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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

As "fialhadas" do FRANCISCO FIALHO


O ultimo texto sobre o Dia de São Vapor provocou uma dúvida em gente de gerações mais novas. E então os aviões?.
Não havia nada para ninguém... Só em 1971 a Tap começa a voar para a Terceira e para a outra ilha, a maior de todas, dos Açores e arredores...Se era São Miguel? Tal e qual. Então a capital alguma vez ficou para traz? Olha que ainda hoje ouço e leio "capital". E depois o bairrista sou eu!...
Vamos mas é aproveitar a oportunidade que os bilhetes para viajar no vapor das "Ilhas Adjacentes" se compravam na E.I.N. (Empresa Insulana de Navegação), na Praça Velha, no 1º andar do edificio onde existiram a loja dos Barateiros (roupa), e ao lado a sapataria dos Barateiros, tudo da mesma familia. Na porta da rua da E.I.N. eram afixadas as informações sobre os horários dos barcos. No dito 1º andar pontificava o "patrão Rocha Lopes" e o Álvaro, empregado que sabia de tudo e mais alguma coisa...
Continuando nos barcos, lembrei-me agora do paquete Funchal, recentemente comprado por ingleses, em leilão, por tuta e meia. Mas os anos que o barco esteve em Lisboa, encostado ao cais da Matinha (próximo do Parque das Nações), ao abandono, pouco se deve aproveitar...
Pois o Funchal podia ser visitado. Era só ir à P.I.D.E. (Policia
Internacional da Defesa do Estado) - tudo boa gente - nunca os vi matar uma mosca.!... E ainda há quem os critique porque fizeram isto e aquilo.... Más linguas.... Sim, porque nessa altura a lingua devia estar bem guardada, não fosse o diabo tecê-las....Começo a escrever e perco-me em memórias... Dizia eu que se ia à PIDE, onde nos davam uns passes que autorizavam a entrada a bordo do Funchal . Tomada a lancha, em poucos minutos estavamos a subir a escada do Funchal. E o que tinha para ver no Funchal ?Tripulantes do navio, aos empurrões uns aos outros, nos corredores, a mostrar relógios suiços CAUNY(grandes máquinas), fios de ouro e grandes tabletes, eu diria barras, de chocolates. Tudo bom e barato, que a tripulação comprava nas Canárias para vender aos açorianos... Contrabando ? Nada disso. Estàvamos autorizados por uma autoridade suspeita de ser insuspeita!...
Do Funchal ainda tenho a recordação de por 2 ou 3 vezes ter ido a bordo, contratado pelo Joãozinho Borba, da loja de ferragens Tomaz de Borba da rua de São João, mas na qualidade de patrão de agência de viagens, para trazer dois 
ou três turistas suiços, a quem fui mostrar a Ilha, de taxi, com paragem para almoço. O Joãozinho dava-me uns trocos e os turistas uma gorgeta, Tudo somado, não era nada mau. Como tudo isto aconteceu é que não sei bem. Dizia umas coisas em francês e o resto lá vinha ao sabor de mais argolada, menos argolada. Uma espècie de turismo amador...
Como já vai longa e fastidiosa a minha divagação. Desculpem os meus amigos que eu vou passar-me para o lado do Porto das Pipas.
Porto das Pipas, mais pequeno que o actual, em função do aumento feito mais tarde. Lá encostavam O Santo Amaro, Terra Alta, Espirito Santo, Espalamaca e o Ponta Delgada, autêntica urbana das ilhas de baixo ou do oeste, que apesar de quem se queixasse que baloiçava muito, grandes serviços prestou a populações esquecidas e carecidas. Acho que ainda hoje está por fazer justiça ao navio Ponta Delgada e suas tripulações. Ia tambem ao grupo oriental.
Os primeiros quatro barcos eram em madeira, transportavam pessoas e cestas de fruta do Pico e queijo de São Jorge, entre muitas outras ofertas e permutas de géneros e não só, de tudo o que é possível e imaginário, feitas entre familiares e amigos , desde a Terceira até ao Faial, com a Graciosa ficando quase sempre para traz.... É o costume, não é minha prima ?Já estamos acostumados?!...
Na radio anunciava-se que o barco estava para as ilhas do oeste. Em São Miguel anunciava-se que as Ilhas de Baixo tinham umas caranguejolas que andavam no mar... Aquela velha mania das grandezas!...
Muitas poucas vezes andei nesses barcos, mas sei bem de perto das viagens loucas, com mar bravo, em que o barco subia e descia as ondas, os "baldões" eram mais que muitos, 
das tripas saia tudo. Os vómitos e enjôos sucediam-se.
Aventuras que devem merecer o respeito de todos nós. Quem precisava desses barcos e as tripulações viviam do que havia.
E era tão pouco.....e mau.
De barcos, resta-me falar das traineiras que no verão vinham para a safra do atum, albacora e sobretudo bonito, para a fábrica de Virgikio Lory, que mais tarde passou a Tercon e hoje é não sei o quê...
A maior parte das tripulações e alguns barcos chegavam da Ilha da Madeira, sobretudo do Machico. Faziam-se grandes pescarias, despejadas em cima do cais e transportadas para a fàbrica. Como o meu pai era guarda fiscal e fazia muitos serviços no Porto das Pipas, aquilo para mim era lugar que 
frequentava muito.Conhecia muitos "madeiras" (era assim que se apelidavam os pescadores madeirenses..). Estou a ver
como se fosse hoje um grande panelão de ferro a fumegar dentro da traineira, onde se cozinhava o jantar de farinha com carne de cagarro ou outras aves?!... Admirados? Tal e qual o que vos conto. Chegaram a convidar-me para a refeição, mas sinceramente nunca tive coragem de provar...
Não posso deixar o Porto das Pipas sem falar de mais dois temas. Primeiro, foi ali que tomei muitos banhos de mar, no verão. Era o local mais perto de casa (Travessa das Hortas).
Quem não conhecer, noutra oportunidade explicarei.... Chegado ao varadouro, subia a uma traineira que me servia de balneário e onde vestia os calções. Depois, água com ele.
Por vezes, no meio da água lá surgia um sinal de gásoleo ou um cheirinho a combustivel. Nada de especial garanto eu, embora não se fizesses as análises dos tempos actuais . Bons tempos que recentemente recordei com uma amiga de infância que partilhava a mesma "zona balnear".... e que devido à brisa do Porto das Pipas, voou e bem, para outras paragens onde ainda hoje se mantem. Lugar longiquo, onde o cheiro do musgo e da ressalga ela ainda hoje consegue sentir. É nem lapa agarrada à pedra...
Para finalizar, que se atire o foguete e saia o primeiro toiro das muito concorridas toiradas do Porto das Pipas. Varadoudo e mar cheios de barcos enfeitados. Dos mais pequenos aos maiores, todos estavam em festa, com comidas e bebidas levadas quase sempre de casa, porque as tascas, na época, eram muito poucas. A encosta do Castelinho enchia-se de gente. Hoje fazem-se imitações de toiradas à corda no Porto das Pipas, mas desculpem que vos diga: "Naquele tempo era outra coisa, bem melhor.
Até à próxima.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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