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sábado, 6 de outubro de 2018

Do jornalista e redator principal do Record - RUI DIAS


O menino que joga em bicos de pés
Num desporto coletivo como o futebol, que implica a harmonização de cada uma das onze parcelas que compõem o todo, correr é o primeiro instinto, por norma em função da bola. O jogo, porém, encarrega-se de mostrar que esse apelo muscular só faz sentido respeitando duas orientações: quando e para onde, caso contrário instala-se o caos e, a partir daí, é quase impossível retomar o rumo. Raphinha revelou em Braga ter o disco rígido bem preenchido nessa rara gestão de tempo e espaço, porque uma das suas principais qualidades, que outros só revelam mais tarde, é a de saber esperar pela sua hora. Assente em talento deslumbrante, não confia só na inspiração; tem um reportório ilimitado mas não se diminui quando interpreta o jogo sem o apoio das musas. Aos 21 anos comporta-se com a maturidade das grandes estrelas e espera pela genialidade trabalhando como operário – menos um capítulo com o qual tem de preocupar-se na enciclopédia que precisa de aprender e assimilar.

Para Raphinha, travar tem o mesmo impacto de acelerar. O seu jogo é feito de pára-arranca e sucessivos ziguezagues em campo aberto, mas não é caracterizado pela vertigem da velocidade. Sendo rápido em todos os sentidos (a pensar, a deslocar-se, a conceber e a executar) é um bom exemplo do raciocínio que distingue futebolistas e atletas, nas palavras do argentino Angel Cappa, um dos grandes pensadores do futebol moderno: "O atleta quando chega acaba, o futebolista quando chega começa." Iniciando as ações a partir das faixas laterais, é um notável criador de desequilíbrios e um gerador constante de situações de apuro. Como esquerdino, as diagonais da direita para o meio, com a bola controlada, em tabelinhas na aproximação à zona de tiro, são diabólicas e constituem momentos de grande exaltação coletiva (em Braga teve remates que não passaram longe do alvo); na esquerda, porque nunca perde a lucidez, não se distrai e mantém o foco na ação, provoca estado de alerta máximo, porque o caminho em linha reta vai acumulando veneno para ser descarregado na chegada ao destino. 

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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