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domingo, 13 de janeiro de 2019

Do jornalista e redator principal do jornal Record RUI DIAS


O genial Modric

É o expoente máximo de uma determinada forma de jogar futebol, que nos tem fugido entre os dedos das mãos; um talento fora de moda, que resiste às novas tendências e luta pela sobrevivência com convicção inabalável. Porque a quantidade se sobrepôs à qualidade e o coletivo se tornou mais importante do que o individual, Luka Modric reciclou em parte o futebol que lhe corre nas veias: como todos os craques entende o jogo como fonte de engano e, em vez de usar a arte em benefício próprio, tem procurado elevá-la à condição global. Não se trata de fazer um ou dois truques com a bola, encantar plateias e transformar-se no herói da comunidade; serve o estilo para colocar o talento e a mentira ao serviço de uma ideia e da comunidade mais ampla que é a equipa. 


Quando pega na bola, Modric sabe que todos os companheiros estão disponíveis para alinharem nas suas invenções; que todos o consideram um génio e estão dispostos a participar com uma passe para ele fabricar os sucessivos milagres que vai inventando. E precisa, claro, da cumplicidade com o treinador e de contribuir para a criação do manual que rege os mandamentos da equipa.


A Croácia, que tem várias estrelas, é uma equipa notável. Ao contrário de Ronaldo, Messi, Neymar ou Salah, Modric não se contenta em somar ao coletivo – e estes craques somam muitíssimo. Luka só se realiza a multiplicar o talento, melhorando, só por presença, a qualidade dos outros; em depurar a ação ao ponto de todos acreditarem na mentira que está a contar; em potenciar entre os companheiros a força de mensagens equivocadas sugeridas aos adversários: circular como se fosse burocracia, sabendo que, no momento certo, haverá o passe de rotura; arrefecer a manobra perspetivando o momento de aquecê-lo; jogar pela esquerda com a convicção de que o golpe surgirá pela direita; tocar a bola dezenas de vezes até ao passe ou do tiro fatal.

Modric pensa o futebol com a bola nos pés, por norma virado para a baliza e seguro de que atacar só faz sentido com a participação de muita gente. Quando está em condução todos devem estar conscientes de que não perderá muito tempo; de que a viagem será rápida e o destino da bola será um local do campo com pouca gente, porque essa é a sua especialidade: os lugares vazios. Já o mostrou no Rússia’2018: é tão grande, mas tão grande, que quando brilha a frase solta-se com deslumbramento: "Que bem joga a Croácia."
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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