· A TERCEIRA SENSAÇÃO HUMANA
E Deus viu que eu me entediava, pois do que valia ser um rei no meu
jardim sozinho, sem ter com quem compartilhar o Paraíso? Ou sem ninguém para me
invejar? E então Deus, que já tinha criado o tempo, criou o passatempo, e me
encarregou de dar nome às coisas. Eu vi a uva, e a chamei de parmatursa. Eu
via
a pedra e a chamei de cremílsica, e ao pavão chamei de gongromardélio, e ao rio
chamei de... Mas Deus me mandou parar e disse que cuidaria daquilo, e me
instruiu a procurar o que fazer enquanto terminava de criar o Universo, pois os
anéis de Saturno ainda estavam lhe dando trabalho. E eu me rebelei e perguntei
“Fazer o que?” e viu Deus que, além do Homem, tinha criado um problema.
*
E perguntou Deus o que eu queria, e eu respondi: “Sabe que eu não sei?”
E Deus disse que tinha me dado uma vida sem fim, e um jardim de prazeres digno
de um rei para viver minha vida sem fim, e frutas e peixes e pássaros de graça
e dentes para comê-los, e mel de sobremesa, e que eu esperasse para ver que
espetáculo, que show de bolas, seria o Universo quando ficasse pronto. Tudo
para mim. Só para mim. E não bastava? Não bastava. “Eu pedi para nascer, pedi?”
disse eu. E Deus suspirou, criando o vento. E pensou: “Filho único é fogo”.
*
O que eu queria? Queria outra pessoa. Era isso. Queria uma segunda
pessoa. Queria um interlocutor. Um irmão, alguém para chamar de “tu” e com quem
chamar o Senhor de “ele”. Ou “Ele”. E que quando Ele chamasse de vós,
responderíamos em uníssono “nós?” . E quando se referisse a nós para os anjos,
dissesse “eles”. Criando outra pessoa, Deus estaria, para todos os efeitos
gramaticais, criando cinco.
*
E Deus fez a minha vontade, e me pôs a dormir, e quando acordei tinha um
irmão ao meu lado, tirado do meu lado. Igual a mim em todos os aspectos. Espera
aí, em todos não. Deus, com a cabeça nos anéis de Saturno, não prestara atenção
no que fazia e errara a cópia. Colocara coisas que eu não tinha e esquecido
coisas que eu tinha, como o pênis, que se dependesse de mim se chamaria
Obozodão. Deus se ofereceu para recolher a cópia defeituosa e fazer uma certa
mas eu disse “Na-na-não, pode deixar”. Pois tinha visto que era bom. Ou boa. E
fui tomado de amor pelo outro. A segunda sensação humana, depois do tédio.
*
Ela era o meu tu, eu era o tu dela. Juntos, inauguramos vários verbos
que estão em uso até hoje. E eu a chamei de Altimanara, mas Deus vetou e lhe
deu outro nome. E quando ela perguntou como era o meu nome, respondi
“Mastortônio” mas Deus limpou a garganta, inventando o trovão, e disse que não
era não. Ficou Adão e Eva (eu Adão, ela Eva) aos olhos do Senhor e na História
oficial. Mas, em segredo (isto pouca gente sabe), nos chamávamos de Titinha e
Totonho. E foi ela que disse “Totonho, quero que tu me conheças mais a fundo”.
E eu: “No sentido bíblico?” E ela: “Há outro?” E inauguramos outro verbo.
*
E foi ela que me ofereceu o fruto da Árvore do Saber, a que Deus tinha
me dito para nunca tocar mas colocado bem no meio do Paraíso, vá entender.
Resisti, embora a fruta fosse rubicunda (uma das poucas palavras que consegui
inventar, driblando a fiscalização do Senhor) e ela a segurasse contra o peito,
como um apetitoso terceiro seio. Se comêssemos daquela fruta, perderíamos a
inocência e nos tornaríamos mortais. “Em compensação...”, disse a Titinha. Em
compensação, o que? Só saberíamos se comêssemos a fruta. E fomos tomados de
curiosidade. A terceira sensação humana. A fatal.
*
Quando soube da nossa transgressão, Deus deu um murro na Terra, criando
o terremoto, e nos expulsou do nosso jardim. E durante todos estes anos muitas
pessoas têm me perguntado (pois depois disso a Terra se encheu de muitas
pessoas) se valeu a pena trocar meus privilégios de primeira e única pessoa
pelo prazer de conjugar com outra, e o meu tédio pelo envelhecimento e a morte,
e a minha inocência eterna pelo saber fugaz. E sabe que eu não sei?
*
E, claro, sempre tem o gaiato que
pergunta: “Fora tudo isso, que tal era a fruta?”

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