DN, 19-12-2001
Poesia: Torto de Tanto Amar
Por LUÍS MIGUEL QUEIRÓS
19 de Dezembro de 2001
Um poeta maior que não se tornou mítico
Fátima Freitas Morna, que organizou e prefaciou a edição da obra poética de Vitorino Nemésio na Imprensa Nacional, sugere que esta poesia, "tão dispersa no tempo e tão pouco homogénea entre si", acompanhou, desde 1916 até meados dos anos setenta, a própria evolução da lírica portuguesa. O juízo parece difícil de negar. Mas o mérito de Nemésio não se esgota nesta
capacidade de acompanhar, e de muitas vezes antecipar, os sucessivos ciclos de inovação da poesia do seu país. O espantoso é que o consiga fazer sem abdicar de uma voz singularíssima, tão imediatamente reconhecível nos poemas franceses de "La Voyelle Promise" (1935) como na oralidade tradicional de "Festa Redonda" (1950), na genuína poesia religiosa de "O Pão e a Culpa" (1955), nos "Poemas Brasileiros", compilados num só volume em 1972, ou ainda nessa extraordinária apropriação poética da terminologia científica que é "Limite de Idade" (1972).
A reedição da poesia de Nemésio pela Imprensa Nacional, em 1989, demorou o seu tempo a esgotar. E quem anda pelos alfarrabistas constata que as suas primeiras edições estão longe de atingir as cotações dos livros de Eugénio de Andrade, Sophia, Cesariny ou Herberto Helder, para já não falar dos fenómenos de coleccionismo puro e duro em que se tornaram as obras de Régio ou Torga. Isto não terá muita importância, mas indica que o Nemésio poeta parece não ter ainda conseguido criar para usar uma expressão em voga, o seu "clube de fãs".
Não sendo Nemésio um poeta menor do que qualquer um dos citados - e é seguramente melhor do que Régio e Torga -, talvez se possa arriscar uma explicação para esta aparente injustiça. É que aquilo que constitui a verdadeira especificidade de Nemésio dificilmente atrai essa adesão visceral e emotiva capaz de construir um mito literário. Não há em Nemésio essa beleza quase palpável dos poemas de Eugénio, nem a verticalidade limpa de Sophia, nem o génio absoluto dos mais altos momentos de Cesariny - para não falar do prestígio de ser o merecido representante máximo da "única real tradição viva" -, nem essa convicção radical no poder demiúrgico da palavra poética que subjaz à obra de Herberto. E, ainda por cima, Nemésio deixou colar-se-lhe a imagem de um homem instalado no regime salazarista.
Um dos seus talentos é essa naturalidade do "falado" que muitos dos seus críticos já apontaram e que é levada ao extremo nas suas recriações dos metros tradicionais, onde a oralidade é privilegiada mesmo em detrimento da correcção ortográfica e sintática. Um leitor desprevenido pode supor facilidade neste dificílimo exercício de cruzar, num discurso de espantosa fluidez, o genuinamente popular, e regional, com envios constantes à mais exigente cultura erudita, as interrogações metafísicas e as mais ínfimas circunstâncias do vivido. Como uma esponja, a poesia de Nemésio absorve tudo, quer a nível temático, quer terminológico, mas sempre na perspectiva da concreta existência humana, do "dasein" heideggeriano.
Outra característica de Nemésio é uma espécie de bem humorado pudor, que tanto lhe impede a declaração sentimental mais directa, como o leva a evitar esse tom lapidar que a generalidade dos leitores associa à alta poesia.
Joaquim Manuel Magalhães já apontou o modo como este poeta sabota as formas tradicionais a que recorre, quer ao nível da rima, quer da métrica. Mas esta estratégia de sabotagem ultrapassa o plano formal. Um dos esquemas que encontramos frequentemente nos poemas de Nemésio é um final que desdramatiza, às vezes de forma quase desconcertante, o efeito poético que foi sendo construído, mas que, numa segunda leitura, abre para insuspeitadas profundidades o que parecia esgotar-se num conseguido exercício estético. A título de exemplo, leia-se este breve poema de "O Cavalo Encantado" (1963), com os seus quatro versos iniciais de tom "rilkeano" e o seu inesperado remate: "Cavalo e cavaleiro o vento adornam/ Com uma pata e uma pluma;/ À tarde unidos tornam,/ Um estame de sangue numa rosa de espuma.// Tanta pressa, afinal, para coisa nenhuma."
O "eu" que atravessa toda a poesia de Nemésio é um "eu" ligeiramente desastrado, esse "clown de Deus" de que fala Lourenço, ou, para citar o próprio poeta, esse "torto serei, mas só de a muito amar" (poema 9 de "Andamento Holandês", 1963). Esta subversiva auto-ironia, que os seus textos reflectem também no plano formal, torna Nemésio um dos lugares mais altos e inovadores da poesia portuguesa do século XX, mas, talvez felizmente, protege-o de venerações excessivas.
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