VOTO e’ TRUNFO
Faz agora quarenta anos que troquei os outubros frescos do atlântico por estes mornos cá do pacífico. Jimmy Carter presidia então aos destinos desta opulenta nação e as coisas, para pô-las em pratos limpos, não andavam lá muito famosas sob a sua morna liderança à frente desta superpotência mundial. Sagazmente infiltrados por esse mundo fora, os Estados Unidos não estavam habituados a verem a sua imperialista imagem humilhada ao redor do planeta. Quando os reféns americanos, de olhos vendados, foram publicamente enxovalhados pelo escárnio hostil dalguns iranianos nas ruas de Teerão, a patriótica moral deste todo poderoso país andava mesmo pelas ruas da amargura. E Ronald Reagan aproveitou-se. Astuto e bem falante, não teve problemas em desalojar o seu rival da Casa Branca ao derrotá-lo, sem apelo nem agravo, nas eleições presidenciais de 1980, por números contundentes. Eleicões, em democracia, servem para isso mesmo. Querem mudança? Votem.
O floreado discurso do antigo ator de Hollywood era deveras empolgante e a História prestar-lhe-á sempre homenagem pelas palavras de arrojo, junto ao velho Muro de Berlim – “Desafio-o, sr. Presidente Gorbachov, a destruir duma vez por todas, este feio Muro da Vergonha.” Não levou muito tempo para o reles muro ruir... – ... e o resto, como se costuma dizer, é história. A moral estava levantada e o orgulho nacional restabelecido nos States rendidos ao seu reeleito líder. Em política a doer, discursar bem não basta. No sigilo das urnas, com as decisões quentes em cima da mesa, o voto é que manda. Trata-se de um crucial dever cívico que não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar. Reagan nunca desperdiçou uma oportunidade para cumprir com as promessas que tinha feito ao seu fiel eleitorado. Tal como os seus sucessores não enjeitaram qualquer chance de levarem também por diante a partidária agenda que traziam em mente. É o que Trump tem feito, não perdendo um minuto em levar a sua avante, para desprazer de quem o detesta. Queremos mudar de rumo? Votemos.
Não resta alternativa. Longe de ser um sistema perfeito, por ora, a democracia é o melhor que há, apesar de demasiado traída por tantos políticos vendidos aos lóbis que os subornam a olhos vistos. Corruptos, deixam-se vender e fartam-se de mentir. E o povo, está farto das suas cantigas cheias de promessas vazias. Por isso, ignora as urnas – o que é pena. De facto, se concordamos que a política é suja e “os políticos são como as fraldas”, perfeitamente descartáveis, não temos remédio senão mudá-las quanto mais depressa melhor. Como? Votando.
Claro que nenhum voto é garantia de mudança certa. Mas dá-nos essa legítima esperança de lá podermos chegar juntando-o aos votos dos outros. Abstermo-nos, por tolice ou teimosia, é um erro que nos pode custar caro. Deixarmo-nos esmorecer pelo “votar para quê?” e cedermos ao desleixo do “tanto faz” é o pior exemplo que podemos dar aos nossos filhos. Nesta crítica era de desconfiança e descrença em quem nos governa, cabe-nos incutir-lhes a noção clara de que a nossa vida tem de se alicerçar em luta firme e não conversa fiada. Há cada vez mais a mania, hoje em dia, de se ir para as redes sociais perder tempo precioso em estéreis discussões de nociva energia negativa que tudo inflama e nada muda. Queremos mesmo tentar mudar, a sério, o curso de políticas ou políticos que nos desagradam? Votemos e façamos também com que votem aqueles nossos amigos que gostam de ficar em casa nesse dia.
É já amanhã, 6 de novembro. Não se trata, desta vez, de votar no cobiçado poleiro da Casa Branca que tanta tinta negra tem esguichado por aí no decorrer dos últimos dois anos. De foro mais local ou impacto estadual, estas são eleiçoes que não se revestem de menos importância para os nossos comuns interesses. É claro que tanta da nossa boa gente, ao olhar descrente para a fronha hipócrita de quem tão descaradamente nos mente, não resiste em interpelar-se – pagará a pena votar? Desculpas não faltam para dizermos que não. Cabe-nos, todavia, convencermo-nos de que sim – o voto é um trunfo valioso ao nosso dispor neste renhido jogo da vida à espera do nosso franco contributo na escolha de quem melhor nos serve. O pior serviço que podemos prestar uns aos outros é ficarmos indecisos a ver a banda passar. As pessoas que não nos caem bem ou as coisas que nos cheiram mal, em política, não se mudam por si.
Queremos tentar mudá-las? Votemos de consciência limpa contra a sujeira que nos trama.

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