NUM MAIO D’OUTRORA
Maio de 1966 foi um mês marcante nos meus sonhos de menino e moço. Sorria-me a linda idade dos dez. A primavera acariciava a Ilha verdejante e os meus pitorescos Biscoitos já sentiam o consolo atmosférico do tempo a amornar. O sol saía mais amiúde e a miudagem agradecia o jeito que nos dava enfiar o calção curto a caminho da escola primária. Faltava-me pouco mais de um mês para o exame da quarta classe. Bom aluno que era, estava confiante em passá-lo sem grande dificuldade. A questão que se me punha era a de como continuar a estudar.
Naquele tempo, a minha freguesia-berço celebrava maio com acrescido fulgor religioso. A noite do dia doze para o dia treze via centenas de biscoitenses de todas as idades aglomerarem-se junto à Igreja Nova para rumarem em procissão de velas até à Santinha da Rua Longa – uma diminuta réplica da conhecida imagem de Nossa Senhora de Fátima encravada num outeiro erguendo-se ao lado direito da estrada corrente que subia para o Biscoito Bravo a caminho das Quatro Ribeiras. Esta particular devoção à Virgem fora reavivada pelo dinamismo pastoral do recém apontado pároco, Manuel Raimundo Correia, novel sacerdote faialense que deixou gratas recordações no norte da Ilha Terceira.
O saudoso Padre Raimundo era um fantástico ser humano com qualidades elogiadas e talentos reconhecidos. Dotado de um ótimo dom de palavra, primava pela sua forma cordial de lidar com o povo que o acolheu logo de braços abertos devido à sua enorme simpatia e formidável espírito de iniciativa. Gostava de contentar toda a gente mas não receava desabafar em voz bem alta nos seus sermões dominicais aquilo que fosse preciso. Essa sua franca forma de comunicar incomodava alguns graúdos mas cativava-nos, os mais miúdos, sempre inquietos para jogarmos à bola com ele no adro da igreja. O problema era que as improvisadas balizas não tinham redes nem o campo vedações e não demorou muito para que algumas janelas vizinhas vissem os seus vidros partidos com imediatos pedidos de desculpas do espirituoso senhor prior a quem o povo perdoava facilmente estes e outros pecadilhos no género. Quase imperdoável mais tarde, para os devotos fieis locais, foi o pesado choque do Padre Raimundo ter abandonado o sacerdócio para casar e ser feliz. Isso, porém, já são contas doutro dramático rosário que não cabe agora aqui.
Finda aquela procissão de velas de há 52 anos (sendo eu um dos seis bem comportados meninos do côro que o acompanhavam na celebração da missa e demais cerimónias religiosas), ao regressarmos à sacristia, o Padre Raimundo interpelou-me se não gostaria de ir estudar para o Seminário. “Lá, jogas futebol todos os dias e vais estudando para depois poderes ajudar a construir um mundo melhor. Que tal?” O desafio apanhou-me de surpresa e fiquei em dar-lhe uma resposta. Ao chegar a casa, disse a meus pais mas foi meu avô que me deu logo o seu sensato parecer. “Estudar é bom, pequeno. Mas, quando chegares à minha idade é que vais perceber que este mundo de desenganos nunca vai ter conserto de jeito porque Deus está em toda a parte mas o Diabo também anda à solta.” Meu avô tinha mais ou menos a idade que eu tenho hoje e agora percebo bastante melhor o que ele me queria dizer com aquilo.
Fui para o Seminário-Colégio de Ponta Delgada em outubro e, sete meses depois, tive a oportunidade de assistir às grandes Festas do Senhor Santo Cristo, ímpares na expressão espiritual da sua religiosidade popular. Nunca tinha visto tanta gente junta. Recolhida a demorada procissão, ao dar o meu passeio pela Avenida Marginal com outros colegas seminaristas, topo um aglomerado de pessoas rodeando um pai e um filho a protagonizarem em dia de festa uma cena bastante triste. “Mê pá é un sanabagana mal amanhade! Tá abaxe de cu de cã e na vale a pena dezer más…”, acusava o filho grosseiramente embriagado num corisco sotaque que quase soava francês. Claramente envergonhado e sem saber como se safar daquele embaraçoso fiasco, coitado do pai só erguia os olhos e as mãos postas para o céu: “Mê queride Sinhô Sante Criste dus Milógres, please, dá juizinhe ao mê filhe. Ele perdê-lo todo e este munde tamen tá perdide.” Mesmo intoxicado, o filho ouviu, percebeu e não deve ter gostado porque veio logo de encontro ao pai com os punhos cerrados para o agredir mas falhou em cheio e quase premiava um dos presentes com um murro indesejado antes de se estatelar no chão ao comprido fazendo contas à vida. “Mê pá vá pagá-las! Oh ye’ - mê pá vá pagá-las bim pagas!” Pobre pai (consta que viera da América pagar uma promessa), lavado em lágrimas e sem tirar os olhos do alto, como que à espera dum dos Milagres do Senhor, perdeu a fala e começava também a perder as cores quando a polícia chegou mesmo a tempo de o ver desmaiar enquanto o filho vomitava a bebedeira sem se sentir. Um caricato episódio que me fez vir à ideia as curiosas palavras de meu avô – “Este mundo não tem conserto.”
Meio século passado, apesar de todo o progresso tecnológico que nos facilita a vida hoje em dia, olhando à minha volta e sabendo o que agora sei, depois de ter estudado entusiasmado em construir um mundo melhor, que me perdoe o Padre Raimundo lá do paraíso aonde repousa mas, em meros termos de harmonia humana, não vejo jeitos deste mundo vir a melhorar coisa quê. Antes pelo contrário…

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