PSEUDO-COROAÇÃO DO "CARLINHOS PAPAGAIO"
A máxima dele foi pegando: não é neste
domingo, é no outro e assim sucessivamente até se chegar à conclusão que esse
domingo nunca chegaria. Perdão, o domingo chegava, o acontecimento é que não.
O “Carlinhos Papagaio” transformou-se numa figura muito popular em Angra, à
semelhança do que se constatava com o “João dos Ovos”, “Joaquim das Horas”,
“Domingos Praça Velha”. Nessa altura, o “Zé Greta” ainda não andava nesta “alta
roda do popularismo”.
O nosso “Carlinhos Papagaio”, que creio estava no chamado Asilo de Mendicidade
de Angra do Heroísmo, sempre teve em mente realizar uma coroação e, como tal,
arranjou uma coroa (de lata, de papelão?) e com ela saia todos os dias para angariar
dinheiro para a pseudo-coroação. Sempre sorridente, o “Carlinhos Papagaio”
tinha a virtude de aceitar de cara alegre as brincadeiras que lhe eram
dirigidas, sobretudo no que concerne à famigerada coroação. Também tinha por
hábito, quase diariamente, percorrer as ruas do Corpo Santo, com a coroa numa
mão e na outra algumas ventoinhas que vendia à rapaziada. Ventoinhas feitas por
ele próprio. Sempre dava para amealhar uns cobres para matar o vício dos
cigarrinhos e, quiçá, de uma das bebidas mais apetecidas, na altura a meia-bola
de vinho de cheiro ou um copo de cachaça. Scotch só para gente fina.
Ainda hoje tenho as minhas dúvidas se o “Carlinhos Papagaio” ingeriu um copo de
“água da Escócia”. Água da torneira, essa sim, fazia parte dos hábitos do “Carlinhos
Papagaio”. E quando o “Carlinhos Papagaio” aparecia logo a pergunta,
praticamente em uníssono: “Carlinhos e a coroação?”. Resposta do “atrevido”:
“não é este domingo, é no outro”. Chegava-se ao “outro” e nicles! De novo o
“Carlinhos Papagaio” com o mesmo sorriso, descontraído: “Carlinhos quando é a
coroação?”. A mesma resposta: “não é este é no outro”. A expectativa ia
redobrando, mas o “Carlinhos Papagaio” estava-se marinbando. Recebia uns cobres
na coroa e a resposta era sempre a mesma, pronunciada com aquele sorriso (com
falta de alguns dentes) que o caracterizou: “não é neste é no outro”. E a
coroação do “Carlinhos Papagaio” ninguém a viu. E aquela coroa que ele
idealizou para amealhar uns cobres deve ter seguido com ele na urna. E quando
qualquer coisa que se anuncia e depois tem vários adiamentos, logo se cogita na
máxima do “Carlinhos Papagaio”: “não é neste é no outro”. E chega-se ao “outro”
é a mesma música. É quase como que um refrão de uma canção. E essa da
pseudo-coroação do “Carlinhos Papagaio” talvez tivesse dado uma bonita canção.
Talvez ninguém se lembrou disso. Naquele tempo eu era uma criança. E hoje sou
conhecido por “Carlinhos da viola”. Fui assim batizado recentemente pelo meu
“irmão gémeo” o “Zé da Pipa”, figura de proa do Portal Splish Splash.

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