Continuação de um retrato de família
O Adelino era o mais religioso da família?
Rosário — Era, inquestionavelmente. Aderiu muito novo à Opus Dei
e aos 23 anos foi viver para uma casa da Obra. Acabou Engenharia num dia e
anunciou que se ia embora no outro.
Foi vivido como uma perda?
Rosário — Foi. Foi bastante violento.
Não sei se são Opus Dei.
Teve importância na forma como viveu, e vive, a religião o facto
de o Adelino ter aderido à Opus Dei?
Rosário — Não teve nenhuma. E se tivesse tido alguma, era
negativa. A sensação de irritação com que ficámos, de ele se ir embora de um
dia para o outro... Dizia que era “outra família”. Era dificílimo falarmos com
ele. Não foi pacífico. Lembro-me de um período de tensão, de incompreensão de
tudo o que se estava a passar.
Nem sequer foi cobiçada pela Obra?
Rosário — Ah, pois, um bocadinho, sim. Houve umas propostas. Se
calhar aí é que está a assertividade [de que fala] o Roberto. Este tipo de
proposta de organização, de dedicação, de desenvolvimento de um projecto de
vida, nunca consegui adoptar. No colégio, o máximo que fui foi “cruzadinha” do
Menino Jesus, porque todas as meninas eram. Depois passava-se para “zeladoras”
e nunca fui capaz. Muita regra. É uma rejeição que é intrínseca em mim.
Uma rejeição à estrutura?
Rosário — Sim.
Pensei que a vossa família de nove filhos reflectisse muito mais
a marca da religião. Era vosso desejo ter uma família numerosa não forçosamente
por motivos religiosos...
Rosário — Uma vez perguntaram se tínhamos estes filhos todos por
causa de sermos católicos. Não consigo compreender esta pergunta. Muitos
estudos sociológicos mostram que os católicos não têm mais filhos que os
não-católicos e que usam os mesmos métodos contraceptivos. Ninguém tem um filho
por causa da religião.
Explique-me isso.
Rosário — Foi um projecto nosso, ainda não nos tínhamos casado,
de que havíamos de ter muitos filhos. Ele porque não tinha irmãos, e se calhar
queria ter irmãos. Eu porque tinha dois irmãos mais velhos a arengarem-me o
juízo. A serem mais papistas que os meus pais.
Roberto — Queríamos ter uma equipa de râguebi, 15. Passámos para 11, uma equipa
de futebol.
Rosário — Ficámo-nos por nove. E tínhamos uma lista de nomes de 15 rapazes e 15
raparigas, não fosse o diabo tecê-las e serem todos do mesmo sexo [riso].
A ideia da grande família era uma tradução de felicidade?
Rosário — Era.
Depois de termos falado de coisas estruturantes da vossa vida,
como o dinheiro e a religião, falemos do país de então. E de política. Anos
mais tarde, quer um quer outro tiveram intervenção política.
Roberto — Entrei em 79, 80 para a política. A influência do
Adelino foi determinante. Quando se formou, primeiro a Convergência
Democrática, depois a Aliança Democrática, perpassou por todo o país um frémito
de esperança. Envolveram-se partidos como o PPD de Francisco Sá Carneiro, o CDS
de Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, o PPM de Gonçalo Ribeiro
Telles e os “reformadores” que congregavam gente como António Barreto ou José
Medeiros Ferreira.
Integrou o governo AD.
Roberto — Era irrecusável a intimação (mais do que convite) do
trio Francisco, Diogo, Adelino para integrar o executivo como secretário de
Estado da Educação, acompanhando o ministro Vítor Crespo, tal era o sentido de
dever cívico e de apelo a uma cidadania activa que todos sentíamos.
Rosário — Mas já havia uma percepção [do contexto político] antes disso.
Roberto — Nunca pensei ir para a política. Pensei ser um técnico estudioso e
minimamente qualificado de Educação, nada mais.
Novamente atrás, ainda antes da revolução: como viveu a censura,
por exemplo trabalhando num jornal?
Roberto — A censura é uma coisa violentíssima que fere a
dignidade da pessoa, a sua liberdade interior de expressão e de pensamento. Até
hoje nunca me senti tão violentado como quando fui alvo da censura, excepto,
talvez, em Joanesburgo, África do Sul, quando fui objecto de catalogação rácica
e vítima do apartheid.
Em 68, 69 sentimos a abertura da Primavera Marcelista, que rapidamente se
fecha. Eram tempos épicos de luta por uma liberdade de imprensa. Sá Carneiro,
Francisco Balsemão, José Carlos de Vasconcelos, Jacinto Baptista, João Gomes,
Raul Rego, são nomes de pessoas com quem aprendi muito. Escrevia furiosamente
para substituir textos que o malfadado lápis azul cortara. A ironia do destino
é que, na sequência do 25 abril de 74, somos quase todos saneados.
Rosário, como é que a política se impunha na sua vida?
Rosário — O meu pai foi membro do Governo do anterior regime durante
quase dez anos. Foi subsecretário de Estado das Obras Públicas e secretário de
Estado da Indústria, começou a sua governação como subsecretário de Estado do
Fomento Ultramarino. Cresci ouvindo falar do negócio público. Cresci com uma
pessoa que tinha como objectivo de vida servir. Transmitiu-nos isto de forma
muito clara.
Falava do trabalho, contava histórias?
Rosário — Sim. Era
director-geral de hidráulica no Ministério as Obras Públicas quando foi
convidado para ir para secretário de Estado. Terá ido ao forte onde estava
Salazar, a quem disse: “Não sou um político, sou um técnico.” Salazar terá
respondido: “Ó, Sr. Eng., mas o que é um subsecretário de Estado senão um
superdirector-geral? Vai continuar a aplicar o seu saber técnico.” Donde, as minhas
memórias estão recheadas de conversas e conversas sobre o condicionamento
industrial, o empreendimento de Sines, os grandes investimentos da rega do
Alentejo, o Alqueva.
(Continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário