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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os "monstros sagrados" jamais serão esquecidos - Fernando Pessoa



A lucidez de Fernando Pessoa

«Mas o criticismo frustro dos nossos pais, se nos legou a impossibilidade de ser cristãos, não nos legou o contentamento com que a tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos legou à indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente porque viviam em uma época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que eles destruíam, que dava força à sociedade, para que pudessem destruir sem sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a destruição e os seus resultados.
«Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos, por que se conquista o internamento num manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.»
(…)
«Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuimo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.»
Acredito que muita gente julgaria ser esta posição, menos estóica que desesperada, exatamente a mesma de Fernando Pessoa. “Estamos fodidos e mal pagos aqui nesse mundo sem sentido, logo, fazer o quê?, vamos morto-vivendo…” Mas, para ele, viver não era preciso, criar era. E, por isso, identificar de forma absoluta tal análise como sendo a do próprio Fernando Pessoa seria um equívoco. Se ele, a momentos, sentia-se realmente assim, em outros era capaz de escrever coisas do tipo:
A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão signala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.

Ou ainda:
Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

Alguns poderiam dizer que estes poemas, do livro Mensagem, seriam, como tantos outros, apenas obra de um dos estados d’alma do poeta. Mas por que então foi este, além de Antinuous e 35 Sonnets, não somente um dos únicos livros publicados em vida, mas também um dos três únicos assinados por “Fernando Pessoa”? Isso me leva a crer que os poemas de Mensagemparticipam do estado d’alma mais constante do poeta, isto é, do estado subjacente a todos os demais: a fé. Embora tenha sido dono de algumas das vozes mais expressivas de seu tempo, embora tenha compreendido plenamente a alma órfã dos modernos, Fernando Pessoa, ele mesmo, o astrólogo, o sensacionista, o tradutor dos temerários teosofistas, foi um antepassado de si mesmo, ou seja, um homem com os pés bem fixos na Eternidade. 



Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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