Do nome errado
a perguntas
idiotas
O barulho de
esferovite dá-me cabo dos nervos desde miúdo. Fico em pele de galinha sempre
que abro algo protegido com a dita cuja.
Se fosse
possível elaborar uma lista de erradicação das minhas arreliações, a pobre da
esferovite já era.
Outra
correção a fazer seria necessariamente a irritante situação de ser tratado por
outro nome.
Volta e
meia, lá aparece um cromo a chamar-me Mateus, quando dou pela graça de João.
Ainda ostento Fernando em honra do padrinho de batismo, Sousa e Rocha,
respetivamente, pelas heranças familiares materna e paterna.
Bem
argumento que é João, mas acabo sempre por ouvir a mesma resposta: “o teu pai e
irmão também se chamam Mateus”. Nem vale a pena referir que é nome próprio
porque há batalhas que jamais podem ser vencidas.
Ainda no que
ao tratamento pessoal diz respeito, faço ouvidos de mercador aos caramelos que
me chamam de assobio em plena rua.
Quem também
entra na minha “lista negra” são os adeptos de futebol que passam a vida a criticar
as suas próprias equipas. Nos espaços comerciais, em dia de jogo, lá estão eles
com os inevitáveis comentários: “Não jogamos nada”, “Este treinador é uma
lástima” e “A minha sogra é mais rápida do que o ponta de lança”.
Não gosto
ainda que me batam nas costas e, muito menos, ser confrontado com perguntas do género:
“O seu café é normal?”, até porque desconheço em absoluto o psiquiatra da
cafeína.
Odeio
gralhas nos jornais, desfazer a barba diariamente e sinto-me capaz de me
transformar num assassino em série quando fico empatado na fila do trânsito.
Detesto
moscas, lugares escuros e usar camisas por dentro das calças, sendo que a minha
desorganização constante começa a causar incómodo ao equilíbrio existencial.
Mesmo com
água a potes, desespero em lugares abrigados e acabo por ficar encharcado e,
consequentemente, submetido à inevitável questão idiota: “está a chover,
João?”.
Nestes
casos, a sorte do inquiridor é ter acertado no meu nome.


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