JORNALISMO EM DESTAQUE

485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Da Califórnia de JOÃO BENDITO


A TRADIÇÃO DOS MEALHEIROS

Era uma rotina que, tanto eu como os meus irmãos, cumpríamos com boa vontade. Num dos últimos dias de cada mês era altura de preencher os impressos e ir fazer os depósitos à Caixa Económica de Angra, instituição bancária das mais antigas da cidade (senão a mais antiga) que ainda mantem a sua sede na Rua da Sé.
O montante de cada depósito era quase simbólico, o Pai havia estipulado a quantia de um Escudo por dia para cada filho. Munidos das cinco cadernetas e com os 150 escudos bem acomodados na algibeira, lá ia todo senhor do meu papel em direção à Caixa. Na altura, o balcão de atendimento ao público era no segundo andar e era alto. Para uma criança de nove ou dez anos como eu, era um cabo de trabalhos para conseguir ver a cara do senhor Moniz ou do senhor Porto que, atenciosamente, me recebiam. Gostava de ouvir o matracar dos carimbos nas cadernetas mas gostava mais ainda era do sentimento do dever cumprido e de saber que estava mais rico, “Este dinheiro é para vocês quando forem grandes”, avisava–nos o Pai.
Era uma maneira de nos ensinar a poupar, de nos fazer acreditar que, guardando um pouco cada dia, poderíamos vir a ter uma quantia apreciável mais tarde. E que jeito que aquela poupança nos deu, a mim e aos meus irmãos, foi um bem precioso para o começo das nossas vidas de adultos.
Outro dia perguntava-me um amigo de infância o que é que ia oferecer pelo Natal às minhas filhas e aos meus netos. Ele já sabia a resposta mas faz-me a pergunta todos os anos só para ver se eu já desisti do meu propósito. “Outra vez mealheiros??? Elas ainda te dão com os mealheiros na cabeça!” A estória é simples e conta-se depressa...
Quando as minhas filhas estavam em idade de já poderem entender razoavelmente a minha intenção, eu pensei que devia também tentar ensinar-lhes um pouco daquilo que havia aprendido com o meu Pai. Como a mãe sempre lhes dava uns dinheirinhos pelo Natal ou pelo aniversário, eu comecei a comprar um mealheiro para cada uma. E assim começou a tradição que ainda não interrompi embora elas já estejam entradas na casa dos trinta. Agora continuo a procurar diferentes mealheiros não só para elas mas também para os nossos netos. Só na época natalícia tenho que aparecer com quatro! Às vezes é uma inquietação para tentar encontrar apropriados a cada um deles e também porque não quero correr o risco de comprar repetidos. Procuro-os em lojas de antiguidades, em garage-sales, em lojas de brinquedos, ando sempre com o olho afitado a percorrer prateleiras. Diz a minha “patroa” que já é tempo de parar com a brincadeira, já está a passar de graça, “Elas já estão fartas de mealheiros, já não sabem onde arrumá-los”. Mas eu argumento que não é verdade, como no ano em que, de propósito, me atrasei na entrega e ouvi da parte delas um coro de protestos, “Hey, pai, Where’s our piggy-banks?”
Não foi pelo facto de eu ter começado com esta tradição que as minhas filhas aprenderam as regras básicas de poupança mas pelo menos criei algo que fará com que elas e os seus filhos, no futuro, se possam lembrar de mim, do mesmo modo que eu recordo com nostalgia as cadernetas da Caixa e os trinta Escudos que ia depositar em cada uma delas.
A não ser que o meu amigo tenha razão e elas um dia resolvam atirar-me com os mealheiros à cabeça!
Dezembro 24, 2012
(Esta crónica foi escrita faz hoje 6 anos. Já uma diferença a assinalar: agora tenho que comprar cinco mealheiros em vez de quatro, já que agora temos a presença da neta mais nova, Olívia, na nossa família.
É possível que alguns de vocês já tenham lido este texto, talvez já o publiquei aqui mais do que uma vez. Mas aqui está de novo, como que a servir de postal de BOAS FESTAS para familiares e amigos. Felizmente inimigos não tenho...)
Dezembro, 24, 2018
João Bendito

Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

Sem comentários:

Enviar um comentário