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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 12 de junho de 2018

Do colaborador Dr. António Bulcão



E o Joel, outra vez…


Nos meus tempos de menino, lembro-me apenas vagamente de ingleses ou alemães na Horta.
O vulcão sim, tinha um ano e pouco quando nasci. Não era preciso centro de interpretações nenhum. Bastava ir aos Capelinhos e olhar em volta. A areia ainda a escaldar sobre os tectos das casas enterradas, campos antes férteis
agora dizimados, bombas por todo o lado. Bombas de lava, que subia a quilómetros incandescente e descia a arrefecer, a solidificar, a abater habitações. Quem quisesse podia levar algumas consigo, sob o olhar de lentes de um farol afogado em cinzas.
Levou muita gente para fora do Faial, o vulcão. Mas partiram também logo a seguir os que habitavam as colónias. Talvez se cheirasse um resto de perfume de uma inglesa na avenida. Ou se sentisse a sombra de calor do corpo de uma alemã nas cadeiras de palha da esplanada do Café Internacional. Mas o tempo dos cabos deu os últimos suspiros antes de eu fazer 10 anos, até o do Cabo da Boa Esperança que era aquele porto.
Joguei futebol em antigos campos de ténis, nas traseiras de muitas residências. Aprendi o que era croquete, dois arcos, campainha… Mas fiquei-me por uma memória contada do que era a Horta do tempo dos cabos submarinos, uma Horta da qual Nemésio disse gostar “que nem de nêsperas”, quando para lá foi para passar Matemática…
Na minha juventude, escrevi que a minha cidade parecia cada vez mais um sexo inerte, entalado entre as coxas fenomenais da Espalamaca e da Guia.
E agora vem o Joel Neto fazer um milagre, com o seu Meridiano 28.
As casas deixadas pelos ingleses e pelos alemães eram apenas edifícios que os antigos diziam poder resistir a tudo, tão largas e fortes as suas paredes. Mas o Joel mete gente dentro delas, lareiras reacendem-se, fumo branco reaparece nas chaminés. A avenida anima-se de novo em passeios com sombrinhas, os clippers da Pan Am voltam a pousar, gente famosa anima a doca. Em paz numa ilha, gente que na Europa se guerreava. 
Creio que se alguma cidade merece ser Património da Humanidade é a Horta. Ligou, através dos cabos submarinos, a América à Europa. Num tempo em que conseguiam, com os seus aparelhos, transmitir oito palavras por minuto. Neste nosso tempo, em que se consegue transmitir uma biblioteca inteira por segundo, é fácil esquecer o passado.
Joel, conseguiste fazer pela Horta mais que algumas dezenas de vereações camarárias e uns quantos governos regionais. Meteste a minha cidade linda no mapa outra vez. Por tal de agradeço.
Mas agradeço muito mais teres eternizado num livro um tempo áureo que morreu durante a minha meninice. Porque, lendo o teu Meridiano, vivo uma época gloriosa. E se tornas vivo um tempo morto, anterior à minha meninice, então dás-me a prova de que ainda não nasci…
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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