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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os "monstros sagrados" nunca serão esquecidos - Vitorino Nemésio visto pelos jornalistas


Nemésio na voz de Amália
                                   
António Valdemar


A voz de Amália poderá aproximar centenas e centenas de milhar de pessoas das homenagens a Nemésio, durante as comemorações do centenário do nascimento que decorrerão a partir de 19 de Dezembro deste ano.

Foi através de David Mourão-Ferreira que se estreitaram as relações entre ambos (David era, ao tempo, casado com uma sobrinha de Valentim de Carvalho, editor dos discos de Amália, que contou com a colaboração fundamental de João Belchior Viegas).

Amália tinha grande admiração por Nemésio. Recebia-o em sua casa, com primores de gentileza e requintes de fidalguia. Em sinal de muito apreço, resolveu incluir no seu reportório a Décima de Sílvio e Silvana, um dos mais representativos poemas da Festa Redonda. Esteve para estrear num projecto de José Pracana a difundir na ilha do Corvo para todo o mundo lusófono. Ambos me honraram com o convite para escrever o texto de apresentação desse espectáculo.




Lopes de Araújo, que estava à frente da Televisão nos Açores, deu todo o apoio. Sucedeu que Alain Oulman musicava, na altura, versos de Cecília Meireles e não pensava noutra coisa. Amália avançou com uma interpretação da Décima reservando, para logo que possível, os arranjos do compositor ou, se ele entendesse, uma versão apenas da sua autoria.
Decorrido algum tempo falecia Alain Oulman, em Paris. Amália resolveu, por isso, gravar a sua concepção musical da Décima de Silvio e Silvana. Alguns amigos que a visitavam tiveram o privilégio de a conhecer. Sou dos que a ouviu muitas vezes. E sempre com fascínio.

Quanta emoção ao cantar: Tem sinais de anjo na cara/e de cabrinha no pé (...) O seu pente é um triste cardo,/a sua vida é chorar (...) Retraça cachinhos de uvas./A terra dá flores de sangue,/O céu agulhas de prata;/Uma sereia escondida/Canta, canta que se mata;/Toca flauta!e tu, Silvana,/Queima o teu pente dorido /sirva-te o mar de cabelo!/Silvio - navio perdido.

Nas sucessivas estrofes daquela Décima (24 salvo erro), João David Pinto Correia, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, num ensaio notável sobre Voz e Povo na Poesia de Vitorino Nemésio, identificou "a dimensão lendária de uma Sereia Melusina com sinais de Dama de Pé de Cabra mas transformada em Bela Infanta". Para além do que Pinto Correia salientou e do que há de raiz e sentimento açoriano, Amália - pude confirmá-lo - via, revia e sentia na Décima de Silvio e Silvana o seu retrato ou o retrato que desejava para fundamentar a sua dupla condição de mulher e de artista.

Numa das inesquecíveis reuniões em casa de Amália, solicitei-lhe uma cópia da gravação. Acedeu com todo o gosto dando indicações (lembra-se Theresa Mimoso?) para que me fosse entregue uma cassete. Voltei a pedir. Pedi outra vez. Possivelmente, ainda mais outra vez. Surpreendida de não me ter sido entregue a cassete, Amália voltou a recomendar que me cedessem cópia da gravação. De adiamento em adiamento passaram os meses. Muito mais de um ano, até que surgiu o ponto final colocado pela morte.

Mas (ça c'est seulement un détail...) tudo me faz supor que essa gravação ainda deve permanecer no espólio da casa de São Bento, oportunamente, transformada em fundação e museu. Dirijo, portanto, um apelo ao presidente da fundação, Amadeu Aguiar, ou aos seus administradores, os meus amigos e conterrâneos Lopes de Araújo e Fernando Machado Soares para que - na observância dos respectivos direitos de autor - essa interpretação, até agora inédita, seja editada no centenário de Nemésio.

No âmbito do programa agendado ou a agendar (entre 2001 e 2002 e com o habitual predomínio de conferências e simpósios reservados a eruditos), a Décima de Silvio e Silvana na voz de Amália representará um dos momentos de maior impacto nas comemorações a efectuar nos Açores, no restante espaço português e, ainda, nos países da emigração, em especial, onde se encontram radicadas as comunidades açorianas.

DN 4-10-2001 



Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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