REGRESSO…
Há muitos anos que não dava notícias. A mãe, a esposa e sua
filhinha que acabara de nascer após o casamento, não o conheciam. Partira numa
noite esplendorosa da Primavera, num dos primeiros navios a motor que por aqui
passaram, com viagem paga aos Furtados, em moeda nacional.
Fora para não mais dar noticia suas…
A filha foi crescendo naquele tugúrio que nenhum conforto tinha.
Uma casa antiga, com tecto de telha corrida, por onde o vento entrava
desalmadamente nas noites de Inverno, e nem havia água canalizada, nem
electricidade. Na cozinha continuava a candeia alimentada a azeite de toninha.
No quarto de dormir, única sala existente, uma vela de cebo e, por vezes de
estearina. Tudo muito pobre e rude.
Ao canto deste pequeno cubículo, uma mesinha, em cima, uma estampa
de Nossa Senhora de Fátima e no centro uma pequena Imagem do Menino Jesus, mal
enroladinho.
No inverno o frio era terrível e as três tinham de deitar-se cedo,
envoltas num cobertor de lã de ovelha, tecido nos anos em que a avó era ainda
moça. Normalmente, dormiam vestidas pois não suportavam o frio da noite.
O outro filhinho do casal morrera de desinteria, há algum tempo,
após o embarque do pai.
Os emigrantes que regressavam à terra não sabiam dar notícias do
João das Grotas, pois nunca se encontraram com ele nas terras de Imigração. É
que o João chegara a Montevideu e metera-se por terra dentro – para o interior
– e deixara de contactar com os conterrâneos. O mesmo com a mulher e mãe. Um
silêncio tenebroso que obrigou-as a andarem trajadas de preto, como as viúvas.
A mãe trabalhava nas casas vizinhas para angariar sustento. A
mulher empregara-se como mulher a dias e, nos intervalos, trabalhava na fábrica
do peixe. A filha, já crescida, frequentava a escola primária, e nos intervalos
fazia mandaletes às famílias vizinhas….
Todavia, nos domingos e dias santificados não deixavam nunca de
cumprir os seus deveres religiosos e a filha, com vestes emprestadas, fizera a
Comunhão Solene. Todos tinham pena das três mulheres, mas mais não lhe podiam
fazer porque a terra também era habitada por gente pobre.
Mas, um dia, aconteceu o imprevisto…
+++
Chovia torrencialmente há dias. As pessoas mal podiam sair de
casa. Nem à novena…Era já noite de Natal. A Igreja, como acontecia
habitualmente todos os anos, estava iluminada. Os sinos da torre da velha
igreja da paróquia, tocavam festivamente e aproximava-se a meia noite - a Meia
Noite de Natal, quando a Igreja Católica celebra o Nascimento do Menino Jesus,
em Belém, há mais de dois mil anos. À igreja iam chegando somente aqueles que
tinham meios de condução. Os outros ficavam por casa esperando que o tempo
abrandasse para irem à Missa do Galo.
As mulherzinhas, entretanto, recolhidas num canto junto ao lar a
saborear umas sopas mal cozidas e pior temperadas, ouvem bater à porta,
apressadamente e ficam muito preocupadas. O bater insiste e uma voz do exterior
chama apressadamente: - Ó Izabel, abre a porta, está aqui teu marido!... Era a
voz do vizinho e compadre que a chamava. O marido chegara na última camioneta
da carreira e estava ali, junto dele. Ela lá foi, e atrás, a mãe e a
filha, até à porta do tugúrio. Na sua frente um homem bem-falante, rodeado de
malas de viagem. Chegara há poucas horas e imediatamente procurara a casa, mas
nem se lembrava onde ficava ela. Há tantos anos que dali partira…
Na sua frente estava um homem bem-posto, inquieto por abraçar as
três. Não é possível descrever o resto.
Depois de explicações e respostas, parece que não estavam
separados há tantos anos… Era quase dia de Natal quando a conversa acabou e se
deitaram para descansar um pouco das emoções e fadigas.
Mas o dia seguinte, o dia de Natal, foi o grande dia. Para trás ficava
um tempo horrível de sofrimento e miséria. Na frente de todos uma nova época de
fartura e de esperança.
Um milagre autêntico do Menino Jesus!
Pico, Dezº 2017
E. Ávila

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