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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 16 de dezembro de 2018

JOSÉ HENRIQUE ÁLAMO DE OLIVEIRA



Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite

Vamberto Freitas

Acaba se ser publicada a 2ª edição do romance Pátio D’Alfândega meia noite de Álamo Oliveira, pela Companhia das Ilhas, sobre a direcção de Carlos Alberto Machado, romance que tinha sido publicado em Lisboa pela editora Vega em 1992. A prosa deste autor açoriano oferece-nos grande brilhantismo ficcional e um certo historicismo, ora revisitado ora reinventado, de todo apto a refazer e a redizer “realidades” velhas de séculos. Desde há algum tempo está de volta em Portugal o romance dito de ideias, se é que alguma vez ele possa desaparecer. Toda a literatura, em graus variáveis, já se sabe, é esse interminável jogo entre


                                                    
facto e ficção. É também na habilidade artística de cada escritor que reside a diferença entre a escrita que perdura no tempo e a que não deveria nunca sequer ser lida – a diferença, nada menos, entre o saber mitificar a memória histórica e colectiva de um povo, criando o próprio escritor novos mitos e iniciando miticidades, assim como o mero estilismo na construção de frases antes ocas, frias e naturalmente vazias. Cada leitor terá a sua lista de livros a que nunca mais voltará, sabendo muito bem porquê. Este, estou em crer, não será um deles. Existe algo mais em Pátio D’Alfândega meia noite, e que, em ficções anteriores deste mesmo autor, havia sido só sugerido – a metaficção como tema inteiramente desenvolvido, e aqui servindo-se a várias vozes para se refazer ou, uma vez mais, redizer o passado, longínquo ou mais recente. Jericó é Angra do Heroísmo, todos saberão. No entanto, tudo o resto, contado e recontado pelos protagonistas Patachão e o Poeta Porreirinho, este que deixou um romance inédito e o outro que tenta interpretá-lo e editá-lo após a morte do seu amigo, é uma festa de história revisionista, de sismos e de ciúmes, de aristocratas e de plebeus, de xenofobia e de universalismo, de fantoches e fantasmas, de céus, de infernos e do pátio D’Alfândega – o lugar onde uma cidade e uma certa população se passeava e se dava conta, séculos fora, que no além existia um mundo e (insinua agora o escritor) a ilha que era e é apenas outro canto desse universo total.
Um livro saído de qualquer escritor com obra feita deve ser – devia ser sempre – um marco nesse original percurso artístico, e este, por certo, vai gozar desse estatuto. Todo este romance está estruturado à volta de um crime e da reconstrução de Jericó após um violento sismo. O romance dentro deste romance, o que foi deixado pelo Poeta Porreirinho, é aparentemente uma tentativa de se recontar como toda uma cidade, na fúria que é a sobrevivência de um povo ante violentos avisos da natureza atlântica e a genética ganância de quem em tudo manda e desmanda, se auto-convence da sua virtude e percebe a sua continuidade histórica. Das páginas legadas por esse autor desaparecido e das que o seu amigo vem tentando pôr em ordem para uma publicação, que nunca chega a acontecer, a realidade-realidade é apreendida só em pedaços desconexos e a-históricos enquanto suas excelências sabem muito bem que a realidade ficcional é a mais completa – e logo perigosa. Nestes múltiplos diálogos está a dissecação das tramas, obsessões e memória colectiva da dita comunidade. Um fantasma estrangeiro (um holandês que àqueles portos arribou como náufrago e que se apaixonaria pela cidade e por uma das suas freiras) desce à terra para com o Poeta Porreirinho ir comparando notas com o passado e presente. O resto, repita-se, é uma festa de humor, sarcasmo e das mais lapidares frases.
“Ele vi-a – diz o narrador acerca de Patachão, o protagonista que tenta desvendar o romance do Poeta Porreirinho, e neste caso específico, a mãe deste, que também figurava na prosa póstuma do seu amigo – como que emergindo em todos os tempos, heroína anti-convencional e resplandecente, desdenhando dos castelhanos nos fins dos séculos XVI, debochando, no século seguinte, com um pirata na rua Baixinha, comendo favas de molho d’unha, rifando numa tasca de Santo Espírito a sorte numa noite bem passada, enquanto um liberal se cura de sífilis na Misericórdia do hospital. Ela veio desses tempos esquisitos e mal sabidos vencendo todas as batalhas da vida, até que desaguou no banco verde do Pátio D’Alfândega, velha, gorda e suja, dormitando pachorrenta ao som da música do seu transistor. Sujidade, gordura e velhice é tudo quanto basta para ser pitoresco. Como glória última, lutou pela liberdade com valentia aristocrática, dando ao diabo a virgindade com um major sidonista. Tão afrontoso desfecho não ficaria impune numa cidade de igrejas e de casas senhoriais.”
A rebeldia feminina açoriana poderá acontecer – e acontece – de vários modos, mas tem sido na ficção que esse libertador acto se vem enquadrando em toda a história social muito mais viva do que geralmente temos consciência – desde Vitorino Nemésio e Mada lena Férin a Álamo Oliveira. Aliás, este vivo diálogo com a história, que é essencialmente Pátio D’Alfândega meia noite, vai ainda além disso e constantemente alude a outras figuras culturais nossas, a partir de Gaspar Frutuoso do século XVI às gerações dos nossos tempos. Romance também alegórico, interliga dias, semanas, meses, anos e séculos para nos brindar com o “facto” de que tudo e todos permanecem o mesmo, a história de Jericó simultaneamente uma de pasmaceira e vivacidade, de ladrões e de santos. Por outras palavras, a humanidade em toda a sua simplicidade e complexidade, vista por mais este contributo a um riquíssimo corpo literário português que se chama literatura açoriana.
Desta circularidade e desejo de fuga, características tão marcantes da escrita açoriana, o espírito do lugar é como que outra viva voz deste romance, tornando-o (o próprio lugar) protagonista, terra, mar e céu determinando comportamentos e pensamentos, também. Açorianidade e, ao mesmo tempo, historicismo e mítica lusitana. O homem das ilhas, enfim, ocupando inteiramente o seu espaço num universo que ele sabe estar longe, mas que é seu.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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