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485º Aniversário da Cidade de Angra do Heroísmo

domingo, 20 de janeiro de 2019

Da Califórnia de LUCIANO CARDOSO


ENERGIA POSITIVA

“Não pode haver espírito de ano novo se teimarmos em repetir erros velhos”. Assim nos previne a sensatez dos antigos, tão rica em lições que muito me tem ensinado ao longo dos anos. Já passaram mais de sessenta desde que vim ao mundo, sempre disposto a aprendê-las como merecem. 2018 ensinou-me uma boa. Foi logo no seu primeiro de janeiro. Decidira dar as boas vindas ao novo ano com marisco ao meu gosto e convidara o meu clã familiar para me ajudar a matar desconsolo dum bom caranguejo temperado à Ciopinno. Comprara-o na véspera contando com os dotes culinários da minha prezada dona de casa, sempre amável em fazer-me a vontade. “Não custa nada. Picas-me a salsa e a cebola?” Como de costume, não refilei. É uma das poucas coisas que faço bem na cozinha.
Temos sempre salsa no quintal. Cebolas não. Compro-as à saca porque me sai mais em conta. Tinha comprado dez libras há dois meses, mas esquecera-me que só restava meia dúzia. Embora começando já grelar, a sua aparência era ainda razoável e claro que não ia deitá-las fora sem primeiro vê-las por dentro. Afiei a faca e toca a descascá-las como manda a lei. A primeira ainda escapou quase toda, mas da segunda já nem lhe aproveitei metade. “Não vou ter sorte”, franzi a fronha desconfiado. E não a tive. As restantes fizeram-me chorar sem vontade ao ter de cortá-las uma a uma. Os olhos não resistiram. Apodreciam lá por dentro e irritaram-me cá por fora. Com os convidados prestes a baterem à porta, tive de ir num virote ao mercado mais perto para evitar que iniciássemos o ano sob o signo estragado da cebola podre.
Uma vez mais, à minha custa, aprendera sem reticências que as aparências iludem. Pior, no entanto, julgo eu, é quando nos desiludem por completo, enganando-nos redondamente. Não que seja coisa do outro mundo deixarmo-nos ludibriar pelo aspeto superficial dalgumas cebolas, batatas, bananas ou até mesmo pessoas ditas amigas. Quantas delas conhecemos quase só pela casca, desconhecendo-lhes por inteiro o miolo? Cada qual faça bem as suas contas. As minhas sugeriram-me engolir a lição em seco e corrigir o erro do ano passado – “porque não experimentas outra receita?” A consciência palpitou-me e persuadiu-me a saborear o arranque de 2019 em estilo completamente diferente. Não perdi tempo em reunir o meu clã e fazer-lhes eu a vontade de irmos disfrutar a passagem do ano na inconfundível magia do “lugar mais feliz deste mundo”.
“The Happiest Place On Earth” é um merecido título atribuído, desde há muito, à fabulosa Disneylândia – um parque de diversões único na sua fórmula mágica de irradiar felicidade. Seduz e encanta o mundo inteiro, atraindo diariamente pessoas de todas as idades, raças, credos e culturas diversas. Ninguém é excluído ou descriminado de lá entrar, a não ser pela sua má disposição. Ali topa-se apenas gente bem-disposta. E foi nesse jovial espírito de salutar convivência que a minha jubilosa tribo de oito, com idades dos dois aos sessenta e dois, se deliciou na aprazível transição do ano velho para o novo.
Todos sabemos que se trata duma questão meramente simbólica essa da mudança de calendários entre cada fim de dezembro e princípio de janeiro. Mas que há uma forte carga emocional colada ao que deixamos para trás e o que nos espera pela frente...não tenhamos a mínima dúvida. Procuramos, a todo o custo, substituir o que nos caiu mal pelo que aguardamos de bem. E fantasiamos o melhor para nós, desejando-o também aos outros com todos esses mimos mútuos das maiores prosperidades nas nossas vidas. No entanto, ficarmo-nos pelo desejo só, não basta. Isso de apenas trocarmos votos de floridas felicidades com beijinhos molhados no espumoso champanhe das palavrinhas doces, pouco adianta se não nos comprometermos depois em tudo fazermos ao nosso alcance para que tal possa vir a acontecer. Foi esse o nosso concreto compromisso familiar ao abraçarmo-nos no fantasioso reino da Disneylândia com o festivo fogo de artifício a saudar 2019.
Os desafios prometem continuar a baterem-nos à porta, porventura até mais atrevidos, a pedirem-nos forças que talvez julgamos não ter. Que remédio teremos senão fazermos das tripas coração para irmos buscá-las seja aonde for. Tenho presentemente entre mãos um desses incómodos contratempos em matéria de saúde que me vai exigir certamente umas boas doses de energia positiva. Venha lá donde vier, aconteça o que acontecer, tenciono esforçar-me por espalhá-la à minha volta. Sobretudo nas tenras vidas dos meus netos, o que nasceu há dois anos e o que está para nascer em dois meses, sei que posso exercer uma clara diferença para melhor. Faz parte do meu fascínio pelo mundo infantil.
Pena não poder dizer o mesmo do mundo adulto, cada vez mais afogado em pestilento lodo social. É a podridão que se alastra, os valores a inverterem-se, o crime a avolumar-se, a corrupção a expandir-se, o ódio a dividir-nos e tanta gente supostamente inteligente sem maneira de se querer entender para benefício comum – um absurdo que não se percebe. Bananas, batatas ou cebolas apodrecidas, percebemos que não se entendam e são facilmente descartáveis. Pessoas não. Daí o meu desencanto com tantas das prioridades adultas de hoje e a necessidade urgente que vejo de, sempre que pudermos ou desejarmos, voltarmos a ser crianças. Ao menos, de quando em vez. Só elas possuem a magia de manter este mundo relativamente são. Foi o que concluí da minha recente visita ao formidável universo da Disney. Vê-las aos milhares, multiplicando sorrisos e energia positiva ao fazerem-nos felizes – é uma meiga imagem que fala bem por si. E por mim.
Carlos Alberto Alves

Sobre o autor

Carlos Alberto Alves - Jornalista há mais de 50 anos com crónicas e reportagens na comunicação social desportiva e generalista. Redator do Portal Splish Splash e do site oficial da Confraria Cultural Brasil-Portugal. Colabora semanalmente no programa Rádio Face, da Rádio Ratel, dos Açores. Leia Mais sobre o autor...

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