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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

sábado, 13 de outubro de 2018

Da Califórnia de Luciano Cardoso



MEIO CHEIO

Deveras apetitoso, o salmão desafia-me grelhado no prato à minha frente. Poderia dizer que me faz crescer água na boca porque deixou a grelha há poucochinho para acompanhar os vegetais encostados ao arroz. Seria, no entanto, incorreto para com a delicada garrafa à mesa comigo. Foi-se-lhe o rótulo por fora mas o que interessa vem-lhe lá dentro há algum tempo a pedir-me para ser liberto. Fez a viagem transatlântica e sobrevoou a América de ponta a ponta, escondido na mala amiga duma alma generosa com gosto gémeo ao meu. Adoramos o nosso verdelho vertido do berço. Nada se lhe compara e merece-nos o máximo respeito, sobretudo quando insiste em ser aberto sem demora. Fiz-lhe a vontade. Água na boca agora é que não. 

“É bom esse vinho?” Sentadinha à minha frente, a minha doce cara-metade sabe que eu estou a gostar mas quer ouvir-me dizê-lo. “Nunca bebi pinga igual.” Sorrio ao molhar a goela. “Até nem parece. Vejo-te o copo ainda meio cheio.” Alargo-lhe o meu sorriso. “Eu cá já o vejo meio vazio.” Ela lê-me atentamente e inclina a garrafa sobre o copo com um fino reparo. “Do peixe grelhado a primor pela tua mulher…nem uma palavrinha sequer.” Eu leio-a lindamente. “Está uma autêntica delícia, este salmão grelhadinho por ti.” E grelhámos a nossa gargalhada juntos. 

Nada melhor estimula a boa harmonia dum casal do que o seu salutar gargalhar. Nada, claro, é uma maneira de dizer. Há quem diga outras coisas e lá tenha as suas válidas razões. Cada qual escolhe o tempero que melhor agrada à saúde do seu relacionamento conjugal. “O que me dizes do sal? Achas que está num ponto bom?” Ela quis testar-me o paladar a cru mas eu nem pestanejei. “Para mim, o sabor está perfeito assim.” As palavras saíram-me sãs, ecoando o meu sentimento de gratidão pela meiga dama que me faz as delícias já vai para três dúzias d’anos. De princípio, habituado aos gostinhos colados às receitas de minha mãe, confesso que estranhei. Com o rolar do tempo, porém, a gente afaz-se à magia culinária da nossa companheira. A minha fez-se uma formidável cozinheira. Sempre que me prepara o salmão do jeito em que o limpei do prato, o copo esvazia-se-me quase sem eu dar por isso. 

À mesa, como na vida, para mim, é uma sensação algo esquisita essa amarga do vazio. Vezes há em que me dá mesmo azia e tudo faço para que não me dê azar. Por isso, tento saborear todos os momentos que posso com o copo meio cheio. Trata-se duma simples figura de estilo que adopto como filosofia de vida e nada tem a ver com o excessivo beber para esquecer. Procuro apenas pautar o ritmo dos meus dias por um prisma positivo, porque embirro facilmente com quem teima em ver o mesmo copo que eu vejo sempre meio vazio. Hoje em dia, então, com o incessante tagarelar nas redes sociais, cada qual puxando a sardinha à brasa que melhor lhe convém, perde-se tempo de mais a chafordar no negativo, coisa que muito detesto. 

“Estás a falar do Facebook?” A conversa acompanha agora a sobremesa com o pudim de veludo a pedir-nos kahlúa com leite sobre umas pedrinhas de gelo. Saboreio um gole e aceno à cabeça que sim. “Se o detestasses assim tanto, não estavas sempre lá caído.” Rio-me e emendo. “Detesto só quando é usado e abusado como não devia ser.” Ela lança-me um olhar oblíquo. “Olhem só quem está a falar. Usas sempre o teu como deve ser?” Não recuo, nem hesito. “Ao menos, tento.” Ela insiste. “E não achas que os outros tentam?” Franzo o nariz, sorvo outro gole e solto um pausado “Desconfio.” Sai sarcástico e ela prega-me um beliscãozinho maroto. “Desconfias de mim?” Olhos nos olhos, nariz quase no nariz, bem que tento mas não consigo evitar o reles risinho que ela aproveita logo ao apanhar-me por troça. Ergue o seu copo ao meu… – ambos ainda meios cheios entoam um tchim-tchim – …e lá brindámos, felizes da vida, aquele deliciante momento a dois. 

O ameno diálogo só acabou no quarto de cama. Antes de pegarmos no sono, costumamos ligar os computadores. Eu passo os olhos pelos títulos dos jornais, ela prefere passá-los pelas caretas do Facebook. É quase uma rotina que nos ajuda a dormir melhor. Estava eu a ler n’A Bola um belo trecho sobre as fixes lições do são desportivismo exibido no último Benfica-Sporting quando ela me chama a atenção. “Repara só neste post aqui da minha amiga.” Era um copo meio de vinho verdelho ladeado pela pertinente pergunta: “Estará o copo meio cheio ou meio vazio?” 

Um sorriso mútuo lavrou-nos o rosto antes do brando beijo das boas-noites. Beijos que há muito temperam os sorrisos dos nossos dias.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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