Natal dos pobres
Este ano a prenda de natal para a nossa Região Autónoma chegou mais cedo e sem papel de oferta: segundo estudo do INE, os Açores são a região do país com maior risco de pobreza, com uma taxa de 31,5%, quando a média do país é de 17,1%, com tendência para baixar.
É uma taxa que nos deixa aterrorizados, porque representa um conjunto significativo de famílias açorianas que vão ter um natal mais pobre, à semelhança da rotina diária das suas vidas.
Ignorar isto, é ignorar o natal.
Escrevemos aqui em 2012 – já lá vão meia dúzia de natais – que eram notórios os sinais, na nossa sociedade, ainda que disfarçados, de que havia muitas famílias que estavam a esconder as dificuldades do seu dia dia, a começar pelas inúmeras crianças que se queixavam nas escolas de não terem mais do que uma refeição por dia em casa.
Sabe-se agora que andam à volta dos 60% os alunos que recorrem à acção social escolar e que cerca de 8% da população vive do Rendimento Social de Inserção.
Já na altura se dizia que um quarto da população açoriana vivia em risco ou abaixo do limiar da pobreza.
Não é atirando dinheiro para cima do fenómeno que se resolve esta triste situação.
Se assim fosse, o Plano do Governo Regional daquele célebre ano de 2012, que incluía uma verba de 11 milhões de euros para um Fundo de Compensação Social, anunciado com tanta pompa, ajudava a resolver o problema.
O problema não só se manteve, como agora atinge mais famílias, se avaliarmos pelo RSI e pelo número de crianças a recorrer às ajudas nas escolas.
A Igreja açoriana parecia querer envolver-se na denúncia e no combate ao flagelo açoriano , tendo o Bispo dos Açores manifestado então a sua preocupação com o “aumento da pobreza”, “particularmente nos jovens, crianças e idosos”.
É uma preocupação que é manifestada em todas as quadras de natal, como acontece novamente este ano, mas ao longo do ano pouco se ouve a voz e os braços da diocese junto dos mais necessitados.
É a sina de toda uma sociedade, obcecada no consumismo e no egoísmo social, deixando os pobres entregues à sorte dos políticos.
Os milhões que enterramos nestes últimos anos nas empresas públicas açorianas, com gestões ruinosas e irresponsáveis, davam para construir dezenas de escolas, porque a Educação é um dos maiores instrumentos de combate à pobreza, e mais hospitais que respondessem à brutalidade de listas de espera e de doentes por estas ilhas fora, sem possibilidades de terem acesso aos cuidados mínimos, exactamente porque são pobres.
Há pouco tempo a Pordata, um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, revelou que nas ilhas há menos poder de compra, o abandono escolar é mais precoce, a distribuição da população pelo território é desigual e em algumas ilhas nem sequer há um hospital, para concluir que é aqui que temos mais gente pobre.
Para a directora da Pordata, Maria João Valente Rosa, “a educação e a pobreza andam, de algum modo, de mãos dadas” – sobretudo quando os números indicam que, nos Açores, um em cada quatro jovens dos 18 aos 24 anos (27,8%) já não está a estudar e não tem o ensino secundário completo.
“A maioria da população das ilhas com 15 ou mais anos, e à semelhança do que acontece do continente, não tem mais do que o 9.º ano de escolaridade. Na Madeira, são 65%. Nos Açores, são sete em cada dez. A média nacional está nos 61%”, revela o estudo.
É um quadro desolador para uma região com mais de 40 anos de governo próprio.
Quatro décadas depois, este natal não é de sucesso para milhares de famílias açorianas.
E não devia ser, também, para muitos responsáveis desta região, que pouco ou nada fizeram para minorar este problema.
Apesar de tudo, boas festas em família.
(Diário dos Açores de 24/12/2018)

Sem comentários:
Enviar um comentário