A lucidez de Fernando Pessoa
«Mas o criticismo frustro dos nossos pais, se nos legou a
impossibilidade de ser cristãos, não nos legou o contentamento com que a
tivéssemos; se nos legou a descrença nas fórmulas morais estabelecidas, não nos
legou à indiferença à moral e às regras de viver humanamente; se deixou incerto
o problema político, não deixou indiferente o nosso espírito a como esse
problema se resolvesse. Nossos pais destruíram contentemente porque viviam em
uma época que tinha ainda reflexos da solidez do passado. Era aquilo mesmo que
eles destruíam, que dava força à sociedade, para que pudessem destruir sem
sentir o edifício rachar-se. Nós herdamos a destruição e os seus resultados.
«Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos
insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje
quase pelos mesmos processos, por que se conquista o internamento num
manicômio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.»
(…)
«Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem
não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuimo-nos, porque o homem
completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança
não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos
uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo
do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o
entusiasmo da luta.»
Acredito que muita gente julgaria ser esta posição, menos
estóica que desesperada, exatamente a mesma de Fernando Pessoa. “Estamos
fodidos e mal pagos aqui nesse mundo sem sentido, logo, fazer o quê?, vamos
morto-vivendo…” Mas, para ele, viver não era preciso, criar era. E, por isso,
identificar de forma absoluta tal análise como sendo a do próprio Fernando
Pessoa seria um equívoco. Se ele, a momentos, sentia-se realmente assim, em
outros era capaz de escrever coisas do tipo:
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão signala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
Ou ainda:
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
Alguns poderiam dizer que estes poemas, do livro Mensagem, seriam, como tantos outros, apenas obra de um dos estados
d’alma do poeta. Mas por que então foi este, além de Antinuous e 35
Sonnets, não somente um dos únicos livros publicados em vida, mas também
um dos três únicos assinados por “Fernando Pessoa”? Isso me leva a crer que os
poemas de Mensagemparticipam do estado d’alma mais constante do
poeta, isto é, do estado subjacente a todos os demais: a fé. Embora tenha sido
dono de algumas das vozes mais expressivas de seu tempo, embora tenha
compreendido plenamente a alma órfã dos modernos, Fernando Pessoa, ele mesmo, o
astrólogo, o sensacionista, o tradutor dos temerários teosofistas, foi um
antepassado de si mesmo, ou seja, um homem com os pés bem fixos na
Eternidade.

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