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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

As "fialhadas" do FRANCISCO FIALHO


Há poucos dias, passeando no Páteo da Alfandega,centro de Angra do Heroísmo, cidade Património Mundial, fui inesperadamente confontado com o facto do Vasco da Gama desconhecer o´´ DIA DE SÃO VAPOR´´. Prometi-lhe uma explicação pública, porque o seu passado de coragem abriu caminhos ao mundo, por mares nunca dantes navegados, que aprendi numa História que devemos conhecer e honrar, ao menos não a omitindo...
Nas décadas de cinquenta e sessenta, do século passado, o "DIA DE SÃO VAPOR" era um acontecimento electrizante. Uma coisa de "mandar peso". Logo pela manhã, uma descida até ao Páteo de Alfândega, para ver no meio da Baía, os paquetes Lima (até 1968), Carvalho Araújo (até 1973). Mais recentes, o Funchal que começou no final de 1961. Finalmente o Angra do Heroismo, entre 1966 e 1973.
Lá andavam as lanchas entre o vapor e o cais da Alfândega, transportando quem chegava: população local e caixeiros viajantes, com os seus mostruários cheios dos últimos gritos da moda, em roupas e tecidos há muito ultrapassados, mas que a gente das ilhas "engole" que nem patinhos!...
Entretanto no Páteo da Alfândega, a esplanada do Café Atlântico já estava pronta para um dia de especial movimento, com as suas mesas e cadeiras de palhinha. No
interior do Café Atlântico os Senhores Telmo e Daniel preparavam-se para ficar com os bofes de fora... E ainda tinham de controlar as mesas de bilhar, sempre concorridas e o reservado, onde os adultos jogavam à batota!..
No mesmo prédio ficava a Pensão Lisboa que de mãos em mãos se tornou há muitos anos num espaço morto, talvez à espera que saia o Euromilhões... Um desperdicio até que outros valores mais altos se alevantem...
Mas o certo é que o Dia de São Vapor começava a aumentar de movimento com o cair da noite. A esplanada já está cheia.
Sai um martini, mais um vermute, um copo de rosé, uma cerveja para mim e uma "beer" para meu primo que veio passar férias da Califórnia e me trouxe umas calças de "gangrim", novinhas em folha. Nas banquetas mais afastadas do Páteo da Alfândega começam a ver-se acasalamentos, sobretudo de machos?!.... Os mistos são raros. Mas porque será? Para mim sempre pensei que a brisa maritima devia ser mais favoravel aos machos. Não é que passados uns anos, um antigo colega do Liceu que arranjou "monim" para ir estudar para fora (Lisboa,Porto e mais vezes Coimbra) me disse que tinha um mestrado em filosofia e um doutoramento em sociologia e que analisara o fenómeno das banquetas do Páteo da Alfândega, numa tese de exame, por sinal pontuada pelo máximo, e concluira que o acasalamento dos machos tinha a ver com os genes e com o carácter intriseco da 
psicologia da batata doce?!... Fiquei completamente esclarecido e estarrecido....
Mas vamos ao embarque que o vapor já apitou. Grandes cenas. Grande filmes. As familias mais abonadas vão dar um passeio. Os caixeiros viajantes regressam com a banha da cobra toda vendida. Estudantes abraçam e beijam namoradas/os com juras de amor eterno e lágrimas de crocodilo..... Não há amor como o primeiro nem vinho como o de cheiro, atira o "Nicks", sempre atento e habituado a estas cenas. A lancha arranca e os lenços acenam na última despedida. Em terra, olhar fixo no barco até que a âncora recolha e o lento flutuar do Lima provoque os sentimentos de alegria ou tristeza, conforme a hora e o lugar onde eventualmente nos estejam a ler e a sua imaginaçao quiser. Até à próxima
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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