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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Do colaborador Dr. António Bulcão


O Redondo da Liberdade

Há algumas semanas escrevi sobre a Doca do Faial. Da tristeza que é os faialenses já não poderem passear ou pescar no cais.
Dediquei, no entanto, pouco tempo ao Redondo da Doca.
O Redondo da Doca, que acaba o cais, é uma instituição que merece mais linhas. Para mim, foi uma das escolas que tive na vida.
No Redondo apanhava-se, geralmente, peixe maior que no cais. Besugos, sargos, cavalas, bicudas, anchovas… Era rara a noite em que não havia nenhum pescador a lançar no Redondo da Doca. Era preciso estar temporal bravo…
Mas a maior parte das noites o Redondo estava cheio de gente. Os que pescavam, por vezes ombro com ombro, os que apenas observavam em silêncio e, ainda, uma outra classe que cognominei como os “talvez fosse melhor de outra maneira”. Estes eram uns chatos. Não pescavam nem deixavam pescar. Para eles, a maneira em que estavam a pensar era sempre melhor que a maneira que quem pescava escolhera. Fosse estrovar um anzol, fosse meter a isca, fosse lançar o aparelho, fosse trabalhar o peixe, se este era maior qualquer coisa, “puxa pra dentro, dá-lhe linha…”, aquelas almas do “talvez fosse melhor” nunca estavam de acordo com o que o pescador fazia.
Quando estava a dar peixe, pousava no Redondo um silêncio apenas cortado pela cantoria dos carretos e pelos conselhos dos chatos. Mas quando ainda não estava a dar ou, definitivamente, não era noite que prestasse, muito se conversava naquele lugar.
A isca variava. Pesquei com ressol de bonito, que ia buscar à Fábrica do Peixe no Pasteleiro, com carne de baleia que me davam na Fábrica da mesma no Porto-Pim, ou com saltão, que apanhava nas areias desta praia, ou com minhoca apanhada na maré-baixa. Lulas e camarão só muitos anos depois apareceram.
O ressol de bonito tinha de ser tratado para dar isca que preste. Era metido num caixote de madeira com fundo ralo, às camadas separadas com sal, para ir revendo até ficar capaz de se aguentar no anzol. Dizia quem sabia que era uma forma de manter a baía da Horta engodada todo o ano, pescar com ressol. 
Esburaquei a praia toda de Porto-Pim de nascente a poente à cata de saltão, até ao dia em que novamente quem sabe me ensinou que bastava deixar à tarde uns papo secos na linha em que a areia está seca e logo depois molhada e voltar à noite. “É só meter para dentro do balde, que eles enxameiam no pão”. 
Um dia o José Amorim apanhou uma anchova que não havia fita métrica que lhe chegasse nem balança que tivesse números para a pesar em condições. Tal pena nesse dia eu não ter ido…
Outro dia vi cavala atrás de chicharro, depois anchova atrás de cavala e por fim toninha atrás de anchova. O bicho maior come realmente o mais pequeno, e foi apenas uma das lições aprendidas no Redondo.
Tudo isto desapareceu. É proibido. E eu que sempre pensei que se a Autonomia não serve para vivermos melhor nestas ilhas, então não serve para nada.
Como a Assembleia Legislativa Regional, se não servir para adaptar as leis que fazem sentido noutros portos grandes da Europa mas não fazem sentido nenhum nestes calhaus em que vivemos, também não serve para nada.
Quando escrevi sobre a Doca da Liberdade, recebi dezenas de mails e comentários no facebook, sobretudo de faialenses, que manifestavam o seu acordo com o que escrevi e a sua tristeza por a doca ter sido fechada. Mas não fazem nada. Nem uma simples petição. Quem manda, manda, e o povo obedece e fica caladinho. 
Vamos fazer todos os possíveis para reabrir a doca e o redondo da mesma ao povo? Claro que apenas nos dias em que não houver movimento de barcos que o impeça… Mas vamos tentar? Se assim quiserem, têm-me ao vosso dispor. Para estudar a questão em termos jurídicos, para elaborar o texto de uma petição à ALRAA, para chatear os partidos…
Devolvam-nos o que é nosso e nos dá tanto prazer. Temos esse direito.
António Bulcão
(publicado no Diário Insular)
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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