O fim do PS-Açores
Sempre gostei de uma boa discussão.
Não daquelas vazias e cansativas, em que o opositor discorda por discordar, não revelando grande pensamento sobre a matéria, apenas querendo enriçar, ser do contra. A esses, invariavelmente digo “se queres a razão fica com ela”, antes de me retirar com a velocidade máxima permitida por lei.
Gosto, sim, de uma conversa acalorada, em que alguém diz “não concordo”, sabendo explicar por quê, expendendo argumentos na defesa da sua tese, lutando pelas suas ideias.
Da mesma forma, nunca tive grande respeito pelas criaturas que tanto lhes faz, não têm opinião formada ou nunca pensaram nisso. São os que estão sempre de acordo com os que têm ideias, sejam elas quais forem.
Movido deste espírito, gostei de militar em dois partidos, no tempo em que havia discussão no interior dos mesmos. Gente em desacordo a tentar o acordo possível, era o que me levava a deixar de fazer outras coisas e rumar a uma reunião política. Melhor ainda quando o desacordo já era previsível, para treinar a adrenalina.
Assisti a muitas discussões no seio do Partido Socialista e em outras tantas participei, fosse em concelhia, de ilha ou em congresso regional. Tive desavenças públicas algumas vezes, como alguns se lembrarão. Uma das mais vivas com Francisco Coelho, jovem licenciado e com o sangue a ferver na guelra, que queria tomar a Secção de Angra do PS de assalto, quem sabe ainda inspirado pelos métodos da UDP. Não lhe levei a mal, antes pelo contrário. Debatemos até na rádio, fomos a eleições e… ele perdeu. Mas espero que se lembre: o primeiro abraço que dei, logo que contados os votos, foi a ele. Boa paga me havia de dar, depois. Mas essas são consequências que o desejo de poder instila em certas mentes, por muito que nos desiludam e façam perder a fé no ser humano…
Vem tudo isto a propósito do silêncio que tomou o PS, a partir da eleição de Carlos César para a presidência do partido, silêncio que dura até hoje.
A discussão interna apagou-se por completo. De repente, como por milagre, deixou de haver vozes discordantes no interior do partido, coisa que não aconteceu a nível nacional. Eram todos “yes man”.
O que até se poderia entender, até o PS chegar ao poder. Cerradas estavam as hostes, frente ao inimigo tradicional e poderoso ao tempo – o PSD. Mas depois, nestes vinte e dois anos em que assumiu o governo destas ilhas, nunca houve uma única decisão governamental que desagradasse a um único militante? Todas as medidas foram excelentes e consonantes com os interesses de todas as ilhas, dos povos que nelas vivem? Não houve um único adepto do Lusitânia ou do Angrense que não gostasse de ver dinheiros públicos canalizados para levar o Santa Clara para a 1ª divisão e nela permanecer o tempo possível ou para ela voltar rapidamente? Nem uma voz para se levantar?
Ou haverá alguns, mas preferem o silêncio? Por medo? Por não quererem perder algum tacho?
Se é verdadeira a máxima de que “da discussão nasce a luz”, é fácil concluir que o PS está às escuras.
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

Sem comentários:
Enviar um comentário