MERECEMOS MELHOR
“Mete nojo!” O desabafo saíu assim, meio azedo, da boca de um dos bons treinadores portugueses a trabalhar presentemente em Inglaterra. Quando questionado, ainda não há muito tempo, sobre o crispado clima de polémicas tensões criadas à volta do futebol nacional, Carlos Carvalhal não hesitou em manifestar o seu pronto desagrado sobre o sujo jogo jogado em Portugal fora das quatro linhas.
E eu não podia estar mais de acordo com o termo usado pelo ‘Mister’. Tem carradas de razão. Em campo, para o pequenino país que agora somos, até quase fazemos milagres na briosa prática do fantástico desporto sem rival no nosso planeta. Ou não fôssemos mesmo os correntes campeões europeus a nível de seleções. Não é pouca porcaria. Fora dos relvados, porém, é que a porca torce o rabo. Fazemos uma figura muito triste. Claro que me estou a referir àqueles agentes, dirigentes, presidentes, empresários, comentadores e todos os cegos fanáticos sem cura para a sua extrema clubite aguda. Estão a estragar o que de melhor descreve o nosso formidável desporto rei.
Não queria escrever este texto. Com o avançar da idade, fui perdendo a pachorra para aturar parvoíces futebolísticas de mau gosto mas o que aconteceu recentemente na famosa Academia de Alcochete – pérola preciosa do Sporting Clube de Portugal – trincou-me o nervo de tal forma que acedi hoje cronicar um pouco sobre essas nossas patéticas ‘futebolices’. E prometo nem tocar nas suspeitas de corrupção, nos insultos, calúnias, aldrabices e demais palermices que tem vindo a denegrir a boa imagem da modalidade no nosso país. Não haveria espaço aqui e agora. De momento, importa-me, acima de tudo erguer mais uma voz contra a vergonhosa violência no desporto, absolutamente condenável numa sociedade que se supõe civilizada. As agressões de que foram vítimas o treinador e jogadores leoninos, mais do que nojo, metem-me raiva.
O nosso velhinho Portugal, outrora império superpovoado pelos quatro cantos do mundo, não vai hoje além dos onze milhões de habitantes. Um vastíssimo número deles, no entanto, bem como tantos dos outros lusos filhos espalhados pela diáspora, consomem o seu futebol em doses alarmantes. Não é ópio mas, às vezes, parece. Os chamados “três grandes” clubes nacionais chamam a si a esmagadora maioria dos adeptos que não se contentam só em ver ou seguir os jogos ao fim de semana. Nos outros dias, lá vem os vários programas televisivos levantar a febre e inflamar as paixões clubísticas muitas vezes com gritante falta de respeito pelos factos interpretados consoante a cor que o emblema pede.
Ninguém me pediu para ser adepto do Benfica. Sou-o desde sempre. Não tenho também culpa de se tratar do maior e mais vitorioso clube português. Isso causa muita dor de cotovelo nos rivais. No caso dos leões, até se percebe a profunda mágoa por não se sagrarem campeões há quase duas décadas. Daí, todavia, a acharem-se no direito de culparem as águias pelo seu malogrado insucesso, é que é uma perfeita patetice. O futebol tem destes paradigmas. Fascina multidões ao mesmo tempo que fulmina corações.
O orgulhoso coração leonino foi fortemente ferido no final da época ora finda. A temporada começou com a equipa a prometer mundos e fundos e acabou com ela completamente de rastos. Foi desaire atrás de desaire e a humilhante derrota na Final da Taça de Portugal ante um ‘team’ de limitados recursos – um clube duma vila, que quase descia de divisão – fez o orgulho leonino bater feio no fundo. Lágrimas de frustração verde viram-se correr no Jamor. O drama do Sporting (largamente favorito em levantar o troféu) não podia ter acabado pior. A única desculpa que a equipa tem é a de que, quatro dias antes, tinha sido aterrorizada pelos seus próprios adeptos mais fanáticos. “Foi um autêntico filme de terror”, desabafou ainda visivelmente chocado o treinador perdedor, J. Jesus. No momento, confesso que tive dó dele. Ninguém merece ser espancado por treinar ou jogar futebol.
A violência – que nada resolve no mundo – não devia ter lugar no mundo da bola. Mas tem e é pena. Custa-me ver, no Portugal desportivo de hoje, os abusos intoleráveis da violência verbal disparada à toa pelos tais “três grandes” através dos seus supostos diretores de comunicação social pagos apenas para agredirem verbalmente os rivais, mesmo sem razão para tal. Claro que é uma estratégia nojenta. E depois admiram-se disto dar no que deu? Eu admiro-me muito que ainda não tenha dado em pior. Querer-se ganhar a qualquer custo, contra tudo e todos, é um risco que se corre com um preço bastante elevado. Quando as coisas não batem certo... o resultado está à vista.
Francamente, não o vejo com bons olhos. O rumo atual do nosso futebol profissional a nível de clubes cheira-me a mofo e não escondo que me mete nojo todo esse tipo de jogo sujo com paleio envenenado sem respeito algum de parte a parte. Mete-me raiva o clima podre que cria e só falta pedir à justiça civil/desportiva que meta nos eixos quem prevarica, metendo na cadeia quem o merece. Como povo de brandos costumes e mansos valores, merecemos melhor.

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