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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Do jornal A União


PSEUDO-COROAÇÃO DO "CARLINHOS PAPAGAIO"


A máxima dele foi pegando: não é neste domingo, é no outro e assim sucessivamente até se chegar à conclusão que esse domingo nunca chegaria. Perdão, o domingo chegava, o acontecimento é que não.

O “Carlinhos Papagaio” transformou-se numa figura muito popular em Angra, à semelhança do que se constatava com o “João dos Ovos”, “Joaquim das Horas”, “Domingos Praça Velha”. Nessa altura, o “Zé Greta” ainda não andava nesta “alta roda do popularismo”.
O nosso “Carlinhos Papagaio”, que creio estava no chamado Asilo de Mendicidade de Angra do Heroísmo, sempre teve em mente realizar uma coroação e, como tal, arranjou uma coroa (de lata, de papelão?) e com ela saia todos os dias para angariar dinheiro para a pseudo-coroação. Sempre sorridente, o “Carlinhos Papagaio” tinha a virtude de aceitar de cara alegre as brincadeiras que lhe eram dirigidas, sobretudo no que concerne à famigerada coroação. Também tinha por hábito, quase diariamente, percorrer as ruas do Corpo Santo, com a coroa numa mão e na outra algumas ventoinhas que vendia à rapaziada. Ventoinhas feitas por ele próprio. Sempre dava para amealhar uns cobres para matar o vício dos cigarrinhos e, quiçá, de uma das bebidas mais apetecidas, na altura a meia-bola de vinho de cheiro ou um copo de cachaça.  Scotch só para gente fina. Ainda hoje tenho as minhas dúvidas se o “Carlinhos Papagaio” ingeriu um copo de “água da Escócia”. Água da torneira, essa sim, fazia parte dos hábitos do “Carlinhos Papagaio”. E quando o “Carlinhos Papagaio” aparecia logo a pergunta, praticamente em uníssono: “Carlinhos e a coroação?”. Resposta do “atrevido”: “não é este domingo, é no outro”. Chegava-se ao “outro” e nicles! De novo o “Carlinhos Papagaio” com o mesmo sorriso, descontraído: “Carlinhos quando é a coroação?”. A mesma resposta: “não é este é no outro”. A expectativa ia redobrando, mas o “Carlinhos Papagaio” estava-se marinbando. Recebia uns cobres na coroa e a resposta era sempre a mesma, pronunciada com aquele sorriso (com falta de alguns dentes) que o caracterizou: “não é neste é no outro”. E a coroação do “Carlinhos Papagaio” ninguém a viu. E aquela coroa que ele idealizou para amealhar uns cobres deve ter seguido com ele na urna. E quando qualquer coisa que se anuncia e depois tem vários adiamentos, logo se cogita na máxima do “Carlinhos Papagaio”: “não é neste é no outro”. E chega-se ao “outro” é a mesma música. É quase como que um refrão de uma canção. E essa da pseudo-coroação do “Carlinhos Papagaio” talvez tivesse dado uma bonita canção. Talvez ninguém se lembrou disso. Naquele tempo eu era uma criança. E hoje sou conhecido por “Carlinhos da viola”. Fui assim batizado recentemente pelo meu “irmão gémeo” o “Zé da Pipa”, figura de proa do Portal Splish Splash.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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