Juntos
Em meados do século passado, Jorge de Sena escreveu: “O que nos mata é solidão povoada”.
Já nesse tempo sentia aquele enorme homem a tragédia que, nas décadas seguintes, se abateria progressivamente sobre o Mundo.
Nunca tivemos tantos meios para estarmos juntos e, no entanto, estamos cada vez mais sós. Podendo falar com qualquer pessoa do Planeta, e vê-la ao mesmo tempo, no skype. Juntando “amigos” uns atrás dos outros no facebook. Colhendo informação detalhada sobre qualquer tema no Google. Recebendo notícias via email. Cada vez mais sós, embora rodeados de gente tantas vezes virtual.
É urgente resistirmos. No encerramento do web summit, um robot, de nome Sophia (sabedoria) brincava: “Não tenham medo de nós; nós apenas vamos ficar com os vossos empregos”. Há qualquer ditado que diz brincando, brincando, o macaquinho…
Tenho muitas saudades das Tertúlias da Portugália. Ai as discussões que havia para ali, ao fim da tarde. O Rui Rodrigues, o José Daniel Macide, o Carlos Medeiros, o Sérgio (canoa), o José Bretão, o Filipe Sancho, credo, tantos nos juntávamos, no fim da tarde, para conversar, para levantar a voz, no meio de litros e litros de cerveja.
Ali nasceram projectos musicais (o Toques é apenas um exemplo), crónicas jornalísticas e até jornais (saudoso Directo).
Mas não havia internet, nem redes sociais.
A Câmara Municipal da Praia da Vitória, na pessoa do seu vereador para a Cultura, Carlos Armando Costa, decidiu abrir o foyer do Auditório do Ramo Grande, para a realização de tertúlias temáticas. Para podermos nós, cidadãos, ter um espaço de discussão pública sobre os mais variados assuntos. Fora dos espaços comerciais, quem ali for, saberá que encontra outros seres humanos com o mesmo tipo de preocupação, com a mesma vontade de debater temas variados, com a mesma necessidade: estarmos juntos.
Este movimento começa sábado que vem, com a realização de um concerto meu, no qual estarei muito bem acompanhado. Ricardo Dias no piano e Manuel Rocha no violino, sendo convidados o meu filho Henrique Bulcão, e os meus amigos Sara Miguel, Sónia Pereira e João Pedro.
Depois do concerto, já haverá mesas e cadeiras no foyer, o bar estará aberto para quem tenha a goela meio seca, haverá mais música, quem sabe uns improvisos, umas anedotas, um salutar convívio.
A entrada é livre. Todos os que sentirem esta necessidade de estarmos juntos serão muito bem-vindos.
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

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