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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Do escritor picoense Urbano Bettencourt





Urbano Bettencourt e a obra de José Martins Garcia

Setembro 5, 2017Vamberto Freitas

Num espaço cercado como o insular, a fuga constitui, aparentemente, um projecto de libertação que a experiência virá a desmentir.

Urbano Bettencourt, O Amanhã Não Existe
Vamberto Freitas

Falar da obra de Urbano Bettencourt é falar do melhor que entre nós se escreve, e ele tem escrito em todos géneros e formas, poesia, ficção, e muito especialmente o ensaísmo em volta da literatura açoriana, assim escreve sobre literatura e questões culturais da Madeira, Cabo Verde e Canárias. Já o afirmei
noutra parte, mas ele é como um T. S. Eliot destas ilhas – a sua poesia é escrita com o mais profundo conhecimento da sua teorização na nossa e noutras línguas, o seu ensaísmo liga e interliga obras e autores, épocas e geografias, quase sempre pouco conhecidas nos grandes meios, ou mesmo nas instituições de ensino superior. Poderá escrever sobre um autor de poesia ou ficção com um fio condutor que perpassa toda a sua obra, e isso tem essencialmente um objectivo primordial nas literaturas menos conhecidas, ou seja a legitimação de obras que se encontram fora das antologias nacionais e só muito raramente visada pela crítica nos grandes jornais e revistas, como aconteceria, por exemplo, com a poesia de Roberto de Mesquita, que só Vitorino Nemésio tentou resgatar do isolamento das Flores e das páginas regionais que sempre publicaram entre nós. Entre um humor corrosivo e a maior seriedade nos seus estudos desta outras literaturas insulares, repita-se, conhecidas fora dos seus meios (com algumas excepções de outros escritores açorianos que escrevem e publicam no Continente) Urbano ocupa um espaço absolutamente essencial na nossa literatura, e refiro-me a literatura de língua portuguesa em geral, inclusive a do Brasil. Para além de estar presente em antologias desses e de países tão distantes como a Letónia, Eslováquia e Hungria, ficam aqui alguns exemplos, nomeadamente África frente e verso, Que Paisagem Apagarás e três volumes de ensaio sob o título de O gosto das palavras. Ler Urbano é perceber como a partir de pequenas ilhas se universaliza uma escrita, a condição humana nas suas versões cercadas de mar por todos os lados, mas em viagem perpétua nas mais inesperadas ou longínquas geografias literárias e culturais. Basta só dizer que ele tem como referência de grande importância teórica para estas nossas literaturas o escritor francófono (da ilha Martinica) Edouard Glissant, cujos títulos de dois dos seus livros tudo explicam logo à partida, A Poética da Relação e Tout-Monde.
Sem qualquer surpresa para mim, está agora dedicado a novas edições da Companhia das Ilhas da obra completa do falecido José Martins Garcia, seu conterrâneo picoense, e durante anos seu colega no então Departamento de Línguas e Literaturas Modernas na Universidade dos Açores. Martins Garcia representa perfeitamente o dilema de ser escritor das e nas ilhas. Uma obra tão soberba como a sua, que inclui também poesia e ensaio, mantém-se fora da atenção nacional que muito merece, quase nunca figura na discursividade literária no nosso próprio país. A sua ficção, incluindo o grande romance de guerra Lugar de Massacre, que transfigura a sua experiência militar na Guiné-Bissau, raiado por vezes o surrealismo, por certo algumas das ferozes páginas satíricas sobre a guerra travada no mato e vivida entre o álcool e a mentira. Os seus outros romances, como O Medo e Imitação da Morte, têm como tema fundamental e constante o desespero existencial da vivência em pequenas ilhas e depois a fuga para fora, que resulta sempre na perdição dos seus personagens, ou, como me disse um dia numa entrevista publicada no Diário de Noticias: “nasci numa ilha e perdi-me no mundo”. Não são necessariamente autobiográficos mas contêm em si, na “pessoa” de alguns dos seus narradores toda a fúria e inteligência crítica do autor, assim se desenrolam na sua geografia natal e países e sociedades por vividas em directo. Este é trabalho mais do que meritório e uma aposta corajosa da editora com base na ilha do Pico, mas com uma projecção nacional pouco comum a outras experiências semelhantes no passado. Finalmente, a grande Imprensa lisboeta tem tomado nota em espaços de destaque, que só lhes prestigia e presta homenagem é um dos maiores e melhores escritores portugueses do século passado.
“A representação – escreve Urbano Bettencourt – do espaço insular açoriano dá-nos, em primeiro lugar, a imagem de um ‘mundo abreviado’ (expressão de Vitorino Nemésio) em que as personagens se movimentam aparentemente mais por força de um desígnio exterior do que por uma vontade própria (desígnio que tanto pode resultar dos constrangimentos físicos, geográficos, como do peso do conservadorismo e das convenções sociais, familiares); incapazes, por vezes de romper o círculo em que os seus gestos e atitudes se repetem inevitavelmente, as personagens conseguem, noutros casos, escapar ao cerco da ilha para fazer a experiência do mundo, mas acabam por perder-se de formas várias.. A sátira, por seu turno, representa uma denúncia frontal desse mesmo mundo. A visão satirista é a de alguém que se situa perante um mundo degradado e que a si próprio atribui a missão de criticá-lo de forma directa e agressiva mesmo, com o propósito de agir sobre ele, transformando…”
É precisamente sobre tudo isto e muito mais na obra de José Martins Garcia que trata Urbano Bettencourt no seu novo livro, O Amanhã Não Existe, a sua tese de doutoramento (com algumas ligeiras modificações ou acertos de linguagens), defendida há poucos anos na Universidade dos Açores. É claro que num livro tão extenso como este a sua parte principal é uma sustentada e bem documentada análise de como a sátira na ficção de José Martins Garcia, e em livros de contos sui generis como Katafarauns, que junta agora os dois volumes originais Katafaraum é uma nação eKatafaraum ressurrecto, sobressai em tudo que fazem, dizem ou insinuam os seus personagens principais na clausura da ilha e na desorientação quase psiquiátrica quando optam pelo seu desterro nas grandes cidades, fazendo chamamentos à nossa historicidade, no caso dos Açores, e aludindo de quando em quando a outras obras, autores e figuras históricas do nosso arquipélago. A primeira parte do livro, para uma vasta contextualização das obras analisadas, debruça-se sobra a velha questão da Literatura Açoriana, a sua “existência” ou não, a teorização através do que se tem escrito em várias épocas e momentos históricos sobre este tema desde o século XIX até ao presente, questão que reaparece de esporadicamente quando alguns dos nossos escritores aqui nascidos reclamam para si um lugar no cânone literário português. O próprio José Martins Garcia, que foi Professor Catedrático na Universidade dos Açores, leccionou a cadeira precisamente de Literatura Açoriana, e creio que sem grandes preocupações teóricas sobre uma literatura autónoma ou não. No pós-25 de Abril, Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros relançariam o antigo debate a partir de Lisboa e pela revista A Memória da Água-Viva, enquanto Onésimo Teotónio Almeida faria o mesmo com um grande congresso na Brown University, a primeira instituição do ensino superior no mundo a incluir uma cadeira sobre a literatura que tem os Açores como referência, escrita ou não por ilhéus. Estão representados praticamente todos os nomes dos escritores, críticos e ensaístas que se debruçaram de modo sério a questão, percebendo-a através de variadas perspectivas, alguns deles aventurando comparações com a literatura produzida noutros países e noutras regiões, como nos casos, mais conhecidos da nossa geração, que incluem Borges Garcia, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Onésimo Teotónio Almeida, J. H. Santos Barros e o próprio José Martins Garcia. Discretamente, omite nestas páginas a sua importante escrita toda a questão, ele que foi um dos ensaístas e crítico que despoletou o nosso regresso ao pensamento teórico e prático sobre a Literatura Açoriana, ele, cuja poesia e ficção carregam com profundidade tudo o que distingue a nossa palavra criativa adentro da literatura portuguesa modernista.
“O estudo daquilo que os textos significam (ou não) – reafirma o autor na primeira parte do livro – em termos de uma particular expressão e de um modo de ser açoriano corresponderia, segundo Eduíno de Jesus, a um segundo momento de aproximação. Ora, deste ponto de vista, os textos dispersos já existentes, monografias, ensaios, crítica literária, introduções a obras de conjunto, dissertações académicas, mesmo nãp constituindo uma história de literatura, fornecem elementos extremamente valiosos para o entendimento e a compreensão do processo literário açoriano no seu percurso histórico e estético. E, para dentro dele, proceder à abordagem de um autor ou de uma obra, como é o caso de José Martins Garcia.”
Por outras palavras, essa história já existe, só que está dispersa e à procura de quem a sintetize. O Amanhã Não Existe é outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte, começando com Gaspar Frutuoso no século XVI até ao nosso presente. A sua linguagem clara, livre do inútil e ofuscador jargão académico, a prosa de um grande estudioso e escritor que é Urbano Bettencourt traz-nos tudo que leva um leitor a abrir um livro para reafirmar o poder da literatura como representação da vida, da mundividência de um povo há mais de quinhentos anos no meio do mar e entre o continente da sua origem e o continente, a oeste, do seu destino.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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