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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Do professor, pesquisador, historiador, jornalista VITOR RUI DORES


Boias da Memória, de Manuel Leal ou a lembrança retroactiva

Nunca como agora me pareceu tão verdadeira a (emblemática) frase do escritor Daniel de Sá: “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”. Um dia Manuel Leal saiu do Faial mas o Faial não saiu dele. A “ilha azul” deixou nele uma memória indelével e retroactiva, e continua a ser o seu microcosmo de referência e o epicentro do seu imaginário. Porque no Faial, espaço matricial e mítico, ficaram os verdes anos e as primeiras rajadas da vida: as primeiras emoções e sensações, os ritos iniciáticos, o despertar para o mundo e para o conhecimento das coisas.
Por isso, a ilha é o lugar onde nunca se chega, e de onde nunca se parte em definitivo. Dito de outra maneira: a ilha que se abandona nunca é a mesma ilha a que se regressa. Podemos aqui aplicar a lei do eterno retorno. Isto é, tudo volta ao princípio, tudo volta ao seu primordial.
Vem isto a propósito da leitura que acabo de fazer de Boias da memória (Edições Seroza, 2016), da autoria de Manuel Leal, faialense, 76 anos de idade, e desde 1959 emigrado nos Estados Unidos da América. 
Em registo de crónica e numa escrita tricotada pela evocação nostálgica, o autor recorda pessoas, coisas e acontecimentos, e lembra casos e vivências ligados à história da cidade da Horta e da ilha do Faial. Nessa revisitação empreendida à geografia sentimental, afetiva e humana da terra que lhe deu berço, ele nunca deixa de fazer os respetivos contextos históricos – do povoamento dos Açores à carreira das Índias; da pirataria à ocupação filipina e às lutas liberais; da presença da família Dabney no Faial e da ação, ali exercida, pela família Bensaúde; dos judeus fixados naquela ilha à presença dos estrangeiros dos Cabos Telegráficos Submarinos; da Primeira e Segunda Guerras Mundiais ao Vulcão dos Capelinhos; dos rebocadores holandeses até à atualidade, Manuel Leal revisita momentos históricos marcantes, mas sempre com a preocupação de relacionar e diferenciar o “cá” (Açores) com o “lá” (Europa e Américas). Por exemplo, ao falar da baleação açoriana, ele faz comparações com o que, nesta matéria, se passa(va) no Japão, Noruega, Islândia, Alasca, Gronelândia, Maldivas, etc. Ou então ao referir-se ao navio “Archimede”, encalhado na baíada Horta, recorda, por associação de ideias, o brigue norte-americano “General Armstrong” atacado, no dia 24 de Setembro de 1814, por uma flotilha inglesa junto do castelo de Santa Cruz daquela cidade.
Grande destaque é dado à família Dabney que, a par da diplomacia e dos negócios, deixou, na ilha do Faial, contributos decisivos nas áreas do social, do cultural, do património edificado, do científico, do musical, do desportivo, da beneficência… E também no campo das ideias – Manuel Leal recorda-nos que alguns dos Dabneys tinham o sonho de transformar os Açores num protetorado americano…
Através das suas apetecíveis estórias, Manuel Leal rememora, em flashback, aspetos ligados à história do Faial ao longo dos tempos. Comparando passado com presente, o autor fala de usos e costumes antigos, recorda lugares que já não existem (por exemplo, o porto do Beliago, hoje Largo do Infante), evoca ruas que mudaram de nome (Canada do Borratem, hoje Travessa do Borratem; Rua do Beliago, hoje Rua Cônsul Dabney), Rua do Mar (a atual rua Conselheiro Miguel da Silveira), Rua Direita (hoje ruas Conselheiro Medeiros, Serpa Pinto e Walter Bensaúde) e Rua Velha (hoje Rua do Bom Jesus, na Conceição).
O autor recorda a Horta antiga dos cafés, das tascas, dos botequins, das oficinas do FayalCoal… A Horta marítima dos dias de “São Vapor”, dos navios ancorados na sua luminosa baía, dos lanchões e batelões ali apoitados, das embarcações acorrentadas às boias… A Horta de gasolinas de elegantes linhas – “Walkíria”, “Cachalote”, “Marota”… A Horta da crise económica e dos “ratos da Doca”… A Horta dos marinheiros, dos baleeiros, dos pescadores, dos estivadores, dos caiadores, dos pedreiros… A par de tudo isto, também nos são lembrados furacões, tempestades, intempéries e outras procelas, de grandes e graves dimensões, que assolaram e danificaram a cidade da Horta, ao longo dos tempos.
Mas este é um livro com gente lá dentro – gente sábia e muito humana, sempre pronta ao risco, sempre pronta à aventura. Recorrendo aos retroativos da memória, o autor evoca toda uma galeria de personagens castiças que povoam o seu imaginário: o Viriato (nobre vagabundo), o Baitinhas, o Alforreca, o tio José Estácio, o Setenta, o tio Canela Fina, o Medeirinhos, a tia Maria Gata, o Déms, o António Carcereiro, o Pechita, o Raul Cabaça, o Manuel da Luísa, o mestre António Boga, entre outros. E traz à liça histórias de figuras incontornáveis como o dr. Freitas Pimentel, o dr. Silva Peixoto, o dr. Alberto Campos, o dr. Benarús, o dr. Decq Mota, os professores José Ramos, Raul Barata e Manuel Ávila Coelho (este último utilizava o pseudónimo Frei Pedro na “Gazetilha da Semana” do matutino “O Telégrafo”), Rogério Gonçalves, mestre Daniel Bettencourt, padre Júlio da Rosa, entre outros.
Escrito com clareza e elegância narrativa (…”o general De Gaulle, alto como um poste telefónico”…, pág. 135), Boias da Memória aí fica a merecer a nossa melhor consideração. Um livro que, captando um certo “espírito do lugar”, é bem o testemunho de dedicação e de amor à Horta, em particular, e à ilha do faial, em geral. São 301 páginas de bem carpinteiradas narrativas, envoltas em atmosferas afetivas e que resultam de memórias evocadas e de experiências humanas profundamente vividas e intimamente sentidas por Manuel Leal – um autor que revela capacidade descritiva e narrativa.
Temos escritor.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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