AMORES
Se
você anda se martirizando por não ter podido ver os filmes que concorrem ao
Oscar, sossegue. Vi três dos oscaráveis de 2018 e posso resumi-los para que
você participe de conversas sobre o assunto e minta com inteligência. Os três
filmes que vi são sobre as diferentes manifestações de amor. O primeiro, A
Forma da Água, é uma variação do velho tema do caipira na cidade grande. Um
brasileiro, da Amazônia, é levado para os Estados Unidos, onde desperta o
interesse de uma faxineira e - por razões que nunca
ficam bem claras - dos russos. O que os russos querem com o amazonense
permanece um mistério
(teria algo a ver com uma resposta americana ao cachorro
que os soviéticos colocaram em órbita da Terra treinado para dar gargalhadas
sarcásticas cada vez que passava por cima dos Estados Unidos), mas o que a
faxineira quer fica evidente quando ela, que é muda, usa linguagem de sinais,
como puxá-lo para dentro da sua banheira junto com ela. Não vou contar como o
filme termina, só dizer que as chances de o brasileiro conseguir um “Green
Card” para poder trabalhar nos Estados Unidos são remotas, ainda mais com
aquelas escamas e o presumível mau cheiro. Tudo parece se encaminhar para um
final feliz à beira do Amazonas.
The Post também é
uma história de amor, no caso o amor de jornalistas pelo jornalismo. Eu me
comovi, não com o relato dos segredos do Pentágono revelados por jornais corajosos
ou com a decisão da Suprema Corte americana - apesar de ser uma corte
conservadora, na época - a favor dos jornais que o governo queria calar. Me
comovi com os linotipos. A mudança da impressão quente para a impressão fria
foi tão radical que fica difícil acreditar que se deu em tão pouco tempo. A era
do chumbo acabou de um dia para o outro. E quem teve alguma vivência em gráfica
de jornal não perde a lembrança daquelas velhas máquinas com algo de
dinossauros, que literalmente soltavam fumaça. O amor pelo nosso passado também
é um modo de nos autoelogiarmos. Nunca trabalhamos no Washington Post ou no New
York Times, o que não impede que nos achemos formidáveis.
E, depois do amor pelo diferente no A
Forma da Água e o amor pela cálida lembrança de uma máquina, o que não deixa de
ser uma forma de tara, é bom poder falar de um filme que trata do amor
convencional, normal, sem complicações: Me Chame pelo Seu Nome. Rapaz conhece
rapaz, rapaz e rapaz se apaixonam, rapaz e rapaz se separam, sobe música
romântica e fim. Ainda fazem filmes de amor como antigamente.

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