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domingo, 4 de junho de 2017

Do jornalista João Rocha



Tudo à mão de semear

                                                 
      

A expressão é por demais conhecida: “lá fora é que é bom”. O “complexo de inferioridade” pode ganhar dimensão assustadora nos Açores. A realidade ilha fica sempre a perder quando comparada com o contexto nacional. Lá, no Continente, é tudo melhor e maior. Há mais pessoas, coisas para fazer, visitar, comprar, olhar e sei lá mais o quê.

Esta visão só começa a desfocar quando é conhecida por dentro. Quando vivemos ou vamos lá (território continental), é que damos conta que a ficção supera, em muitas ocasiões, a verdade dos factos. 
Afinal, o fator distância, mesmo não tendo que ultrapassar oceanos, também condiciona a vivência em “lugares grandes”.
Por exemplo, um lisboeta não vai de ânimo leve gastar uma soma avultada (em combustível e portagens) para ir tomar um copo num bar/discoteca do Algarve ou Porto.
Fazendo um paralelismo ainda com um habitante da capital, desafio alguém que consiga tomar um banho de mar (Silveira ou Prainha, por exemplo) a menos de 10 minutos de casa a pé, à semelhança do que acontece com o autor destas linhas – e nem vou dar ao trabalho de comparar as temperaturas da água...
Depois, podia falar das vantagens de morar próximo do local de trabalho, do peixe fresco, de conhecer quase todos os funcionários do “meu” banco, de cruzar-me com uma data de amigos e conhecidos diariamente.

Usando uma expressão popular, é caso para escrever que temos tudo à mão de semear, realidade que se aplicava, obviamente, a qualquer das nove ilhas do arquipélago.
Pode chover um bocadinho a mais, mas também não há tanta gente a suspirar por dádivas de São Pedro?

Tudo isto para quê? Simplesmente para dizer que gosto muito de viver no meu arquipélago, na minha ilha, na minha cidade, sem nunca colocar em causa o amor pelo meu País.

Nada de discursos derrotistas e complexados. Viver em sítios pequenos pode, perfeitamente, significar fazer coisas tão grandes como a simplicidade. O nosso “cantinho”, estou em crer, ocupa um belo “quinhão” do céu...



Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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