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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Do jornalista João Rocha



 Paixão brava pelos toiros

                                                                                   


Assumo desde logo: ocasionalmente vou a touradas (começam a 1 de maio), mas jamais alinharei pela equipa dos fervorosos aficionados. Escasseia-me conhecimento e, acima de tudo, paixão.


Por exemplo, em relação ao toiro, a preocupação máxima, num arraial, não é ver o bicho, mas, antes pelo contrário, fazer tudo (andando em sentido inverso é remédio santo...) para que ele não bote a vista na minha sombra. A esta distância toda, sempre a contar com a segurança dos riscos que limitam o percurso, mesmo que percebesse alguma coisa do assunto, jamais poderia opinar sobre a bravura do toiro ou a habilidade do capinha.

Posso, todavia, falar da paixão imensa de tanta gente pela festa brava. O sentimento é contagiante. Defende-se ganadarias e discute-se acaloradamente sobre o “melhor toiro”. Acicata-se rivalidades inter-freguesias sobre a tourada à corda mais afamada. O arraial representa pedaços de coragem de gente disposta a desafiar um animal, embora nobre, sempre poderoso face à condição humana.

 Há gritos de medo por causa de uma iminente colhida e sorrisos arrancados por momentos hilariantes que fazem as delícias dos caçadores de imagens. Os olhos, mais entendidos, acompanham todos os passos dos toiros, enquanto que, noutra latitude de interesses, cruzam-se olhares bordados de romance cúmplice dos verdes anos.

E, como em tantas outras manifestações culturais e sociais terceirenses, concilia-se diversão e trabalho. Toda esta envolvência (homem/toiro) não é traduzível numa crónica de jornal e representa quase um mundo à parte.

São rituais, cuja essência se encontra no mato, que precisam de ser (re)vividos com vista à sua compreensão plena. Por isso mesmo, na minha humilde opinião, as touradas à corda dificilmente serão transformadas em produto turístico de massas.

O mais bonito, como vamos aprendendo pelo andar da vida, só será visível pelo coração. Um inglês, por exemplo, preferirá caçar raposas. Por aqui, a malta vai mais em touradas. No “quinto toiro” (comes e bebes nas tascas e casas que gostam de receber familiares, amigos, amigos dos amigos e até desconhecidos), estou seguro, o turista não terá a mínima dificuldade de adaptação. Nestes casos, e dispensado até o recurso à Internet, sabemos ser os tipos mais globalizantes de que há memória...
joaorochagenio@hotmail.com
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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