O refrão da felicidade
O Carnaval representa quase como um período
de tréguas com as chatices corriqueiras. Mesmo que apeteça chorar, as pessoas
dão para rir num pranto de folia. A ambiguidade espiritual é traduzida
fielmente nos palcos de sociedades e casas de Povo por toda a Terceira, em
forma de danças, bailinhos e comédias.
A crítica social enreda dramas e comédias
para uma plateia ávida de emoções fortes.
A freguesia, o concelho, a ilha, o
arquipélago e o próprio mundo são passados em revista por cidadãos comuns do
nosso dia-a-dia. O sapateiro vira doutor, o lavrador bem pode ser bêbado ou
astronauta num desfiar de personagens multifacetadas à conta de uma
manifestação de teatro popular sem igual.
Os figurantes e os músicos representam a
coreografia das danças, cujos passos são seguidos por largos milhares à volta
da ilha.
A fórmula do sucesso, com uma ou outra
inovação, está mais do que encontrada.
O público acotovela-se à procura do melhor
lugar e o farnel desenrasca refeições necessariamente abreviadas para não se
perder o fio à meada.
É uma verdadeira loucura, sem ponta de
exagero. Os inúmeros ensaios preparam atuações que se querem do inteiro agrado
popular.
Há nomes de artistas e de lugares a defender
com o máximo esmero possível.
E, depois, há um mar de gente a trabalhar na
sombra para que tudo dê certo. Costureiras, condutores e dirigentes de
sociedades remam todos para o mesmo lado..
Quem ficará de fora desta manifestação cultural? Nas freguesias rurais
apenas os acamados, enquanto que o fenómeno, nos meios citadinos, passará
essencialmente ao lado de jovens que gostam de dançar sem esperar pelas...
danças.
O resto da população alinha, de alma e coração, nas danças e bailinhos. Os
dançarinos e músicos entram diretamente. De uma forma indireta, porém, há
milhares de pessoas a dar o seu contributo.
Em primeiro lugar o público, cujo entusiasmo fervoroso prende-lhe às cadeiras
das plateias até altas horas da noite durante o Entrudo. Há, ainda, muitas
outras formas de colaboração. As senhoras que confecionam comida para a “mesa
das danças” a obsequiar aos grupos após cada exibição, os autores dos enredos,
os carpinteiros que constroem os adereços, os indivíduos (normalmente não dado
a bebidas...) que conduzem as carrinhas com os artistas por toda a ilha, as
costureiras e um nunca mais acabar de gente.
Em termos económicos, a quantificação de todo este esforço daria para
pertinentes estudos. Mas, neste caso e em todos os outros, o que importa é
relevar o lado humano.
E, aí, o Carnaval da Terceira não podia estar melhor servido. Seja de espada,
pandeiro ou de bailinho, os dramas e comédias que costuram as nossas vidas
estão, mais uma vez, a pôr o povo feliz.
Em quatro dias, que pegam sem remissão nas
madrugadas, o povo encontra o refrão da felicidade.
Gargalhadas, intercaladas com lágrimas,
envolvem o figurino humano do fenómeno. No fundo, é a nossa vida que está em
cena. O melhor é deixar o tempo correr (mais uns dias, apenas) para ver,
aplaudir e esperar pela dança seguinte.
joaorochagenio@hotmail.com


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