Natal menino
“A minha vida não tem idade; tem tempo.”
Vitorino Nemésio, in Eu, Comovido a Oeste
É véspera de Natal e estou tranquilamente sentado na banqueta de pedra da velha casa onde nasci. Pesa em mim o silêncio da manhã e paira no ar um vago aroma a sargaço.
O meu olhar surpreende a luminosidade suave desta vila graciosamente emoldurada pelo azul intenso do mar. E é tudo subitamente tão belo ante meus olhos enternecidos.
Saio e percorro a vila de uma ponta à outra. Revisito, assim, a geografia sentimental de ruas, becos e atalhos por onde feliz correu a minha infância. Reencontro-me com o paraíso irremediavelmente perdido dos meus verdes anos… E o coração não me cabe no peito de tanta emoção…
Sento-me num dos bancos da Praça de onde espraio o olhar. E, à sombra doce de uma araucária, recordo saborosas e inefáveis lembranças do meu (iniciático) despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas. Tempo de inquietações, alegrias e dúvidas, de sonhos e desejos, de partidas e chegadas, de separações e reencontros.
Não esqueço os primeiros amores intempestivos… As deliciosas brincadeiras proibidas… A Escola e as reguadas impiedosas do professor Louro… As missas do padre Genuíno, a cintilação do sacrário, a talha dourada do altar-mor, o pau preto da sacristia, as jarras de porcelana, os lustres de cristal… As intermináveis tardes de solfejo… Schmoll e o matraquear do velho piano…A cisterna de água fresca e límpida…As alegrias do cinema…. As minhas tias que me davam afectos, bolos e inesperados afagos… Os primeiros poemas e os vagos desejos de celebridade literária... Ambições enevoadas… Felicidades indefinidas…
Estou, assim, embrenhado em pensamentos, amolecido em recordações…
O Natal convida-me à pieguice… Não consigo esconder as belas e doces saudades que sinto do meu Natal menino…
Quanta melancolia! Nesse tempo o Natal fazia sentido e enchia a casa de alegria transbordante.
Desconhecíamos, então, a figura pagã do Pai Natal em trenó puxado por renas voadoras... O que havia era o Menino Jesus, fascinante, louro, papudo, rosado como um morango, sorrindo nas palhas do seu rústico berço.
O Menino Jesus era o centro das atenções, pois ingenuamente acreditávamos que era Ele que nos trazia as prendas e as colocava nos sapatinhos. Para isso escrevíamos bilhetinhos a pedir presentes e colocávamos os mesmos na mão direita da Sua imagem, que permanecia dentro do Oratório durante todo o ano. Só no Natal é que o Menino Jesus era de lá retirado e colocado em cima de um altarinho, sobre o qual havia trigo grelado, laranjas e camélias.
Naquele tempo o que imperava era o presépio como símbolo da festa da família. Começávamos a armá-lo com muita antecedência e a ele destinávamos uma área que ocupava praticamente metade da sala de estar das nossas humildes casas. A árvore de natal era coisa secundária e, em vez das fitas, das luzes e das bolas, ela era enfeitada com laranjas e tangerinas…
Havia o aconchego familiar da consoada, tão alegre e farta. E havia a Missa do Galo, uma verdadeira inquietação para as crianças, pois no fim da mesma era um tal correr para casa na doce expectativa das prendas – não mais que uma ou duas por cada filho, porque nesse tempo o Natal não era a especulação comercial em que hoje se tornou.
Comíamos figos passados, bebíamos licores e cantávamos loas ao Menino. E, à nossa maneira, éramos felizes.
Não sou caçador de saudades nem de saudosismos. Esses bons tempos não foram tempos bons – foram tempos impiedosos. Azar o meu que vivi os melhores anos da minha vida num país de misérias várias e repressões variadas – o salazarismo, a pobreza, o subdesenvolvimento, a intolerância, a emigração, a guerra. Aprendemos, contudo, a resistir. E, em plena adolescência, conheci finalmente a cor da liberdade, o sabor da democracia e o aroma da fraternidade.
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Quem me dera sacudir da minha alma estas recordações. Para quê sonhar o Natal se tudo não passa de sonhos sonhados?
Natal de quê? Natal de quem?
O Natal é uma mentira anual! O Natal é uma especulação de falsa paz empacotada!
E, no entanto, finjo que está tudo bem. Quero ser outra vez menino e acreditar nas bem aventuranças da paz na terra aos homens de boa vontade…
Amanhã é Natal e eu quero mesmo crer que os pássaros que oiço, nesta Praça, estão a cantar aleluias de justiça e de esperança.

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