A
tua voz tem a voz da Terra e do Mar
Voz
com todo o tempo do Mundo
Uma
voz que não se cansa de cantar
Num
registo extenso e tão profundo.
Somos todos os filhos da madrugada
Que trazemos os caminhos no olhar
Escolhemos um roteiro noutra estrada
Onde ouvimos toda a Terra a respirar.
Há
canções que se elevam da planície
Da
monda, doutros trabalhos sazonais
Num
CD de tão pequena superfície
Se
juntam os seus sintomas e os sinais.
A tua voz é uma viagem pequenina
À terra da sementeira e da colheita
Traz uma canção que não termina
Porque tem o rigor de ser perfeita.
José do Carmo Fran
A minha infância cabe toda numa telefonia
Onda curta, média, modulação de frequência
O telefone que toca sempre ao fim do dia
Matos Maia sabe como manter a audiência.
O
senhor Messias abre o dia na Rádio Rural
Para
o «serviço seis, sala quatro, cama dois»
A
radionovela parava então um certo Portugal
Até
aos sete anos fui aquilo que serei depois.
«Candeeiros bem bonitos, modernos,
originais»
Ouvia eu de Lisboa nos Emissores
Associados
Hoje sei que tudo isso foi para nunca mais
Porque os modelos estão todos
ultrapassados.
O
comboio para Setúbal parava na Jardia
Montijo
tinha uma estação CP hoje perdida
A
minha infância ficou dentro da telefonia
Perdida
em todas as mudanças desta vida.
José do Carmo Francisco

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