As Letras Assinadas (Baptista Bastos)
No paredão austero da Mundial, onde a prudência administrativa mandou pespegar uma lápida: «É proibido afixar anúncios nesta propriedade», um miúdo de metro e meio de altura escreveu a carvão estas letras infamantes para a higiene do edifício: «Viva o Benfica».
O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens
muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras
de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem
rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer,
umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo:
«Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas
grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra.
Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel».
Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua
responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu
tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel.
O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é
próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se
exprimir finalmente em resistência e lágrimas.
Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza
na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas
que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o
miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia,
certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo
para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é
um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que
fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as
pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e
traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se
para trás e gritou para o polícia:
– Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?

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