AS VOZES DO POVO
Pediu-me, mesmo
ontem, o meu Amigo Carlos Alberto Alves, jubilado jornalista há vários anos
residente no Brasil, que escrevesse duas dúzias de linhas acerca de Ferreira
Moreno, pseudónimo de um grande jornalista e historiador, o Padre José
Ferreira. Embora não conhecesse pessoalmente o Sr. Padre Ferreira, pareceu-me
que seria capaz de responder ao desafio do C.A.A, dado que tenho um suficiente
conhecimento da obra deixada pelo sacerdote ribeira-grandense. Eis aqui o que
enviei para o Brasil e que penso o Carlos vai usar no seu interessante e bem
documentado blog:
“Ainda nem sequer eu pensava que ia ser imigrante na
Califórnia e já conhecia Ferreira Moreno.
Lia, assiduamente, as crónicas que ele publicava no
Diário Insular. Fiquei a conhecer, geográfica e socialmente, a terra onde
acabei por vir viver o resto da minha vida.
Aqui, no Estado Dourado, continuei a ser fiel leitor
do Padre José Ferreira. Vivíamos a poucas milhas de distância um do outro mas
nunca nos conhecemos pessoalmente. Apenas o encontrei uma vez, à saída de um
estabelecimento comercial português, onde fui comprar massa sovada e o Sr.
Padre Ferreira ia entregar alguns exemplares do jornal “Tribuna Portuguesa”,
para venda. Cumprimentou-me e falou-me como se fossemos velhos amigos.
Era assim, segundo me dizia quem bem o conhecia, o Sr.
Padre. Não só por ser sacerdote mas por ser um Homem educado, popular e culto.
Muito aprendi com as suas crónicas, cheias de
testemunhos e ensinamentos. Preocupava-o a comunidade imigrante e foi arauto
informado e sincero dos seus anseios e dificuldades. Ao mesmo tempo, teve
sempre o condão de passar aos seus inúmeros leitores tudo o que sabia – e não
era pouco – sobre a nossa História, sobre a cultura popular açoriana e sobre as
vivências dos seus irmãos imigrantes.
Pena que não tenha reunido em livro muitos dos seus
apontamentos, dispersos que estão por vários jornais da comunidade e dos
Açores.
Uma lacuna que, talvez, ainda possa ser remediada.
Ferreira Moreno, o Padre José Ferreira, merecia isso e
muito mais.”
Ferreira Moreno era
uma voz do povo. Falava (escrevia)
com o povo na língua (e na pena). Como ele, muitos outros andam por aí a
defender as lutas das gentes, a propagandear a cultura popular, a dar voz a
quem não a tem ou não a sabe usar.
Era ainda menino de
escola quando ouvi um senhor cantar e me apercebi que ele não era um cantor
desses de andar a sair pelos rádios fora ou a segurar um microfone num palco.
Tinha uma voz rouca, rústica, áspera. Aconteceu numa exposição agrária, no
Relvão, durante o que então se chamavam as Festas da Cidade, em Angra do
Heroísmo. A um canto, sem fazer parte do programa oficial do evento, juntou-se
um grupo de gente, entre eles um rapaz com uma viola e outro com uma rabeca. E
o tal velho cantou. Foi a primeira vez que ouvi a música O Caracol e ainda parece que estou a escutar a voz daquele homem.
Era uma voz do povo.
Se, nessa ocasião já
pudéssemos tirar partido das tecnologias que temos hoje à nossa disposição, de
certeza que se iam erguer meia dúzia de telefones celulares a gravar o momento.
Mas, que eu me lembre, nem um fotógrafo fez um “click” nem nenhum gravador
registou para a posteridade o que ali se passou. Registei-o eu na minha
memória...
Muito fez e talvez
ainda continue a fazê-lo, o nosso velhinho Rádio Clube de Angra –
apropriadamente conhecido por VOZ da Terceira - para gravar e depois transmitir
aos seus ouvintes, os maravilhosos sons das nossas gentes. No seu espólio estão
tesouros interpretados por artistas (génios?) que eram mais conhecidos pelas suas populares
alcunhas do que pelos seus nomes de batismo: o José da Lata, a Melra Preta, o
Joaquim dos Fados, até mesmo a famosa Tia Jerónima de Jasus (Criada de Vossa
Senhoria). E tantos outros.
Felizmente que em
todas as épocas vão aparecendo pessoas que, de forma mais ou menos
desinteressada ou então com algum fito comercial, se dedicam a procurar as
figuras castiças, a filmar conversas com pessoas que colecionam peças antigas,
outros que constroem artigos de artesanato ou simplesmente gente que tem gosto
em falar e tem alguma coisa engraçada para dizer. Hildeberto Franco, com a
ajuda de Fernando Pereira e outros amigos, lançou, já há vários anos, o Kanal
das Dozes, que tem sido um sucesso na plataforma MEO. Procurando temas
populares, transmite entrevistas com gente conhecida, filma touradas e tentas,
mostra-nos museus privados e faz-nos rir com as conversas um pouco desbocadas
da Tia Maria do Relógio ou da Mariquinhas Roseira da Ribeirinha. Basta, às
vezes, aparecer uma batata de tamanho descomunal para dar origem a uma filmagem
que é logo seguida por centenas de dedicados espectadores.
Outro produtor e
entrevistador que usa o formato de vídeo e que tem alcançado muito êxito na
Terceira e nas comunidades da diáspora é o já famoso homem do chapéu branco, o
altarense Ivo Silva. É vê-lo pela ilha inteira, com a sua câmara presa num
tripé, à conversa com pastores, capinhas, imigrantes e até pescadores de
calhau. Com um forte sentido social, Ivo Silva procura muitas vezes lugares,
pessoas e temas controversos, como seja uma reportagem que fez recentemente
sobre o miserável estado em que se encontra o edifício do antigo hospital de
Angra e a situação deveras angustiante de alguns sem-abrigo que lá procuram ter
um teto que lhes cubra as desventuras. Uma maneira de dar voz a quem não a tem.
Sem querer deixar de
parte outros arautos e espalhadores de cultura, que os há e muitos (estou-me a
lembrar, assim de repente, da VITEC, da Ratel Web Rádio e da Rádio Voz dos
Açores, na Terceira e, na Califórnia, da Portuguese Heritage Publications e da
Rádio Portugal-USA), gostaria só de manifestar o meu apreço pelo trabalho que o
editor e escritor Liduíno Borba tem trazido a público nos últimos anos. É
deveras impressionante o número de edições livreiras que a sua editora,
Turiscon, nos tem apresentado. Com particular incidência na divulgação das
biografias dos nossos cantadores ao desafio, Liduíno Borba tornou-se na ponte
que une as ilhas atlânticas e as comunidades da imigração, lançando livros
sobre figuras de destaque nos dois lados do mundo açoriano e preservando para o
futuro os seus nomes e obras.
Que continuem, estes
que eu trouxe a terreiro e os outros todos que não mencionei – sejam indivíduos
ou organizações – a manter bem clara a voz do nosso povo.
Não deixem, nunca,
que a voz vos doa.
Lincoln, Califórnia,
30 Dezembro, 2017
João Bendito

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