Soares é LIBERDADE
As eleições presidenciais em Portugal, no ano de 1986,
marcaram a minha primeira chamada de atenção para o mundo político.
Mesmo com pouco ou nenhum conhecimento real da política
(era um adolescente), marquei presença nos festejos, em Angra do Heroísmo, da
histórica vitória de Mário Soares sobre Freitas do Amaral.
Senti-me feliz e reparei nos rostos alegres das muitas
pessoas que foram à rua festejar.
No meu entender, Mário Soares é figura incontornável na
história coletiva de Portugal. Deu sempre o corpo às balas. Combateu ferozmente
uma execrável ditadura através de muitas formas. Foi preso, exilado, mas nunca
quebrou.
Está longe de ser uma figura consensual – aposto que
seria a última coisa que pretendia para si.
Soares assumia-se como um animal político na verdadeira
aceção da palavra. O confronto de ideias e ideologias dava-lhe colorido à
existência. Em relação à sua personalidade, não havia terceira opção, ou seja,
ama-se ou odeia-se.
Portugal é ainda muito mesquinho para avaliar a grandeza
humana e a ação política de Mário Soares.
A imbecilidade predominante não consegue fugir ao triste
universo das querelas partidárias.
O mundo inteiro elogiou o “pai da democracia” do nosso
país enquanto, por cá, o entretenimento era escolher o comentário mais imbecil
nas redes sociais sem o mínimo respeito pela agonia da doença de um homem com
92 anos.
Enfim, é o que temos. Mas os alarves podem continuar a
disparatar muito graças às conquistas democráticas de Mário Soares e muitos
outros políticos da mesma geração – estou borrifando-me para as cores dos
partidos.
Causou muitas invejas. Era inteligente, culto, humorado, bon
vivant e extramente bem relacionado.
Muito além de fixe, Mário Soares representa um
referencial de LIBERDADE. E, para um homem assim, a vida só pode ter sido uma
festa.


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