Óscar
Lopes catedrático num parecer de Nemésio
A. V.
Tudo em Nemésio possuía uma forte componente
afectiva. Posso testemunhá-lo em 25 anos de convívio diário, que, também, se
radicavam em mais de meio
século de relações íntimas com os meus pais. A minha casa de família, na
Ribeira Grande, e a relação fraternal com meu pai desde Coimbra, ambos da
Geração da Pré-Presença (revista Bysâncio), foram evocadas, entre
muitos outros expressivos documentos, no poema Rocha do Mar,
incluído no seu último livro, Sapateia Açoriana.
Em 1975, Vitorino Nemésio, que seguiu com apreensão o "Verão quente"
e sofreu alguns agravos pessoais, não hesitou em corresponder a um pedido de
Rui Luís Gomes, para, com outras individualidades, dar parecer, a fim de que
Óscar Lopes - que pertencia aos altos quadros do Partido Comunista - fosse
"proposto professor catedrático efectivo da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto, independentemente de concurso de provas públicas".
Vitorino Nemésio, que não hesitou um momento em se pronunciar favoravelmente,
deu-me cópia desse parecer e encarregou-me de o registar no correio para o
destinatário, o reitor Rui Luís Gomes.
O documento fala por si e revela os dotes de temperamento e de carácter de
Vitorino Nemésio. Tendo sempre em apreço os altos dotes científicos de uma
personalidade com a dimensão intelectual de Óscar Lopes, ultrapassava Vitorino
Nemésio, como se poderá ver, as divergências políticas e os antagonismos
ideológicos.
Pelo seu interesse, transcrevemos na íntegra o parecer, que até ao momento
permanecia inédito:
"O Ex.mo Reitor da Universidade do Porto, Prof. Doutor Rui Luís Gomes,
distinguiu-me pedindo-me parecer sobre os méritos do licenciado Óscar Luso de
Freitas Lopes, literariamente Óscar Lopes, professor efectivo dos liceus,
professor e comissionado da Direcção da Faculdade de Letras dessa Universidade
- a fim de que ela fundamente a proposta dele para a nomeação de professor
catedrático efectivo, independentemente de provas académicas formais.
Óscar Lopes tem uma longa e notável carreira de professor e de crítico, de
investigador das ciências humanas, de pedagogo e de metodólogo da didáctica de
vários graus de ensino. (Fez crítica aplicada de livros, durante anos, no O
Comércio do Porto e noutros jornais e revistas.)
A sua licenciatura em Filosofia Clássica (Lisboa), a sua preparação musical no
Conservatório do Porto e filosófica na Universidade de Coimbra, durante o
magistério de Joaquim de Carvalho; depois a sua frequência de universidades e
institutos estrangeiros, sempre levado por funda curiosidade científica
orientada para as novas correntes do surto das ciências sociais, prepararam-no
excepcionalmente para a situação de cumieira que ocupa na cultura portuguesa.
Dotado de viva inteligência, de agudo espírito crítico, do gosto da análise a
partir de enfoques múltiplos, alternando-a com sínteses parciais que procura
fazer convergir em conclusões globais seguras, a sua crítica da literatura
portuguesa e, em geral, do nosso pensamento é uma das mais fortes e fecundas. A
História da Literatura Portuguesa (manual), em colaboração com António
José Saraiva, na qual lhe coube sobretudo o período contemporâneo, foi a
primeira grande revelação do que afirmo. Um gosto literário seguro, aliado à
compreensão dos movimentos estéticos modernísticos e à posse de métodos
históricos e críticos actualizados, fez dele um dos mais influentes
historiadores actuais da cultura portuguesa, tanto na criação especificamente
literária como na história das ideias, na sociologia da cultura, na pedagogia e
nalguns aspectos da psicologia.
Uma boa preparação matemática permitiu-lhe propor-se tratar algoritmicamente
problemas de psicologia, linguística e semiótica em geral. (Para apoio destes
meus juízos permito-me remeter para a notória bibliografia do autor, abreviando
este já longo parecer.)
Não quero contudo rematá-lo sem aludir exemplificativamente às profundas e
vastas análises das obras dos nossos poetas e ficcionistas, principalmente do
movimento Orpheo para cá, na História da Literatura Portuguesa,
in História Ilustrada das Grandes Literaturas (Lisboa,
Estúdios COR). E ainda à rara capacidade de Óscar Lopes como organizador e
moderador de colóquios, conferências públicas, simpósios e congressos. Aí os
seus dons dialécticos e o seu bom sentido socrático do diálogo confirmam a
forte personalidade do professor e do crítico, cuja formação predominantemente
marxista não impede uma larga flexibilidade hermenêutica e uma visão original
das obras e das formas.
Tive o gosto de contar a Óscar Lo
pes, ainda bem jovem, como colaborador num
modesto e efémero seminário de Literatura Portuguesa que orientei em Lisboa,
pelos anos 30, no Centro de Estudos Filosóficos. Depois comentou oralmente no
Porto, como moderador de discussão pelo auditório, várias lições e conferências
minhas. De ambas as experiências guardo a melhor impressão, honrando-me de
poder ter participado assim de situações concretas do seu poder intelectual. No
privilégio de eu ter sido, como criador literário, alvo de extensos e benévolos
estudos seus não deveria falar, por melindre de suspeição.
Enfim, sou de parecer que o licenciado Óscar Luso de Freitas Lopes - Óscar
Lopes - tem méritos excepcionais para ser proposto professor catedrático
efectivo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, independentemente de
concurso de provas públicas, segundo a legislação vigente de provimento por
distinção ou escolha.
Lisboa, 10 de Julho de 1975/Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da
Silva.
Professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa (Filologia Românica)."

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