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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sábado, 13 de outubro de 2018

Da Califórnia de João Bendito


AS PIAS DE LAVAR ROUPA

Agora já são peças de museu ou servem para enfeitar os jardins relvados das vivendas de gente fina. Gente fina essa que deve ter lavado pouca roupa em pias de pedra negra. 

Desconfio que não são muitas as que ainda recebem água e sabão no seu interior, muito menos sentirem um par de fortes braços a esfregarem os lençóis e as cuecas nas ásperas e onduladas superfícies dos inclinados lavadores. Agora, cheias de terra, servem de vasos de flores.

Raro era o quintal que não tivesse uma. Muitas ainda existem onde foram instaladas, em lugares estratégicos das freguesias rurais, quase sempre junto aos tanques onde o gado ia beber ou nas imediações das arquinhas que controlavam o fluxo das águas correntes. Eram lugares onde, a par do árduo trabalho da lavagem, as mulheres mantinham momentos de convívio e de boa disposição, de trocas de impressões e, claro, de mexericos. Ainda me lembro de ver as lavadeiras levarem à cabeça alguidares de barro, cheios de roupas, a caminho das pias ou das margens das ribeiras, quando elas corriam. Depois era um tal estender pelas cordas as coloridas camisas americanas, a contratarem com a brancura das ceroulas e das meias a abanarem ao vento.

Na nossa casa, na cidade de Angra, a um canto do quintal e entalada entre o tanque dos peixinhos e a antiga retrete, lá estava a nossa pia. Ainda existe, embora eu desconfio que já não tenha uso. A mãe não descansou enquanto não convenceu o pai a gastar uns trocos para que se construísse um telheiro, com paredes de blocos, que o separam da “rua” das galinhas, e teto em fibra de cimento, melhoramento que veio permitir uma maior proteção à lavadeira e que criou, para benefício dos labregos da casa, uma maravilhosa baliza para as grandes partidas de futebol, de um-contra-um. O pior era quando os Ronaldos da casa não tinham cuidado e acabavam por sujar, com a bola, a roupa lavada e estendida nas vergas. Não foi só uma vez que os ditos jogadores foram forçados a abandonar o terreno de jogo, com as pernas a chiar ao toque das canas que seguravam as vergas. 

Lembrei-me das pias de pedra, outro dia, quando estava a ver um programa de comentários políticos na televisão. Até parecia que ouvia a voz do meu pai quando, na sua Loja, notava dois ou três dos seus clientes a desbobinarem na vida alheia: “Isto é que é um tal lavar roupa suja!” Sentados ao redor de uma grande mesa, meia-dúzia de «pundits», como os comentaristas modernos gostam de se chamar, discutiam os temas da atualidade. O moderador, homem sobejamente conhecido, inquietava-se para os controlar. Os tagarelas, quais papagaios palradores, interrompiam-se uns aos outros, apontavam os indicadores à cara dos adversários, reviravam os olhos quando ouviam algo que não gostavam e usavam todo o tipo de argumentos para justificarem as suas opiniões. 

Estão os canais de televisão cheios de programas deste género, cada um deles direcionado para determinados grupos de cidadãos ou para cada tendência política. Os mais liberais ou progressistas fazem ataques cerrados à corrente administração e às suas manobras; os da facção contrária, arrebatados e mais tendenciosos, pespegam nos adversários um carimbo de socialistas ou até mesmo de comunistas e, tal como os antigos padres nas igrejas, avisam os seus correligionários para não votarem nos inimigos senão o Diabo toma conta disto tudo.

Mas, mais do que nas televisões ou nas rádios, as maiores máquinas de lavagem são as modernas redes sociais. Antigamente, debruçadas nas negras pias, as nossas “tias” construíam umas teias eficazes de troca de informações, sabiam quem era a desavergonhada que se dava com o padre, quem era o pai do filho da Rosa da tia Chica e como é que o Francisquinho se tinha livrado de ir à tropa. Hoje, abrimos o computador, entramos no Facebook e ficamos logo a saber que o Carlinhos anda em viagem de cruzeiro pela Cochinchina – ele que não tem onde cair morto -, assistimos, sentados na nossa secretaria, à briga entre os apoiantes do Cordeiro e os PPDs, testemunhamos as desgraças que acontecem nos voos da SATA e analisamos, sem mesmo gostarmos de futebol, os erros do árbitro que, novamente, pôs o Benfica no topo da tabela. Já nem precisamos de cinza ou de sabão Sónasol, fazemos uma barrela com aquilo tudo, ficamos com as ideias mais desbotadas que os lençóis lavados com TIDE, do mais caro. Se acontece ficar uma nódoa aferrada na vida de algum inocente, pois que se lixe, ele que se arrume se não quer ver a sua vida nas bocas do mundo.

Algumas lavadeiras modernas acumulam essas funções com as de costureiras, dão uns pontos para fora, como dizia o meu amigo Macide. Umas, fazem-no por necessidade ou por terem caído, infelizmente, nas malhas da mais velha profissão do mundo; outras, mais astutas e sofisticadas, só procuram lavar ou torcer as cuecas de homens famosos e endinheirados. Apegam-se-lhes como lapa à pedra, sugam-lhes as algibeiras e os tutanos e, anos depois, arrependem-se de terem recebido avultadas quantias para estarem caladas e então põem-se a lavar a roupa suja à vista de toda a gente.

O recente caso que, nas últimas semanas, envolveu o nosso Ronaldo, rapaz educado e amigo de ajudar a quem a ele recorre, ainda vai fazer muita espuma nas pias do futebol e não só. A Katharininha até poderá ter tido alguma razão, o capitão confessou que a ouviu gritar para desligar a máquina a meio da lavagem, mas ele não lhe deve ter ligado importância, entusiasmado que estava a mudar a água às azeitonas. Agora, anos depois, vai ter que enfrentar as boas e as más línguas do mundo, a ver se consegue descalçar esta bota com a cara lavada. As águas desta barrela parecem-me um pouco turvas, eu aconselharia o Ronaldo era a criar amizade com o imperador americano. Tanto ele como os seus amigos ou protegidos acabam sempre por escapar a irem pelo esgoto abaixo e bater com os ossos onde as águas sujas das pias vão desaguar: no fundo lamacento de alguma estrumeira.

Se o Ronaldo, que ainda nem tinha nascido nessa altura, tivesse jogado uma partidinha de futebol no meu quintal, tinha ficado a saber que os golos na baliza do telheiro só valiam quando marcados pela frente... por detrás, a bola poderia vir suja do cu(rral) das galinhas.

Lincoln, Ca. Out. 13, 2018
João Bendito.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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