A PENEIRA
DOS SONHOS
Estava a
fazer limpezas na minha garagem, a escolher artigos para um possível
garage-sale, quando dei de caras com uma peneira! Sim, leram bem, uma peneira,
aquele utensílio que as nossas avós usavam nos dias de cozedura, para
separar a
farinha, de milho ou de trigo, das impurezas e dos gorgulhos.
Esta que
aqui tenho, comprei-a ao Ti “Capote”, um simpático velhote que descia dos
Biscoitos e as vendia pelas ruas da cidade ou as deixava, à consignação, nas
mercearias ou nos armazéns de produtos alimentícios. Lembro-me que a comprei mesmo
nas vésperas de deixar a Terceira, talvez no mesmo dia que apareceu, na Loja do
meu Pai, um moço que me disse ser o sacristão da Agualva e que trazia, numa
saca de lona, meia dúzia de cangas de carro de bois, feitas em miniatura, de
puro Cedro do Mato. Comprei uma também. Vieram as duas, a canga e a peneira,
comigo para a Califórnia. Assim como trouxe uma mão cheia de discos LP, dos
chamados “baladeiros” da música popular portuguesa, alguns dos meus livros
preferidos e umas cinquenta garrafinhas, miniaturas de vinhos do Porto, que
seriam o princípio de uma colecção que chegou até às 2.700 mas que está
encaixotada desde a minha última mudança de residência.
Não fui o
único emigrante que o fez. Agarramo-nos a objectos, a coisas que não
conseguimos deixar para trás quando abalamos para outra terra. Sei de alguns
exemplos que são mesmo engraçados.
Um amigo,
neto de um mestre bate-chapa, tem muito orgulho num jogo de dominó, as peças
superiormente feitas, pelo avô, de puro alumínio e que andou perdido, até que
alguém o reconheceu numa tasca das Quatro Ribeiras e o recolheu para devolver
ao legítimo dono; Outro amigo, numa das suas viagens de saudade, conseguiu
encontrar, intacta, uma garrafa de pirolito de laranja, um “pirolito vermelho”,
dos que eram feitos, na década de 60 do século passado, pela fábrica FAV e,
claro, não a deixou atrás; Um senhor com quem falei na festa de Gustine,
contou-me que mandou restaurar uma antiga máquina de debulhar milho à manivela,
máquina essa que o avô dele havia levado para a Serreta e que, agora, está de
novo na Califórnia. Coisas pequenas mas que, para os donos, têm o mesmo
simbolismo e o mesmo valor que têm, por exemplo, a grande quantidade de
chocalhos de folha e outros utensílios agrícolas do Senhor António Nunes, de
Merced, a valiosa e numerosa colecção de moedas do Senhor Policarpo Machado, de
San Leandro ou a miscelânea de livros, documentos, pinturas e obras de arte que
povoam a casa do director da “Tribuna Portuguesa”, de Modesto.
Mas esta
viagem de objectos que nos são queridos também acontece no sentido contrário,
ou seja, ainda há poucas semanas duas pessoas doaram as suas colecções a
instituições açorianas. Refiro-me à colectânea de fotos antigas, de temática
tauromáquica e ao belo presépio regional, fruto de muitos anos de trabalho, que
o Senhor Dimas Alves ofereceu e instalou na sua freguesia natal (Santa Bárbara,
na Terceira) e à enorme colecção de conchas marinhas do actor de cinema Raymond
Burr, pessoa que amava os Açores como se lá tivesse nascido e que vai já a
caminho do Núcleo Museológico da Horta.
São estas
paixões que nos mantêm ligados ao passado e aos antepassados das quais as
herdámos e que perpectuam muitas das nossas memórias. Todos nós temos um
pequeno museu ao nosso redor. Pode ser apenas um simples artigo – o terço que a
avó levava à missa, o relógio de bolso que o bisavô trouxe do Brasil... – mas é
sempre algo que guardamos com amor e que havemos de passar aos nossos netos. O
meu neto já me disse que o pião de buxo que guardo junto da canga e da peneira,
é para ele. A canga ele não quer – smart boy! – e a peneira, ele nem sonha para
que servia.
Era coisa
– a peneira – que já se usava pouco na nossa casa. Só mesmo quando se comprava
um quilo de farinha de milho ao moleiro da ladeira de São Francisco, para a Mãe
fazer uns pratos de “papas grossas”, um pitéu que o meu Pai não dispensava no
dia Primeiro de Maio. Mas recordo uma estória que li, ainda criança, num
daqueles inofensivos livros, que intercalávamos com o “Mundo de Aventuras”, dos
cowboys e dos índios, e que nos falava de uma peneira.
Dizia mais
ou menos assim... “Era uma vez um moleiro, rapaz alegre e folgazão, trabalhador
e muito educado. Passava o dia no seu moinho, estudava a direção e a força do
vento e montava as alvas velas de acordo com o que o seu velho pai lhe havia
ensinado. Ao fim da tarde, descia ao povoado, montado no seu jumento, a
distribuir as maquias pelos fregueses. Um dia, como tinha um pouco mais de
tempo livre, aproximou-se das muralhas do castelo e quedou-se a admirar a bela
donzela, fila do rei, que lhe acenava do alto da torre.
O nosso
jovem moleiro apaixonou-se! Encheu-se de coragem e foi pedir ao rei a mão da
filha em casamento. O monarca achou graça ao descaramento do moleiro e fez-lhe
um desafio... Que, no dia seguinte, lhe trouxesse uma das suas peneiras cheia
de farinha. Se lá chegasse com ela cheia, teria a princesa como esposa.
Pobre
moleiro! Mal dava dois passos, a farinha escoava-se. Repetiu a viagem dias e
dias a fio e nunca conseguiu o seu intento. Resignou-se, passou o resto da vida
a moer e a peneirar farinha, o seu amor pela bela princesa esfumou-se, tal qual
como a farinha que se sumia pelas malhas da peneira. Era a peneira que lhe dava
o ganha-pão mas foi também ela que lhe destruiu os sonhos”.
A minha,
que veio para a América como artigo de decoração e que nunca viu um pozinho de
farinha dentro de si, sempre serve para me ajudar a peneirar as memórias.
Lincoln,
Ca. Setembro 22, 2015
João
Bendito

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