JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Da Califórnia - De João Bendito


AS VOZES DO POVO

 Pediu-me, mesmo ontem, o meu Amigo Carlos Alberto Alves, jubilado jornalista há vários anos residente no Brasil, que escrevesse duas dúzias de linhas acerca de Ferreira Moreno, pseudónimo de um grande jornalista e historiador, o Padre José Ferreira. Embora não conhecesse pessoalmente o Sr. Padre Ferreira, pareceu-me que seria capaz de responder ao desafio do C.A.A, dado que tenho um suficiente conhecimento da obra deixada pelo sacerdote ribeira-grandense. Eis aqui o que enviei para o Brasil e que penso o Carlos vai usar no seu interessante e bem documentado blog:


“Ainda nem sequer eu pensava que ia ser imigrante na Califórnia e já conhecia Ferreira Moreno.
Lia, assiduamente, as crónicas que ele publicava no Diário Insular. Fiquei a conhecer, geográfica e socialmente, a terra onde acabei por vir viver o resto da minha vida.
Aqui, no Estado Dourado, continuei a ser fiel leitor do Padre José Ferreira. Vivíamos a poucas milhas de distância um do outro mas nunca nos conhecemos pessoalmente. Apenas o encontrei uma vez, à saída de um estabelecimento comercial português, onde fui comprar massa sovada e o Sr. Padre Ferreira ia entregar alguns exemplares do jornal “Tribuna Portuguesa”, para venda. Cumprimentou-me e falou-me como se fossemos velhos amigos.
Era assim, segundo me dizia quem bem o conhecia, o Sr. Padre. Não só por ser sacerdote mas por ser um Homem educado, popular e culto.
Muito aprendi com as suas crónicas, cheias de testemunhos e ensinamentos. Preocupava-o a comunidade imigrante e foi arauto informado e sincero dos seus anseios e dificuldades. Ao mesmo tempo, teve sempre o condão de passar aos seus inúmeros leitores tudo o que sabia – e não era pouco – sobre a nossa História, sobre a cultura popular açoriana e sobre as vivências dos seus irmãos imigrantes.
Pena que não tenha reunido em livro muitos dos seus apontamentos, dispersos que estão por vários jornais da comunidade e dos Açores.
Uma lacuna que, talvez, ainda possa ser remediada.
Ferreira Moreno, o Padre José Ferreira, merecia isso e muito mais.”

Ferreira Moreno era uma voz do povo. Falava (escrevia) com o povo na língua (e na pena). Como ele, muitos outros andam por aí a defender as lutas das gentes, a propagandear a cultura popular, a dar voz a quem não a tem ou não a sabe usar.
Era ainda menino de escola quando ouvi um senhor cantar e me apercebi que ele não era um cantor desses de andar a sair pelos rádios fora ou a segurar um microfone num palco. Tinha uma voz rouca, rústica, áspera. Aconteceu numa exposição agrária, no Relvão, durante o que então se chamavam as Festas da Cidade, em Angra do Heroísmo. A um canto, sem fazer parte do programa oficial do evento, juntou-se um grupo de gente, entre eles um rapaz com uma viola e outro com uma rabeca. E o tal velho cantou. Foi a primeira vez que ouvi a música O Caracol e ainda parece que estou a escutar a voz daquele homem. Era uma voz do povo.
Se, nessa ocasião já pudéssemos tirar partido das tecnologias que temos hoje à nossa disposição, de certeza que se iam erguer meia dúzia de telefones celulares a gravar o momento. Mas, que eu me lembre, nem um fotógrafo fez um “click” nem nenhum gravador registou para a posteridade o que ali se passou. Registei-o eu na minha memória...
Muito fez e talvez ainda continue a fazê-lo, o nosso velhinho Rádio Clube de Angra – apropriadamente conhecido por VOZ da Terceira - para gravar e depois transmitir aos seus ouvintes, os maravilhosos sons das nossas gentes. No seu espólio estão tesouros interpretados por artistas (génios?) que  eram mais conhecidos pelas suas populares alcunhas do que pelos seus nomes de batismo: o José da Lata, a Melra Preta, o Joaquim dos Fados, até mesmo a famosa Tia Jerónima de Jasus (Criada de Vossa Senhoria). E tantos outros.
Felizmente que em todas as épocas vão aparecendo pessoas que, de forma mais ou menos desinteressada ou então com algum fito comercial, se dedicam a procurar as figuras castiças, a filmar conversas com pessoas que colecionam peças antigas, outros que constroem artigos de artesanato ou simplesmente gente que tem gosto em falar e tem alguma coisa engraçada para dizer. Hildeberto Franco, com a ajuda de Fernando Pereira e outros amigos, lançou, já há vários anos, o Kanal das Dozes, que tem sido um sucesso na plataforma MEO. Procurando temas populares, transmite entrevistas com gente conhecida, filma touradas e tentas, mostra-nos museus privados e faz-nos rir com as conversas um pouco desbocadas da Tia Maria do Relógio ou da Mariquinhas Roseira da Ribeirinha. Basta, às vezes, aparecer uma batata de tamanho descomunal para dar origem a uma filmagem que é logo seguida por centenas de dedicados espectadores.
Outro produtor e entrevistador que usa o formato de vídeo e que tem alcançado muito êxito na Terceira e nas comunidades da diáspora é o já famoso homem do chapéu branco, o altarense Ivo Silva. É vê-lo pela ilha inteira, com a sua câmara presa num tripé, à conversa com pastores, capinhas, imigrantes e até pescadores de calhau. Com um forte sentido social, Ivo Silva procura muitas vezes lugares, pessoas e temas controversos, como seja uma reportagem que fez recentemente sobre o miserável estado em que se encontra o edifício do antigo hospital de Angra e a situação deveras angustiante de alguns sem-abrigo que lá procuram ter um teto que lhes cubra as desventuras. Uma maneira de dar voz a quem não a tem.
Sem querer deixar de parte outros arautos e espalhadores de cultura, que os há e muitos (estou-me a lembrar, assim de repente, da VITEC, da Ratel Web Rádio e da Rádio Voz dos Açores, na Terceira e, na Califórnia, da Portuguese Heritage Publications e da Rádio Portugal-USA), gostaria só de manifestar o meu apreço pelo trabalho que o editor e escritor Liduíno Borba tem trazido a público nos últimos anos. É deveras impressionante o número de edições livreiras que a sua editora, Turiscon, nos tem apresentado. Com particular incidência na divulgação das biografias dos nossos cantadores ao desafio, Liduíno Borba tornou-se na ponte que une as ilhas atlânticas e as comunidades da imigração, lançando livros sobre figuras de destaque nos dois lados do mundo açoriano e preservando para o futuro os seus nomes e obras.
Que continuem, estes que eu trouxe a terreiro e os outros todos que não mencionei – sejam indivíduos ou organizações – a manter bem clara a voz do nosso povo.
Não deixem, nunca, que a voz vos doa.

Lincoln, Califórnia, 30 Dezembro, 2017

João Bendito




Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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