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domingo, 26 de novembro de 2017

Da Califórnia de João Bendito

A PENEIRA DOS SONHOS

Estava a fazer limpezas na minha garagem, a escolher artigos para um possível garage-sale, quando dei de caras com uma peneira! Sim, leram bem, uma peneira, aquele utensílio que as nossas avós usavam nos dias de cozedura, para
separar a farinha, de milho ou de trigo, das impurezas e dos gorgulhos.
Esta que aqui tenho, comprei-a ao Ti “Capote”, um simpático velhote que descia dos Biscoitos e as vendia pelas ruas da cidade ou as deixava, à consignação, nas mercearias ou nos armazéns de produtos alimentícios. Lembro-me que a comprei mesmo nas vésperas de deixar a Terceira, talvez no mesmo dia que apareceu, na Loja do meu Pai, um moço que me disse ser o sacristão da Agualva e que trazia, numa saca de lona, meia dúzia de cangas de carro de bois, feitas em miniatura, de puro Cedro do Mato. Comprei uma também. Vieram as duas, a canga e a peneira, comigo para a Califórnia. Assim como trouxe uma mão cheia de discos LP, dos chamados “baladeiros” da música popular portuguesa, alguns dos meus livros preferidos e umas cinquenta garrafinhas, miniaturas de vinhos do Porto, que seriam o princípio de uma colecção que chegou até às 2.700 mas que está encaixotada desde a minha última mudança de residência.
Não fui o único emigrante que o fez. Agarramo-nos a objectos, a coisas que não conseguimos deixar para trás quando abalamos para outra terra. Sei de alguns exemplos que são mesmo engraçados.
Um amigo, neto de um mestre bate-chapa, tem muito orgulho num jogo de dominó, as peças superiormente feitas, pelo avô, de puro alumínio e que andou perdido, até que alguém o reconheceu numa tasca das Quatro Ribeiras e o recolheu para devolver ao legítimo dono; Outro amigo, numa das suas viagens de saudade, conseguiu encontrar, intacta, uma garrafa de pirolito de laranja, um “pirolito vermelho”, dos que eram feitos, na década de 60 do século passado, pela fábrica FAV e, claro, não a deixou atrás; Um senhor com quem falei na festa de Gustine, contou-me que mandou restaurar uma antiga máquina de debulhar milho à manivela, máquina essa que o avô dele havia levado para a Serreta e que, agora, está de novo na Califórnia. Coisas pequenas mas que, para os donos, têm o mesmo simbolismo e o mesmo valor que têm, por exemplo, a grande quantidade de chocalhos de folha e outros utensílios agrícolas do Senhor António Nunes, de Merced, a valiosa e numerosa colecção de moedas do Senhor Policarpo Machado, de San Leandro ou a miscelânea de livros, documentos, pinturas e obras de arte que povoam a casa do director da “Tribuna Portuguesa”, de Modesto.
Mas esta viagem de objectos que nos são queridos também acontece no sentido contrário, ou seja, ainda há poucas semanas duas pessoas doaram as suas colecções a instituições açorianas. Refiro-me à colectânea de fotos antigas, de temática tauromáquica e ao belo presépio regional, fruto de muitos anos de trabalho, que o Senhor Dimas Alves ofereceu e instalou na sua freguesia natal (Santa Bárbara, na Terceira) e à enorme colecção de conchas marinhas do actor de cinema Raymond Burr, pessoa que amava os Açores como se lá tivesse nascido e que vai já a caminho do Núcleo Museológico da Horta.
São estas paixões que nos mantêm ligados ao passado e aos antepassados das quais as herdámos e que perpectuam muitas das nossas memórias. Todos nós temos um pequeno museu ao nosso redor. Pode ser apenas um simples artigo – o terço que a avó levava à missa, o relógio de bolso que o bisavô trouxe do Brasil... – mas é sempre algo que guardamos com amor e que havemos de passar aos nossos netos. O meu neto já me disse que o pião de buxo que guardo junto da canga e da peneira, é para ele. A canga ele não quer – smart boy! – e a peneira, ele nem sonha para que servia.
Era coisa – a peneira – que já se usava pouco na nossa casa. Só mesmo quando se comprava um quilo de farinha de milho ao moleiro da ladeira de São Francisco, para a Mãe fazer uns pratos de “papas grossas”, um pitéu que o meu Pai não dispensava no dia Primeiro de Maio. Mas recordo uma estória que li, ainda criança, num daqueles inofensivos livros, que intercalávamos com o “Mundo de Aventuras”, dos cowboys e dos índios, e que nos falava de uma peneira.
Dizia mais ou menos assim... “Era uma vez um moleiro, rapaz alegre e folgazão, trabalhador e muito educado. Passava o dia no seu moinho, estudava a direção e a força do vento e montava as alvas velas de acordo com o que o seu velho pai lhe havia ensinado. Ao fim da tarde, descia ao povoado, montado no seu jumento, a distribuir as maquias pelos fregueses. Um dia, como tinha um pouco mais de tempo livre, aproximou-se das muralhas do castelo e quedou-se a admirar a bela donzela, fila do rei, que lhe acenava do alto da torre.
O nosso jovem moleiro apaixonou-se! Encheu-se de coragem e foi pedir ao rei a mão da filha em casamento. O monarca achou graça ao descaramento do moleiro e fez-lhe um desafio... Que, no dia seguinte, lhe trouxesse uma das suas peneiras cheia de farinha. Se lá chegasse com ela cheia, teria a princesa como esposa.
Pobre moleiro! Mal dava dois passos, a farinha escoava-se. Repetiu a viagem dias e dias a fio e nunca conseguiu o seu intento. Resignou-se, passou o resto da vida a moer e a peneirar farinha, o seu amor pela bela princesa esfumou-se, tal qual como a farinha que se sumia pelas malhas da peneira. Era a peneira que lhe dava o ganha-pão mas foi também ela que lhe destruiu os sonhos”.
A minha, que veio para a América como artigo de decoração e que nunca viu um pozinho de farinha dentro de si, sempre serve para me ajudar a peneirar as memórias.
Lincoln, Ca. Setembro 22, 2015
João Bendito
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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