Natália Hoje Reflexo
da personalidade altamente complexa e contraditória da sua autora, o livro tem
também aspectos reveladores daquela que foi uma das intelectuais mais marcantes
da segunda metade do século xx português. “Para já porque traz um diário, mas
também porque ela faz questão de introduzir ali as grandes linhas do seu
pensamento. Dá a conhecer mais profundamente a sua visão do mundo e da
humanidade. E nesse aspecto é um livro utópico, idealista
e desencantado ao mesmo tempo. Ela tinha acima de tudo um compromisso com a liberdade, que este livro revela muito bem.” Com o lançamento a coincidir com uma data histórica, os 40 anos do 25 de Novembro, desafiámos Vladimiro Nunes a imaginar o que pensaria Natália Correia sobre o momento político actual e um acordo de governo à esquerda.
e desencantado ao mesmo tempo. Ela tinha acima de tudo um compromisso com a liberdade, que este livro revela muito bem.” Com o lançamento a coincidir com uma data histórica, os 40 anos do 25 de Novembro, desafiámos Vladimiro Nunes a imaginar o que pensaria Natália Correia sobre o momento político actual e um acordo de governo à esquerda.
“No essencial, penso que ela ficaria satisfeita por perceber que finalmente a
democracia pode funcionar na sua totalidade com a intervenção de todas as
forças, com os seus equilíbrios e desequilíbrios. Acho que isso a deixaria
contente, perceber que o sistema é capaz de incluir todas as correntes de
pensamento. Por outro lado, provavelmente não deixaria de ser impiedosa com a
falta de qualidade humana e intelectual das lideranças políticas. De certeza
que lhes ia reservar alguns julgamentos severos.”
Os cantares de amigo de Natália Correia:
das queixas contra o Estado Novo ao êxtase do encontro com a Revolução dos
Cravos Tatiana Aparecida Picosque USP Resumo O artigo aborda Cantigas de amigo,
obra poética de Natália Correia publicada na categoria de inéditos dos anos
noventas. A autora mescla o gênero cultivado nos primórdios da poesia
portuguesa – no caso, as cantigas de amigo – com os acontecimentos políticos um
tanto recentes em Portugal: o regime opressivo de Salazar e, particularmente, a
liberdade conquistada com a Revolução dos Cravos. Nestas cantigas, duelam a
guerra e o amor, sendo que o último leva vantagem momentânea ao final.
Palavras-chaves: poesia portuguesa contemporânea; Natália Correia; Cantigas de
amigo; amor; Revolução dos Cravos. Abstract The paper approaches Cantigas de amigo, Natália Correia’s
poetical work published in the category of unpublished of the nineties. The
author matches the genre cultivated at early times of Portuguese poetry – in
this case, the songs of friend – with recent political events in Portugal,
namely: Salazar’s oppressive regime and particularly the freedom gained with
the Carnation Revolution. In these poems, war and love fight, but love takes
momentary advantage at the end. Keywords: contemporary Portuguese
poetry; Natália Correia; Cantigas de amigo; love; Carnation Revolution. Natália
Correia (1923-1993) nasce na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, mas
parte aos 11 anos com a mãe e a irmã para Lisboa. Fixa-se então na capital e
gradualmente urde sua obra singular e multifacetada, legando-nos livros de
poesia, romances, ensaios, antologias poéticas e peças de teatro. Ademais, a
autora atua de maneira decisiva no contexto da cultura portuguesa da segunda
metade do século XX, sempre se opondo ao regime opressor de António de Oliveira
Salazar (1889-1970). Pouco antes da Revolução dos Cravos de 1974, Natália
Correia chancela, como diretora literária da Estúdios Cor, a publicação das Novas
Cartas Portuguesas (1972), obra coletiva escrita por Maria Isabel Barreno,
Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, tendo sido o livro censurado,
recolhido e todas as envolvidas processadas. Com as manifestações contrárias e
o advento da Revolução dos Cravos, a responsabilização judicial perdeu o
sentido. Em 1990, Natália publica Sonetos românticos, obra poética agraciada no
ano subsequente com o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de
Escritores Os cantares de amigo de Natália Correia: das queixas contra o Estado
Novo ao êxtase do encontro com a Revolução dos Cravos RCL | Convergência
Lusíada n. 31, janeiro - junho de 2014 178 (APE). O corpus que propomos para o
nosso comentário analítico, as Cantigas de amigo, fecha a obra Poesia completa:
o sol nas noites e o luar nos dias (1999) da autora e surge justamente após os
Sonetos românticos, também coligidos. Saiba-se que a obra póstuma Poesia
completa reúne cronologicamente os livros de poesia já publicados por Natália
Correia, acrescentada destas cantigas inéditas que tornam ainda mais instigante
o seu trabalho poético. Ainda não encontramos estudos minuciosos a respeito
destas cantigas com as quais a autora pretendeu fazer “reflorir a sagrada
matriz de nosso lirismo” (CORREIA, 1999, p. 619), a saber: as cantigas
galego-portuguesas, mais especificamente os “cantares de amigo” (CORREIA, 1999,
p. 620). Antes da apresentação das suas Cantigas de amigo, Natália Correia
contextualiza-as, revela ao leitor o projeto poético que tinha para tais cantares:
“Foi meu propósito anterior à publicação de Sonetos românticos juntar num mesmo
volume dividido em duas áreas complementares sonetos e ‘cantigas de amigo’”
(CORREIA, 1999, p. 619). Deste modo, as Cantigas de amigo originalmente
integrariam de modo complementar um volume com os sonetos mencionados, o que
não ocorreu. Mais adiante, Natália relata-nos que nos Sonetos já havia se
consumado “a incorporação do fêmeo no macho e do macho no fêmeo” (CORREIA,
1999, p. 619) – a união do princípio feminino ao princípio masculino e
vise-versa –, sendo assim as Cantigas de amigo acabaram se destinando a uma
obra à parte, na categoria de inéditos posteriores a 1990. Ou seja, em um
primeiro momento, os sonetos e as cantigas se complementariam, mas Natália
verificou que estas extrapolariam aquele desígnio poético do qual os sonetos
isoladamente tinham dado conta. De qualquer modo, notemos que as Cantigas de
amigo foram dispostas como obra autônoma no intuito de constituir o remate de
Poesia completa, portanto cumprem um papel relevante. O interesse de Natália
Correia pela lírica profana galego-portuguesa é anterior a suas Cantigas de
amigo, sendo esta revisitação aos cancioneiros medievais um gesto encontrado em
diversos poetas portugueses do século XX, tais como Herberto Helder1 (1930-),
contemporâneo a Natália e que em seu livro A faca não corta o fogo (2009)
retoma uma cantiga de D. Dinis e também as de poetas provençais. No que tange à
nossa autora, mencionemos outras três de suas publicações que envolvem as
cantigas galego-portuguesas: Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica:
dos cancioneiros 1 Diga-se de passagem que Herberto Helder colige diversos
textos de Natália Correia em seu livro chamado Edoi Lelia Doura: antologia das
vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa (1985).
O Hotel Britania,
em Lisboa, decidiu homenagear Natália Correia, atribuindo o nome da escritora e
poetisa nacional ao quarto 13, local onde terá escrito a peça “O Encoberto”,
segundo informação enviada pela unidade hoteleira à imprensa.
À época em que
Natália Correia ali escreveu “O Encoberto”, a unidade era propriedade de
Alfredo Machado, marido da escritora, e tinha o nome de Hotel do Império,
funcionando, muitas vezes, como uma extensão da residência do casal, famosa
pelas tertúlias que ali decorriam nos anos 50 e 60 e que reuniam os maiores
nomes da cultura e da literatura, quer nacionais, quer estrangeiros.
O hoje Hotel
Britania era uma extensão da sua casa que se tornou conhecida como um local de
resistência ao regime de Salazar. O quarto 13 apresenta agora uma decoração com
livros, fotografias, cartas e postais, sem esquecer o champanhe francês, que
remetem para o ambiente que se vivia na casa da escritora.

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