REPATRIADO
Nas ilhas, como no mundo, o Natal estava à porta. A manhã forrara-se de nevoeiro denso e mal se via um palmo à frente do nariz. Com o seu lenço ainda da côr do longo luto pela dor do ido marido a cobri-lha da cabeça aos pés, a Tia Chica Foneca tinha vindo de carro de praça até ao aeroporto esperar aquele sobrinho (“valha-o, Deus! Podia-se tar consolando n’América mas o juízo pendera-lhe para o torto”) deportado, dizia-se, por causa da excomungada da marijuana que o tinha levado à cadeia e agora retornado à Ilha donde partira aos nove meses de idade na companhia dos pais com destino à fabulosa América do Norte. Por mais do que uma vez, o chofer do táxi, à rasca da vista, fizera travagens repentinas para evitar que ainda fossem ambos parar ao hospital. Quase iam naquela fria manhã sem sol quando uma vaca, inquieta para matar a sede no chafariz da cancela, atravessou o caminho desorientada. Os travões abrandaram o susto ao condutor mas não à sua irritada cliente. “Que perigo, Senhor do Céu! Vai oivi-lhas a confiada da Peidôa.” Os nervos arrebitaram-se-lhes um pouco mais à flor da pele temendo poder o diabo tecê-las ali mesmo.“A senhora conhece a dona da vaca?” Novato na profissão e desconhecendo aquele outro lado da ilha, deixou a mulherzinha destravar a língua à vontade. “Não é bem dona da vaca, a desavergonhada da Maria Peidôa. É mais uma vaca sem dono. Engana o tolo do home p’ra se meter c’o trampa do vizinho às escondidas mas ninguém é cego. Metem-se os dois na cama, e o gado aproveita p’r’andar à solta. A culpa é toda dela e não da pobre alimária.” Ainda mal se tinham desenrascado daquela alhada quando, logo mais adiante, ao chegarem à ponte da Agualva, o chofer carrega o pé no travão. A Tia Chica fica vermelha que nem um tomate do sangue a subir-lhe á cabeça ao ver o burro do Jaquim Fona de Porca zurrando a bom zurrar pelo susto de ter sido quase atropelado. “Passa fora!” Esganiça a velhota zangada. “Não sabem tomar conta das suas bestas, não as tenham! Pobres bichos, sem culpa nenhuma. O meu Chico quando era vivo, a gente tinha gado e tínhamos também um cavalo, senhor, mas nunca acontecia nada disto. Agora, se uma pessoa não tiver c’os olhos bem abertos, num instante, vai parar ao hospital sem se sentir.” De momento, no entanto, e com nevoeiro assim cerrado, mais importante do que o hospital na outra ponta da ilha, impunha-se-lhes topar por ali o aeroporto antes que o avião aterrasse com a sua centena e meia de passageiros destinados a passarem o Natal na terra-berço. Traziam já o rabo assado do assento farto das múltiplas horas de vôo transatlântico e, mal sentiram o baque seco dos pneus derrapando em solo ilhéu, entoaram o seu grande alívio na habitual salva de palmas dirigida ao piloto pela magnífica aterragem. Todos… menos um. Embizoirado, no cabo de trás do aparelho com aquela sua cara de meia noite, um sujeito ainda jovem mas aparentando mais idade devido à barba por rapar e aos olhos sem dormir, não aplaudiu nem deixou de aplaudir. Estava ali, naquela nave aterrada na sua terra de nascença sem, ao contrário dos outros cento e tal felizardos, sentir alegria alguma. Os outros voltavam de passeio ou de visita, para verem a família e matarem as saudades. Ele regressava para ficar. Por isso, estava triste. E desanimado. Pela primeira vez, desde que saíra de Boston, se apercebera bem da desgraça que um dia lhe batera à porta lá nos confins da América. Aquela América que acolhera tão bem a sua família e lançara os irmãos na vida linda que levavam como senhores prezados a quem nada faltava, essa mesma América que dera fortuna aos seus… fora-lhe madrasta cruel empurrando-o para um canto como gente daquela que ninguém faz caso. Gente que estorva ou está a mais e é preciso deportar. Por sua má cabeça, aquela ilha tão pequenina, para ele totalmente desconhecida, era agora o seu destino, a sua prisão e castigo. Via-se vítima das caducas leis americanas que puniam os humilhados repatriados. Foi o último a sair do avião. Sabia que vinha destinado a casa da sua estranha Tia Chica, coitada, sem culpa alguma dos seus azares nesta vida que não perdoa a quem prevarica à toa. Dali saíra com a família quando ainda mal sabia engatinhar. Agora, regressava sem a família, já que atrás haviam ficado mulher e filhos agarrados aos restos das suas gringas raízes. Ansiosa, a tia Foneca aguardou pelo derradeiro passageiro. E não se conteve, coitadinha: “Ai, loivado seja Deus! És a cara chapada de teu pai.” Vivamente emocionado, e deixando escapar um sorriso há muito escondido, ele deixou-se apertar num forte abraço daquela sua costela do seu sangue a trazer-lhe ternas lembranças dos belos tempos em que fora ‘menino jesus’ adorado numa casa cheia de alegria e de filhos criados com a abundância do amor que o Menino tanto adora. Por breves instantes, esquecendo toda a bagagem negativa que um repatriado consigo carrega, respirou fundo e sentiu-se bem. Talvez a Ilha não fosse o que lhe haviam dado a entender algumas más línguas e fosse mesmo o espaço necessário para se reencontrar consigo e com as suas origens. No fundo, sabe-se lá se a Tia Chica não teria toda a razão quando, à saída do aeroporto, lhe arrematou assim a conversa: “A América pode ser muito linda, muito rica e com certeza tem muitas coisas que a gente aqui não pode ter mas, quero que saibas… não troco a minha terra por nada. Vais ver e depois hás de me dizer se a nossa ilha não é um autêntico presépio…”… O Natal estava à porta.

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