Paixão brava pelos toiros
Assumo desde logo: ocasionalmente vou a touradas
(começam a 1 de maio), mas jamais alinharei pela equipa dos fervorosos
aficionados. Escasseia-me conhecimento e, acima de tudo, paixão.
Por exemplo, em relação ao toiro, a
preocupação máxima, num arraial, não é ver o bicho, mas, antes pelo contrário,
fazer tudo (andando em sentido inverso é remédio santo...) para que ele não
bote a vista na minha sombra. A esta distância toda, sempre a contar com a
segurança dos riscos que limitam o percurso, mesmo que percebesse alguma coisa
do assunto, jamais poderia opinar sobre a bravura do toiro ou a habilidade do
capinha.
Posso, todavia, falar da paixão imensa de
tanta gente pela festa brava. O sentimento é contagiante. Defende-se ganadarias
e discute-se acaloradamente sobre o “melhor toiro”. Acicata-se rivalidades
inter-freguesias sobre a tourada à corda mais afamada. O arraial representa
pedaços de coragem de gente disposta a desafiar um animal, embora nobre, sempre
poderoso face à condição humana.
Há
gritos de medo por causa de uma iminente colhida e sorrisos arrancados por
momentos hilariantes que fazem as delícias dos caçadores de imagens. Os olhos,
mais entendidos, acompanham todos os passos dos toiros, enquanto que, noutra
latitude de interesses, cruzam-se olhares bordados de romance cúmplice dos
verdes anos.
E, como em tantas outras manifestações
culturais e sociais terceirenses, concilia-se diversão e trabalho. Toda esta
envolvência (homem/toiro) não é traduzível numa crónica de jornal e representa
quase um mundo à parte.
São rituais, cuja essência se encontra no
mato, que precisam de ser (re)vividos com vista à sua compreensão plena. Por
isso mesmo, na minha humilde opinião, as touradas à corda dificilmente serão
transformadas em produto turístico de massas.
O mais bonito, como vamos aprendendo pelo
andar da vida, só será visível pelo coração. Um inglês, por exemplo, preferirá
caçar raposas. Por aqui, a malta vai mais em touradas. No “quinto toiro” (comes
e bebes nas tascas e casas que gostam de receber familiares, amigos, amigos dos
amigos e até desconhecidos), estou seguro, o turista não terá a mínima
dificuldade de adaptação. Nestes casos, e dispensado até o recurso à Internet,
sabemos ser os tipos mais globalizantes de que há memória...
joaorochagenio@hotmail.com


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