JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 19 de agosto de 2018

Do professor, historiador, pesquisador, jornalista, Vitor Rui Dores


Jovens imóveis com telemóveis

“O telemóvel é um apêndice natural das trompas de Eustáquio”
Umberto Eco

 Conheço-os bem porque com eles lido todos os dias. Compreendo-os, mas nem sempre os entendo. Vejo-os de iphones nas mãos, olhando fixamente os ecranzinhos, carregando freneticamente as teclas, alheados do mundo, em silenciosa comunicação e num autismo absoluto.

Imóveis com telemóveis, frívolos e irresolutos, não se relacionam entre si. Vazios de ideias e destituídos de pensamento crítico, vão partilhando frases feitas, lugares comuns, banalidades… Não falam, dialogam; não conversam, comunicam… Comunicam com o irreal, com o nada. Por isso são cada vez mais informados, mas menos reflexivos; mais comunicativos, mas menos cultos; mais livres, mas menos responsáveis; mais individualistas, mas menos solidários.
São jovens que pediram tudo aos pais, e os pais deram-lhes tudo. Têm dificuldade em aceitar um “não”, desconhecem a disciplina e manifestamente não sabem lidar com a frustração. Vivem sem outro amanhã que não sejam as redes sociais. E nas redes sociais se enredam. Trocam o mundo real pelo mundo cibernético. Preferem o ciberespaço aos cafés. O digital ao analógico. De auscultadores e desligados do mundo, são alienados ao facebook (esse vírus infecto-contagioso), ao twitter, ao instagram… 
Muitos são filhos únicos, mimados e superprotegidos por pais e mães inseguros, que estão em início ou em fase de consolidação de carreiras, com vidas muito atarefadas, o que lhes retira tempo para uma maior e melhor acompanhamento junto dos seus progenitores. Sentindo a pressão do quotidiano, e temendo não estarem a cumprir integralmente o seu papel de educadores, agarram-se aos rebentos e infantilizam-nos para lá do natural. (Numa outra crónica chamei-lhes “os meus alunos cutchi-cutchi”…).
De resto, as relações entre encarregados da educação e filhos horizontalizaram-se, isto é, deixaram de ser hierárquicas, e muitos pais encontram sérias dificuldades em controlar os miúdos em casa e, sobretudo, em impor regras, nomeadamente em termos de utilização da net. O ditado popular bem que avisa: “Casa de pais, escola de filhos”.
É importante dizer, aqui e agora, que há evidências que provam que o excesso de internet está a tornar os nossos jovens (e também os adultos) menos competentes e mais preguiçosos. E a dependência dos jogos de computador é já considerada, pela Organização Mundial de Saúde, como um problema de saúde mental. 
Obviamente não cairei na esparrela de comparar a juventude de hoje com a mocidade do meu tempo, nem ousarei aqui afirmar que “no meu tempo é que era bom”. Nada disso. São tempos e gerações diferentes. Culturas e competências diferenciadas. Formas outras de encarar a educação. O que me chateia é assistir, nos dias que correm, a tanta ociosidade, a tanta selfie, a tanta autocontemplação, a tanto narcisismo, a tanta ostentação, a tanto exibicionismo, a tanta mesquinhez e a tanta palermice. 
E certamente que não é isto que queremos para os nossos jovens.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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