O melhor jogador de 2017/18
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Há nele a fé poética de quem acredita poder mudar o Mundo com a bola nos pés; é um prodígio reconhecido por todos, que evita jogar apenas em segurança e cujo crédito, conquistado pelas emoções que gerou, o protegem de todas dúvidas e recriminações. Quando o jogo começa, Bruno Fernandes entra em órbita e nem precisa de reclamar presença para orientar a manobra da equipa que representa. O seu jogo alucinante é repleto de armas contundentes: mais perto ou mais longe da baliza; à direita, à esquerda ou ao meio; como organizador ou finalizador, sempre empurrado por uma obstinação que, a partir de certa altura, ninguém tem legitimidade para equacionar.
Jorge Jesus percebeu que tinha nas mãos um diamante para lapidar, mesmo considerando que vinha do país da tática, onde cresceu e se graduou como futebolista. Aos 23 anos, abriu a mente aos ensinamentos do mestre e preencheu o disco rígido com elementos ainda não totalmente depurados, como sejam a noção estratégica do jogo e a valorização dos companheiros – para BF eles existem não como última solução mas como parte multiplicadora das ações. JJ não teve dúvidas em entregar-lhe a organização do desenho ofensivo do Sporting e ele agarrou a oportunidade, evoluindo até se tornar o melhor jogador da Liga em 2017/18.
Quando pega na bola vai direito ao assunto, abre a porta e entra sem pedir licença. Por vezes é uma irresponsabilidade fazê-lo daquela forma alucinada e pouco solene, correndo riscos desnecessários para os benefícios aparentemente escassos, de lançar a discussão a tão longa distância da baliza; pode fazê-lo implicando os outros, em movimentos de progressão participada, ou em quadros isolados nos quais deposita toda a inspiração e de que, não raras vezes, resultam obras-primas inesquecíveis. Nessa altura, as dúvidas e receios acabam, na maior parte dos casos, com o silêncio interrompido pela explosão da plateia. Os adversários ficam embaraçados pela surpresa, perplexos pelo instinto e desenquadrados quando percebem que nada podem fazer perante um talento entregue à sua sorte.
Se as musas acordam, não lhe interessa o mapa do terreno – encontrará, seguramente, o caminho. É um sedutor com veneno incorporado, que provoca o pânico e tem a certeza de que há de fazer diferença, pelos flancos ou pela zona central, mais cedo ou mais tarde. Tem uma noção peculiar do espaço: o longe começa atrás do meio campo. BF tem o perfil dos solistas que justificam o investimento de construir uma orquestra à sua volta. Mesmo sentindo que tem um andaime seguro que lhe suporta os devaneios artísticos, trabalha como um operário. Descarrega voltagem máxima a cada instante; introduz pausa, desaceleração e serenidade; revela classe e magia; é um jogador imenso, a quem sobra tempo (só tem 23 anos) para tornar-se dono e senhor da equipa.
A precisão antecipa obstáculos e resolve problemas antes mesmo de acontecerem. São mensagens criativas, impensadas mas perfeitas, próprias de quem acredita no sucesso do que trás em mente. Atrás, revela ampla visão e executa mais depressa, sempre com a cabeça levantada; à frente, adapta as características e resolve com contundência de avançado; pode ser o maestro que põe a equipa a jogar à sua volta, orientando-a com as armas inerentes de quem aquece e arrefece, marca os ritmos e harmoniza a ação, como pode ser o avançado com sentido prático, que se movimenta com inteligência superior na antessala do jogo e participa no bordado de aproximação à baliza. A caminho do Mundial na Rússia, BF é um jogador muito raro no futebol europeu, que cumpre o melhor de dois mundos. Foi o jogador de uma época, confirmando as qualidades que lhe eram apontadas e crescendo ao nível da competência de JJ. O futebol português ganhou um craque da cabeça aos pés.
Quim foi igual
a toda a carreira
Tinha contas a ajustar com a história: faltava-lhe a Taça de Portugal
Quim fez a festa no Jamor. Aos 42 anos aprendeu tudo, razão pela qual já não é apanhado desprevenido seja em que circunstância for. José Mota não viu inconveniente em mantê-lo entre os postes, com a braçadeira de capitão, para defrontar o Sporting, prova de que estamos perante um fenómeno de longevidade. Na final, foi o guardião de sempre, atento, seguro, decisivo, que agiu em conformidade. Um grande.
Vítor Gomes é
príncipe do povo
Vítor Gomes confirmou ser um jogador notável, espécie de príncipe do povo, comandante de equipas mais modestas, que se sentem confortadas nas mãos do seu talento criativo. Foi ele o herói que pôs o Aves na final (lembram-se nas Caldas?) e foi dele o passe magistral que deu a Alexandre Guedes o espaço para construir o segundo golo. Pode não parecer pelo percurso que fez até hoje. Mas é um craque.
Alexandre Guedes
foi enciclopédico
Há avançados que demoram mais tempo a expressar o talento goleador
Alexandre Guedes ganhou direito à história. Pôs assinatura nos golos mas já nem precisava de reclamar a autoria da obra para ser um dos melhores em campo. Foi enciclopédico o modo como se comportou num jogo em que a equipa teve menos iniciativa; como jogou de costas para a baliza, segurou a bola e explorou o espaço nas costas da defesa. Aos 24 anos, ainda vai a tempo de reclamar espaço no futebol português.

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