José do Carmo Francisco
URBANO
BETTENCOURT e o gosto das palavras
Às vezes, dá-me saudades dos anos
sessenta. E não será tanto a vaga nostalgia dessa "adolescência que nunca
ninguém tem a não ser quando a relê num livro" (como escreve Joaquim
Manuel Magalhães num belíssimo poema) e nem talvez num qualquer sentimento de
desencanto de quem perdeu as flores que Scott
McKenzie nos pusera nos cabelos
antes de entrarmos em San Francisco, de cujos caminhos acabámos, aliás, por
desviar-nos, sem nunca lá termos chegado. Não, não será por isso que às vezes
sabe bem olhar para trás e, nessa pausa do tempo, recuperar algum do
apaziguamento interior, da ingenuidade mesmo, que os anos foram transtornando e
subvertendo até; aquilo que continua a chamar-me, nesse regresso, será muito
mais a possibilidade de confrontar-me, trinta anos depois, com a pura sensação
de quem vê as suas próprias palavras estampadas em letra de forma nas páginas
dos jornais. E aqui, sim, poderá insinuar-se a nostalgia pelo tempo de um olhar
optimista sobre a imprensa e que talvez fosse, afinal, o sinal de uma confiança
mais vasta, de uma crença na possibilidade de transformação do gosto, da vontade
e do desejo; é decerto a limpidez desse olhar antigo que me atrai ainda,
sobretudo quando em confronto com alguma perversidade que se atravessa no meu
olhar de hoje sobre a imprensa, os seus jogos, o seu tédio.

Sem comentários:
Enviar um comentário