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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Os "Monstros Sagrados" jamais serão esquecidos - Vitorino Nemésio


Óscar Lopes catedrático num parecer de Nemésio

A. V.



Tudo em Nemésio possuía uma forte componente afectiva. Posso testemunhá-lo em 25 anos de convívio diário, que, também, se radicavam em mais de meio

século de relações íntimas com os meus pais. A minha casa de família, na Ribeira Grande, e a relação fraternal com meu pai desde Coimbra, ambos da Geração da Pré-Presença (revista Bysâncio), foram evocadas, entre muitos outros expressivos documentos, no poema Rocha do Mar, incluído no seu último livro, Sapateia Açoriana.

Em 1975, Vitorino Nemésio, que seguiu com apreensão o "Verão quente" e sofreu alguns agravos pessoais, não hesitou em corresponder a um pedido de Rui Luís Gomes, para, com outras individualidades, dar parecer, a fim de que Óscar Lopes - que pertencia aos altos quadros do Partido Comunista - fosse "proposto professor catedrático efectivo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, independentemente de concurso de provas públicas".

Vitorino Nemésio, que não hesitou um momento em se pronunciar favoravelmente, deu-me cópia desse parecer e encarregou-me de o registar no correio para o destinatário, o reitor Rui Luís Gomes.

O documento fala por si e revela os dotes de temperamento e de carácter de Vitorino Nemésio. Tendo sempre em apreço os altos dotes científicos de uma personalidade com a dimensão intelectual de Óscar Lopes, ultrapassava Vitorino Nemésio, como se poderá ver, as divergências políticas e os antagonismos ideológicos.

Pelo seu interesse, transcrevemos na íntegra o parecer, que até ao momento permanecia inédito:

"O Ex.mo Reitor da Universidade do Porto, Prof. Doutor Rui Luís Gomes, distinguiu-me pedindo-me parecer sobre os méritos do licenciado Óscar Luso de Freitas Lopes, literariamente Óscar Lopes, professor efectivo dos liceus, professor e comissionado da Direcção da Faculdade de Letras dessa Universidade - a fim de que ela fundamente a proposta dele para a nomeação de professor catedrático efectivo, independentemente de provas académicas formais.

Óscar Lopes tem uma longa e notável carreira de professor e de crítico, de investigador das ciências humanas, de pedagogo e de metodólogo da didáctica de vários graus de ensino. (Fez crítica aplicada de livros, durante anos, no O Comércio do Porto e noutros jornais e revistas.)

A sua licenciatura em Filosofia Clássica (Lisboa), a sua preparação musical no Conservatório do Porto e filosófica na Universidade de Coimbra, durante o magistério de Joaquim de Carvalho; depois a sua frequência de universidades e institutos estrangeiros, sempre levado por funda curiosidade científica orientada para as novas correntes do surto das ciências sociais, prepararam-no excepcionalmente para a situação de cumieira que ocupa na cultura portuguesa.

Dotado de viva inteligência, de agudo espírito crítico, do gosto da análise a partir de enfoques múltiplos, alternando-a com sínteses parciais que procura fazer convergir em conclusões globais seguras, a sua crítica da literatura portuguesa e, em geral, do nosso pensamento é uma das mais fortes e fecundas. A História da Literatura Portuguesa (manual), em colaboração com António José Saraiva, na qual lhe coube sobretudo o período contemporâneo, foi a primeira grande revelação do que afirmo. Um gosto literário seguro, aliado à compreensão dos movimentos estéticos modernísticos e à posse de métodos históricos e críticos actualizados, fez dele um dos mais influentes historiadores actuais da cultura portuguesa, tanto na criação especificamente literária como na história das ideias, na sociologia da cultura, na pedagogia e nalguns aspectos da psicologia.

Uma boa preparação matemática permitiu-lhe propor-se tratar algoritmicamente problemas de psicologia, linguística e semiótica em geral. (Para apoio destes meus juízos permito-me remeter para a notória bibliografia do autor, abreviando este já longo parecer.)

Não quero contudo rematá-lo sem aludir exemplificativamente às profundas e vastas análises das obras dos nossos poetas e ficcionistas, principalmente do movimento Orpheo para cá, na História da Literatura Portuguesa, in História Ilustrada das Grandes Literaturas (Lisboa, Estúdios COR). E ainda à rara capacidade de Óscar Lopes como organizador e moderador de colóquios, conferências públicas, simpósios e congressos. Aí os seus dons dialécticos e o seu bom sentido socrático do diálogo confirmam a forte personalidade do professor e do crítico, cuja formação predominantemente marxista não impede uma larga flexibilidade hermenêutica e uma visão original das obras e das formas.

Tive o gosto de contar a Óscar Lo

 pes, ainda bem jovem, como colaborador num modesto e efémero seminário de Literatura Portuguesa que orientei em Lisboa, pelos anos 30, no Centro de Estudos Filosóficos. Depois comentou oralmente no Porto, como moderador de discussão pelo auditório, várias lições e conferências minhas. De ambas as experiências guardo a melhor impressão, honrando-me de poder ter participado assim de situações concretas do seu poder intelectual. No privilégio de eu ter sido, como criador literário, alvo de extensos e benévolos estudos seus não deveria falar, por melindre de suspeição.


Enfim, sou de parecer que o licenciado Óscar Luso de Freitas Lopes - Óscar Lopes - tem méritos excepcionais para ser proposto professor catedrático efectivo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, independentemente de concurso de provas públicas, segundo a legislação vigente de provimento por distinção ou escolha.

Lisboa, 10 de Julho de 1975/Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva.

Professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Filologia Românica)."
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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