JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Os "Monstros Sagrados" jamais serão esquecidos - Natália Correia


Natália Hoje Reflexo da personalidade altamente complexa e contraditória da sua autora, o livro tem também aspectos reveladores daquela que foi uma das intelectuais mais marcantes da segunda metade do século xx português. “Para já porque traz um diário, mas também porque ela faz questão de introduzir ali as grandes linhas do seu pensamento. Dá a conhecer mais profundamente a sua visão do mundo e da humanidade. E nesse aspecto é um livro utópico, idealista
e desencantado ao mesmo tempo. Ela tinha acima de tudo um compromisso com a liberdade, que este livro revela muito bem.” Com o lançamento a coincidir com uma data histórica, os 40 anos do 25 de Novembro, desafiámos Vladimiro Nunes a imaginar o que pensaria Natália Correia sobre o momento político actual e um acordo de governo à esquerda.


“No essencial, penso que ela ficaria satisfeita por perceber que finalmente a democracia pode funcionar na sua totalidade com a intervenção de todas as forças, com os seus equilíbrios e desequilíbrios. Acho que isso a deixaria contente, perceber que o sistema é capaz de incluir todas as correntes de pensamento. Por outro lado, provavelmente não deixaria de ser impiedosa com a falta de qualidade humana e intelectual das lideranças políticas. De certeza que lhes ia reservar alguns julgamentos severos.”


Os cantares de amigo de Natália Correia: das queixas contra o Estado Novo ao êxtase do encontro com a Revolução dos Cravos Tatiana Aparecida Picosque USP Resumo O artigo aborda Cantigas de amigo, obra poética de Natália Correia publicada na categoria de inéditos dos anos noventas. A autora mescla o gênero cultivado nos primórdios da poesia portuguesa – no caso, as cantigas de amigo – com os acontecimentos políticos um tanto recentes em Portugal: o regime opressivo de Salazar e, particularmente, a liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos. Nestas cantigas, duelam a guerra e o amor, sendo que o último leva vantagem momentânea ao final. Palavras-chaves: poesia portuguesa contemporânea; Natália Correia; Cantigas de amigo; amor; Revolução dos Cravos. Abstract The paper approaches Cantigas de amigo, Natália Correia’s poetical work published in the category of unpublished of the nineties. The author matches the genre cultivated at early times of Portuguese poetry – in this case, the songs of friend – with recent political events in Portugal, namely: Salazar’s oppressive regime and particularly the freedom gained with the Carnation Revolution. In these poems, war and love fight, but love takes momentary advantage at the end. Keywords: contemporary Portuguese poetry; Natália Correia; Cantigas de amigo; love; Carnation Revolution. Natália Correia (1923-1993) nasce na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, mas parte aos 11 anos com a mãe e a irmã para Lisboa. Fixa-se então na capital e gradualmente urde sua obra singular e multifacetada, legando-nos livros de poesia, romances, ensaios, antologias poéticas e peças de teatro. Ademais, a autora atua de maneira decisiva no contexto da cultura portuguesa da segunda metade do século XX, sempre se opondo ao regime opressor de António de Oliveira Salazar (1889-1970). Pouco antes da Revolução dos Cravos de 1974, Natália Correia chancela, como diretora literária da Estúdios Cor, a publicação das Novas Cartas Portuguesas (1972), obra coletiva escrita por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, tendo sido o livro censurado, recolhido e todas as envolvidas processadas. Com as manifestações contrárias e o advento da Revolução dos Cravos, a responsabilização judicial perdeu o sentido. Em 1990, Natália publica Sonetos românticos, obra poética agraciada no ano subsequente com o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores Os cantares de amigo de Natália Correia: das queixas contra o Estado Novo ao êxtase do encontro com a Revolução dos Cravos RCL | Convergência Lusíada n. 31, janeiro - junho de 2014 178 (APE). O corpus que propomos para o nosso comentário analítico, as Cantigas de amigo, fecha a obra Poesia completa: o sol nas noites e o luar nos dias (1999) da autora e surge justamente após os Sonetos românticos, também coligidos. Saiba-se que a obra póstuma Poesia completa reúne cronologicamente os livros de poesia já publicados por Natália Correia, acrescentada destas cantigas inéditas que tornam ainda mais instigante o seu trabalho poético. Ainda não encontramos estudos minuciosos a respeito destas cantigas com as quais a autora pretendeu fazer “reflorir a sagrada matriz de nosso lirismo” (CORREIA, 1999, p. 619), a saber: as cantigas galego-portuguesas, mais especificamente os “cantares de amigo” (CORREIA, 1999, p. 620). Antes da apresentação das suas Cantigas de amigo, Natália Correia contextualiza-as, revela ao leitor o projeto poético que tinha para tais cantares: “Foi meu propósito anterior à publicação de Sonetos românticos juntar num mesmo volume dividido em duas áreas complementares sonetos e ‘cantigas de amigo’” (CORREIA, 1999, p. 619). Deste modo, as Cantigas de amigo originalmente integrariam de modo complementar um volume com os sonetos mencionados, o que não ocorreu. Mais adiante, Natália relata-nos que nos Sonetos já havia se consumado “a incorporação do fêmeo no macho e do macho no fêmeo” (CORREIA, 1999, p. 619) – a união do princípio feminino ao princípio masculino e vise-versa –, sendo assim as Cantigas de amigo acabaram se destinando a uma obra à parte, na categoria de inéditos posteriores a 1990. Ou seja, em um primeiro momento, os sonetos e as cantigas se complementariam, mas Natália verificou que estas extrapolariam aquele desígnio poético do qual os sonetos isoladamente tinham dado conta. De qualquer modo, notemos que as Cantigas de amigo foram dispostas como obra autônoma no intuito de constituir o remate de Poesia completa, portanto cumprem um papel relevante. O interesse de Natália Correia pela lírica profana galego-portuguesa é anterior a suas Cantigas de amigo, sendo esta revisitação aos cancioneiros medievais um gesto encontrado em diversos poetas portugueses do século XX, tais como Herberto Helder1 (1930-), contemporâneo a Natália e que em seu livro A faca não corta o fogo (2009) retoma uma cantiga de D. Dinis e também as de poetas provençais. No que tange à nossa autora, mencionemos outras três de suas publicações que envolvem as cantigas galego-portuguesas: Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica: dos cancioneiros 1 Diga-se de passagem que Herberto Helder colige diversos textos de Natália Correia em seu livro chamado Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa (1985).

O Hotel Britania, em Lisboa, decidiu homenagear Natália Correia, atribuindo o nome da escritora e poetisa nacional ao quarto 13, local onde terá escrito a peça “O Encoberto”, segundo informação enviada pela unidade hoteleira à imprensa.

À época em que Natália Correia ali escreveu “O Encoberto”, a unidade era propriedade de Alfredo Machado, marido da escritora, e tinha o nome de Hotel do Império, funcionando, muitas vezes, como uma extensão da residência do casal, famosa pelas tertúlias que ali decorriam nos anos 50 e 60 e que reuniam os maiores nomes da cultura e da literatura, quer nacionais, quer estrangeiros.

O hoje Hotel Britania era uma extensão da sua casa que se tornou conhecida como um local de resistência ao regime de Salazar. O quarto 13 apresenta agora uma decoração com livros, fotografias, cartas e postais, sem esquecer o champanhe francês, que remetem para o ambiente que se vivia na casa da escritora.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário