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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Homenagem a um dos mais valorosos poetas nacionais - Marcolino Candeias


Breve Discurso aos Meus Amigos


Meus amigos 

meus amigos de escola meus amigos de liceu e de universidade 

que juntos fizemos a maqueta de um novo mundo 

meus amigos de pândega meus amigos das touradas da minha adolescência 

que uns aos outros nos embriagámos de tanta esperança. 


Oh meus amigos de café de cerveja gelada e coração fervente 

que resolvíamos a paz e a guerra e inventávamos a justiça social 

todos os meus amigos das artes que sonhávamos até ao clímax da fúria 

a utopia suprema 

e expurgámos do mal todo o universo para o fazer só de beleza. 

Meus amigos da ciência

que em serões enchíamos de generosidade as retortas do progresso 

em que inventámos novas energias e as novas maravilhas do paraíso terrestre 

e por que não 

dos meus amigos os melhor penteadinhos das ideias então apenas futuros 

hoje consagrados já vedetas mesmo fragatas e cruzadores da política 

-- se é que na política meu Deus aqui pra nós o Senhor acha que? 

Ah todos os meus amigos sem falhar nenhum 

intelectuais semi para-intelectuais e sindicalistas 

quantos quintais de verbo imolámos ao porvir. 

Meus amigos todos do mundo inteiro que nunca conheci que nem hei de conhecer 

meus inimigos e mesmo os menos amigos 

toda a charanga da imprensa escrita e da falada 

e mais a do cochicho e a do dizquedizque também. 

Todos. 

Ah meus amigos meus inimigos 

nós que inventámos a computação de bolso e o laser 

nós que viajamos no imo do invisível 

nós que fazemos a carambola com neutrões 

nós que manipulamos a ADN como um castelo de Lego 

nós mesmos que bordejamos as costas do cosmos 

nós os que glorificamos 

nós os que descreditamos 

nós os que desacreditámos da democracia 

e quisemos o mundo livre e melhor

nós que gravamos no perfeito absoluto da matéria 

a perpetuidade do Hino à Alegria 

nós que operámos tanta maravilha. 

Nós que fazemos Jugoslávias e permitimos Somálias e Timore

e que incubámos novas suásticas 

sob a asa da nossa inconsciência. 

Nós que por lucro e desleixo fazemos marés negras 

e por conveniência e hipocrisia 

ousámos admitir que dos falos fumegantes da indústria 

era Juno mesma que se ejaculava 

em jactos de progresso sobre as nações da Terra. 

Nós que criamos as chuvas ácidas 

cuspindo para o ar nossa arrogância 

nós que satisfeitos e inconsequentes 

multiquotidianamente abrimos a porta do frigorífico 

e que de higiénicos tanto apertámos o desodorizante 

que mesmo daqui debaixo 

rasgámos as cuecas de S. Pedro. 

Nós que nem mesmo já precisamos de alma 

para sermos humanos e imortais. 

Nós que 

já nem de nós mesmos conseguimos dizer as maravilhas. 

Nós operámos o inoperável 

e arrotando à glória de Deus realizámos o impossível. 

Marcolino Candeias 

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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