CULPA
O Günter Grass revelou que durante a Segunda Guerra Mundial foi
da SS nazista, o José Saramago contou que foi da juventude salazarista - e eu
também quero me confessar. Votei no Jânio Quadros! Pronto, está dito.
É verdade que eu era jovem, foi minha primeira eleição e o Jânio
Quadros podia ser maluco, mas não era fascista. De qualquer maneira, tenho esta
mancha no meu passado. Expiaria minha culpa regularmente com autoflagelação se
cada
vez que pegasse um jornal enrolado para bater na minha cabeça não me lembrasse de todos
os que andam por aí, com passados muito piores do que o meu, e não apenas não
se arrependem nem se punem como são figuras respeitadas nas suas profissões e,
em alguns casos, grão-senhores da República. Não vou ficar me martirizando
sozinho.
Hoje poucos se lembram que a
ditadura militar teve o respaldo civil do que era chamado, com razão, de maior
partido do Ocidente. A Arena era mesmo enorme, e abrigou quem quisesse fazer
carreira política mandando os escrúpulos às favas e apoiando o regime
ditatorial - e que revelou-se ser uma multidão. O outro partido da época, o
MDB, fazia oposição consentida, mas oposição. Depois transformou-se no PMDB de
hoje, cujo lema implícito é “Hay gobierno? Soy a favor”.
Pensando bem, é bom viver num
país em que o remorso não seja obrigatório, a coerência não seja
supervalorizada e as pessoas não sejam escravas do seu próprio passado. Nenhuma
confissão de pecados antigos terá aqui a mesma repercussão, ou a mesma
dramaticidade, ou até os mesmos desenlaces trágicos que têm em outros lugares.
Não temos o hábito de nos matarmos de vergonha, como no Japão, o que é
saudável. O lado ruim disso é que nos são negados os prazeres da contrição.
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