JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Do escritor picoense Urbano Bettencourt




José do Carmo Francisco
URBANO BETTENCOURT e o gosto das palavras

Às vezes, dá-me saudades dos anos sessenta. E não será tanto a vaga nostalgia dessa "adolescência que nunca ninguém tem a não ser quando a relê num livro" (como escreve Joaquim Manuel Magalhães num belíssimo poema) e nem talvez num qualquer sentimento de desencanto de quem perdeu as flores que Scott
McKenzie nos pusera nos cabelos antes de entrarmos em San Francisco, de cujos caminhos acabámos, aliás, por desviar-nos, sem nunca lá termos chegado. Não, não será por isso que às vezes sabe bem olhar para trás e, nessa pausa do tempo, recuperar algum do apaziguamento interior, da ingenuidade mesmo, que os anos foram transtornando e subvertendo até; aquilo que continua a chamar-me, nesse regresso, será muito mais a possibilidade de confrontar-me, trinta anos depois, com a pura sensação de quem vê as suas próprias palavras estampadas em letra de forma nas páginas dos jornais. E aqui, sim, poderá insinuar-se a nostalgia pelo tempo de um olhar optimista sobre a imprensa e que talvez fosse, afinal, o sinal de uma confiança mais vasta, de uma crença na possibilidade de transformação do gosto, da vontade e do desejo; é decerto a limpidez desse olhar antigo que me atrai ainda, sobretudo quando em confronto com alguma perversidade que se atravessa no meu olhar de hoje sobre a imprensa, os seus jogos, o seu tédio.

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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