A Estupidez e a Maldade Humana
José Saramago
Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma
larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e
religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo,
desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as
razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se
dotou. Qualquer observador
imparcial reconheceria que nenhum deus de outra
galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu,
ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim,
estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do
Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos
de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos,
mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito
século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e
vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que
sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade
humana. E, já que estão com a mão na calculadora, não se esqueçam de incluir na
contagem um homem de 27 anos, de profissão jogador de futebol, chamado Andrés
Escobar, colombiano, assassinado a tiro e a sangue-frio, na célebre cidade de
Medellín, por ter metido um golo na sua própria baliza durante um jogo do
campeonato do mundo... Sem dúvida, tinha razão o Álvaro de Campos: "Não me
venham com conclusões! A única conclusão é morrer". Sem dúvida, mas não
desta maneira.

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