Associação de Investigação e Cultura dos
Açores / Leiria
Promover as pessoas e os lugares
dos Açores e de Leiria porque a História os une...
17 de janeiro de 2011
Entrevista a Carlos Alberto Moniz
O Maestro Carlos Alberto Moniz, natural da ilha Terceira,
Açores, tem dedicado a sua vida profissional ao meio artístico como
apresentador, maestro, músico e compositor. Participou em espectáculos em
Portugal e no estrangeiro com grandes nomes como José Afonso, Adriano Correia
de Oliveira e Carlos Paredes, com os quais gravou vários discos. Foi director
musical de vários espectáculos de Revista. Marcou presença em vários Festivais
da Eurovisão da Canção como autor, intérprete e Maestro. Com dezenas de discos
e CDs editados, Carlos Alberto Moniz assinou a direcção musical de vários
programas televisivos. Participou em diversas séries e apresentou programas de
televisão onde se destacam “Fungagá da Bicharada” e o actual, “Portugal sem
Fronteiras”, com a fadista Diamantina, aos sábados de manhã na RTP1. São poucas
as linhas destas páginas para falar da tão preenchida carreira de Carlos
Alberto Moniz, cheia de prémios, onde o Arquipélago dos Açores tem sempre em
cantinho especial.
Desde o início da sua carreira que se dedica à música. Como é
que esta surge na sua vida?
Quer quisesse quer não quisesse já o meu avô, João Moniz, era
maestro e violonista. Fez uma recolha muito grande da música popular açoriana.
Existem muitos manuscritos. Eu tenho alguns desses manuscritos, das nossas
modas: “O Sol perguntou à Lua”; “São Macário” a “Lira”... tenho os manuscritos
dele. Depois, o meu pai foi embalado aos ensaios da Orquestra do meu avô e
adormecia, muita vez, no sofá enquanto a Orquestra tocava. A seguir, o meu pai,
pianista de uma Orquestra de Jazz, tocava, também, em casa e eu lá ia
adormecendo ao som do meu pai.
Mais tarde, comecei a aprender piano e violino com o mestre Raul
Coelho, professor de piano e harmonia, da Terceira, e com o mestre Manuel
Arraial, professor de violino, de São Miguel.
Alguem tempo depois, fui estudar para Lisboa, entrei para o
Conservatório, além de Agronomia, fui aprendendo sempre com mestres como Pedro
Osório e outros que me passaram parte do saber que tinham, porque o saber
integral não se consegue passar.
Os grandes mestres, quando deixam a vida terrena, levam o saber
completo com eles...
O que eu tenho mais pena da morte das pessoas... pode ser uma
posição um bocadinho egoísta... é o saber que com elas desaparece porque não
foi possível fazer save no disco externo. E, existe tanta sabedoria que se foi
embora e não ficou registada que me faz muita impressão, além da falta que os
amigos fazem e da saudade... tenho este pensamento um bocadinho materialista,
confesso. Mas, se eu pudesse ter a arte de um Antero de Quental, de um Nemésio
ou de um Mozart ou mesmo de um Beethoven, ou de outros mais recentes...
Conviveu e convive com grandes homens e mulheres do mundo da
Música e da Literatura. Nos primeiros anos da sua carreira tinha noção de que
estava a conviver com homens e mulheres de grande valor e até, de certa forma,
mais evoluídos que os restantes?
Mais agora do que na altura. Passava muitos serões com Luís Tó
Monteiro, Bernardo Santareno, Afonso Praça, José Carlos Ary dos Santos,
Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e muito mais gente. Aliás, uma vez
perguntaram à Lúcia, a minha filha, porque é que ela não era vaidosa e ela
respondeu: “porque é que eu hei-de ser vaidosa se eu comia sopa ao colo do
Fernando Guerra, com o Paulo de Carvalho a dar-me o bife e o Fernando Tordo a
descascar- -me a fruta! Quem sou eu, se fui educada ao colo desta gente toda”.
De facto era gente muito importante e a prova é que a obra
ficou. A importância era tal que me marcou em termos de conduta como cidadão.
Tenho, agora, consciência do que eram Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira,
Carlos Paredes... fartei-me de correr mundo a tocar com eles e a gravar
discos... é gente que me ensinou que viver não é só comer, beber e defender uma
outra posição, mais ou menos, rigidamente. Temos que ter na prática, do
dia-a-dia, a coerência com aquilo que afirmamos. Não basta ir cantar uma
cantiga sobre a Liberdade e depois ser um déspota no dia-a-dia nem falar em
solidariedade e depois esquecer a solidariedade. Hoje em dia se a gente
perguntar a qualquer pessoa o que é que pensa dos deficientes, toda a gente
diz: “temos que ajudá-los muito, temos que ter muito respeito”. Mas, se
atravessarmos uma grande cidade são milhares, não são centenas, de automóveis
em cima dos passeios. E, se, por exemplo, um deficiente quiser passar de
cadeira de rodas, não passa. E, se perguntarmos a cada uma dessas pessoas,
todas têm muita pena e todas são caridosas lá da sua forma especial.
Portanto, fui aprendendo, ao longo da minha vida, com estas
grandes figuras, como Sophia Mello Breyner, Nemésio e outras que me vou
lembrando aos poucos... a ter o cuidado da palavra mas também o que as palavras
querem dizer... não basta juntar palavras bonitas, as palavras juntam-se e
fazem frases, as frases definem ideias e quando se dizem determinadas frases
essas ideias, que estão subjacentes, ou as praticamos ou então vamos para
actores representar o papel de outros...
Ao longo da sua vida, esteve quase sempre ligado à Música,
passou ligeiramente pelo Cinema, fez Televisão, mas existe um pormenor que lhe
está sempre patente – nunca esqueceu os Açores...
Eu costumo dizer que vivo nos Açores, só que o meu trabalho é
muito longe e passo muito tempo fora de casa. Tenho a minha casa na Praia da
Vitória, ilha Terceira, só que por vezes, estou no Canadá, estou em Lisboa,
estou no Porto, estou no Alentejo... África do Sul, Timor, Brasil... nunca paro
no mesmo sítio e 90% dos contactos que tenho são açorianos que me chamam para
ir aqui e ali.
E, no caso concreto da Lusofonia, através do programa que tem na
RTP, "Portugal sem fronteiras", tem encontrado açorianos no meio
Lusófono que está espalhado pelo Mundo?
Tenho. Se bem que eu acho que ser açoriano não é formar um clube
de elite mas, sim, defender os nossos valores, as nossas gastronomias, a nossa
música popular, as nossa touradas à corda, as nossas marchas, os nossos
bailinhos de Carnaval, existe uma necessidade muito grande de divulgar isso o
mais possível.
Hoje em dia, numa sociedade em que a comunicação é tão fácil, já
não existe especialidades, obras, receitas, manifestações culturais que sejam
só na região onde são feitas. São exemplo os bailinhos de Carnaval, que eram
uma coisa que se fazia e se faz, felizmente, 60, 70, 80 bailinhos que saem em
cada Carnaval, na ilha Terceira, inspirados nas cegadas do Continente. Tudo
isto, alguns anos para cá, está na Net. Portanto, podemos estar em Timor, nos
Estados Unidos ou no Médio Oriente a ver bailinhos de Carnaval. E, por isso, é
que eu acho que ser Açoriano não é fechar as coisas no baú da nossa memória
mas, sim, levá-la a todos.
Na sua carreira, onde é que se sentiu mais realizado, sabendo
que além de compor, participou no Festival da Canção e na Eurovisão onde
dirigiu a Orquestra, participou em vários programas de televisão como
responsável pela composição musical, fez espectáculos?...
Eu tento nunca ser um artista ou cidadão como aqueles falsos
arquitectos que costumo designar. Existem muitos artistas e criativos a quem se
pergunta: "que é que estás a fazer?". Eles dizem: "tenho um
projecto, ando há quinze anos a pensar nisso, mas ainda não está bom para
apresentar". Eu, durante os últimos quinze anos, se calhar, os projectos
não serão tão bons como esses pensadores mas, a verdade, como disse, é que já
fiz televisão, fiz cinco anos de rádio em que entrevistei as finas flores,
desde a ala esquerda à ala direita, desde o Garcia Pereira ao José Ribeiro e
Castro, por exemplo, passando por todos os outros representantes da justiça e
do poder. Na televisão estou a fazer um contacto que está a correr muito bem,
que tem portugueses que nos ligam desde o Médio Oriente, Macau, Timor, além das
Américas e toda a Europa.
O dirigir a Orquestra foi uma das sensações de poder maior que
eu tive na vida, particularmente na Eurovisão, sabendo que estavam milhões de
pessoas, tanto na Suécia como na Jugoslávia, embora também tenha estado na
Noruega. Mas, nestes dois primeiros em que fui dirigir a Orquestra e que estava
com os braços prontos para dar entrada, passou-me pela cabeça: e se eu agora
não entrasse, como é que era? É uma sensação de poder.
Claro que entrei. Se não tivessem confiança em mim a RTP não me
tinha mandado lá. São estes grandes desafios que eu gosto de correr.
Estreei, alguns meses, uma Cantata com um coro de oitenta e tal
figuras e uma Orquestra de cinquenta e tal e com quatro solistas, soprano,
contra-alto, baixo e tenor sobre os 25 anos de Património Mundial, que também
está na Net: “Cantata Património Mundial Angra do Heroísmo”.
E o Teatro, a Revista e o Cinema?
Para Teatro nunca tive jeito. Fiz muita música para Revista.
Cinema fiz alguma coisa porque o Jorge Paixão da Costa e o Moita Flores são
"malucos" e acham que eu sou actor. Ou, então, querem rir de mim ou
são mesmo meus amigos. Já me colocaram a representarem vários situações mas,
penso que o fizeram por amizade. O que eu gosto, mesmo, é de improvisar, disso
não tenho medo nenhum.
Acontece um pouco isso com o seu programa "Portugal sem
fronteiras", na RTP, com a ajuda da Diamantina?
Sim, porque a Diamantina é uma grande companheira que eu tenho
no programa, é do Peso da Régua, estamos sempre a brincar com a situação de eu
ser Açoriano e ela do Porto, eu do Benfica ela do FCP, estamos sempre pegados
mas, é um conflito de gerações apenas...
Adélio Amaro

Sem comentários:
Enviar um comentário