João. Ainda ostento Fernando em honra do padrinho de batismo, Sousa e Rocha, respetivamente, pelas heranças familiares materna e paterna.

Bem argumento que é João, mas acabo sempre por ouvir a mesma resposta: “o teu pai e irmão também se chamam Mateus”. Nem vale a pena referir que é nome próprio porque há batalhas que jamais podem ser vencidas.

Ainda no que ao tratamento pessoal diz respeito, faço ouvidos de mercador aos caramelos que me chamam de assobio em plena rua.

Quem também entra na minha “lista negra” são os adeptos de futebol que passam a vida a criticar as suas próprias equipas. Nos espaços comerciais, em dia de jogo, lá estão eles com os inevitáveis comentários: “Não jogamos nada”, “Este treinador é uma lástima” e “A minha sogra é mais rápida do que o ponta de lança”.

Não gosto ainda que me batam nas costas e, muito menos, ser confrontado com perguntas do género: “O seu café é normal?”, até porque desconheço em absoluto o psiquiatra da cafeína.

Odeio gralhas nos jornais, desfazer a barba diariamente e sinto-me capaz de me transformar num assassino em série quando fico empatado na fila do trânsito.

Detesto moscas, lugares escuros e usar camisas por dentro das calças, sendo que a minha desorganização constante começa a causar incómodo ao equilíbrio existencial.

Mesmo com água a potes, desespero em lugares abrigados e acabo por ficar encharcado e, consequentemente, submetido à inevitável questão idiota: “está a chover, João?”.

Nestes casos, a sorte do inquiridor é ter acertado no meu nome.






Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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