Tudo à mão de semear
A expressão é por demais conhecida: “lá fora é que é bom”. O
“complexo de inferioridade” pode ganhar dimensão assustadora nos Açores. A
realidade ilha fica sempre a perder quando comparada com o contexto nacional.
Lá, no Continente, é tudo melhor e maior. Há mais pessoas, coisas para fazer,
visitar, comprar, olhar e sei lá mais o quê.
Esta visão só começa a desfocar quando é conhecida
por dentro. Quando vivemos ou vamos lá (território continental), é que damos
conta que a ficção supera, em muitas ocasiões, a verdade dos factos.
Afinal, o fator distância, mesmo não tendo que
ultrapassar oceanos, também condiciona a vivência em “lugares grandes”.
Por exemplo, um lisboeta não vai de ânimo leve
gastar uma soma avultada (em combustível e portagens) para ir tomar um copo num
bar/discoteca do Algarve ou Porto.
Fazendo um paralelismo ainda com um habitante da
capital, desafio alguém que consiga tomar um banho de mar (Silveira ou Prainha,
por exemplo) a menos de 10 minutos de casa a pé, à semelhança do que acontece
com o autor destas linhas – e nem vou dar ao trabalho de comparar as
temperaturas da água...
Depois, podia falar das vantagens de morar próximo
do local de trabalho, do peixe fresco, de conhecer quase todos os funcionários
do “meu” banco, de cruzar-me com uma data de amigos e conhecidos diariamente.
Usando uma expressão popular, é caso para escrever que
temos tudo à mão de semear, realidade que se aplicava, obviamente, a qualquer
das nove ilhas do arquipélago.
Pode chover um bocadinho a mais, mas também não há
tanta gente a suspirar por dádivas de São Pedro?
Tudo isto para quê? Simplesmente para dizer que
gosto muito de viver no meu arquipélago, na minha ilha, na minha cidade, sem
nunca colocar em causa o amor pelo meu País.
Nada de discursos derrotistas e
complexados. Viver em sítios pequenos pode, perfeitamente, significar fazer
coisas tão grandes como a simplicidade. O nosso “cantinho”, estou em crer,
ocupa um belo “quinhão” do céu...


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