Custa,
mas o melhor é ver o problema a toda a luz. No conceito do homem abstracto é
necessário afinal meter tanto estrume, que não há entusiasmo que resista. Feito
de mil incoerências, movido por sentimentos ocasionais, preso a
necessidades rudimentares, o bípede real, ao ser premido no molde da abstracção, rebenta a forma. E é preciso regressar ao amigo íntimo, ao compadre, para se calcar terra firme. Numa palavra: não há um homem-símbolo que se possa venerar: há simples indivíduos cujas virtudes e defeitos toleram um convívio social urbano.
necessidades rudimentares, o bípede real, ao ser premido no molde da abstracção, rebenta a forma. E é preciso regressar ao amigo íntimo, ao compadre, para se calcar terra firme. Numa palavra: não há um homem-símbolo que se possa venerar: há simples indivíduos cujas virtudes e defeitos toleram um convívio social urbano.
Miguel Torga, in "Diário
(1948)"
Não há Nada que Resista ao Tempo
Não
há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a
grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não
sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de
não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a
meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se
numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.
Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.
Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem
as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá
dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o
real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena
de tudo aquilo, desaparecera.
Miguel Torga, in "Diário
(1940)"
A Maravilha da Vida é Tudo Nela Ter Justificação
Desabafo
dum amigo, que não encontra justificação para o seu pecado mortal, que é viver.
Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da
vida é tudo nela ter justificação. É, da mais rasteira erva ao mais nojento
bicho, não haver presença no mundo que não seja necessária e insubstituível.
Que, do contrário, era faltar na terra esta admirável plurivalência, que faz de
uma tarde de sol, de trigo e de cigarras o mais assombroso espectáculo que se
pode ver. O medir depois a distância que vai da formiga ao leão, da urtiga ao
castanheiro, de Nero a S. Francisco de Assis, é uma casuística que não tem nada
que ver com a torrente de seiva que inunda o mundo de pólo a pólo.
Foi-se, e à tarde apareceu-me com um belo poema.
Miguel Torga, in "Diário
(1938)"

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